A força das margens

11/07/21 - 07:51

Padre Warlem Dias

“Naquele tempo, vendo uma grande multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do Lago” (Mt 8, 18); “Passemos a outra margem do lago” (Lc, 8,22); “Atravessemos para outra margem” (Mc, 4,35).

A outra margem parece distante e até inexistente. As margens trazem conflitos e provocam saídas e encontros com o desconhecido. As margens em nosso contexto são lugares que não queremos enxergar e ter contato. Temos as nossas margens interiores que quando abertas revelam riquezas não exploradas e nem exportadas devido aos nossos receios. 

Ficando trancados a mil chaves, acovardados em nossos medos e embotados em nosso olhar sobre nós mesmos e sobre o mundo, negamos a travessia. Melhor ficar em nossa zona de conforto, na manutenção do “status quo”, do que viver o risco e perigo da travessia.

Guimarães Rosa nos propõe as travessias físicas e existenciais na terceira Margem do Rio. Ao fazer a passagem para outra margem é necessário coragem de transcender os padrões e as regras estereotipadas da sociedade esclerosada. É como aprender um novo idioma; é ter um olhar vasto sobre o mundo e sobre si mesmo; é viver os segredos e encantos do que não é previsível.

Vivemos de travessias. A vida cotidiana é feita de deslocamentos contínuos, em busca de outras perspectivas de saídas para que a vida não morra. O que significa a outra margem? O que é arriscar nesta travessia?

Nestes tempos, somos chamados à outras margens e a desafiar a mesmice sistêmica.

Passar à outra margem é entrar no mundo e na luta pelo SUS, pelas políticas públicas, pela habitação, pelo meio ambiente, pelo trabalho, pela terra, pelos os pobres excluídos feitos refugos humanos.

Ir à outra margem não como turistas, mas como peregrinos. Passeamos nas margens, fotografamos e não inserimos nas causas dos marginalizados e no esperançar pela vida.  

Nós, nos projetos dos outros, falamos do “ouvi dizer”; ficamos à margem. O Papa Francisco disse: “Se a Igreja renegar os pobres, deixa de ser de Jesus; torna-se elite moral ou intelectual.”

A força das margens nos envolve e humaniza; nos leva a um encantamento pelo mundo do outro: sua língua e riqueza cultural para além de sua pobreza material. A força das margens nos leva ao despojamento das wnossas presunções e ao aprendizado do caminho. As margens nos colocam diante de outras geografias humanas. Atravessemos para a outra margem e nos deixemos ser transformados.