Cidade Íntima

01/08/21 - 08:14

Aloísio Vander

“E depois, foram para Jericó. E, saindo ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava assentado junto do caminho, mendigando.” [Marcos, 10:46]

Jesus não era um homem inquieto, pelo contrário, a sua paz era contagiante. Porém, este versículo nos evidencia, de início, aquela sua característica de não se acomodar em um determinado local. Ele sempre chega, deixa os benefícios e depois sai.

Jericó é um dos assentamentos urbanos mais antigos do mundo, surgido há quase 10 mil anos. Localizada às margens do Rio Jordão, está a 240 metros abaixo do nível do Mar Mediterrâneo, numa grande depressão. Ao tempo de Jesus era economicamente próspera. Frequentada por negociantes sempre ávidos das riquezas materiais.

Por suas características físicas, Jericó simboliza a cidade íntima de nossos corações e mentes quando voltada para a satisfação dos interesses puramente sensoriais, esquecida da nossa condição de seres imortais, apenas provisoriamente internados na matéria para a execução de tarefas nobilitantes.

Jesus adentrou em Jericó, mas lá não permaneceu. Ele o fez à feição dos Amigos Espirituais que se introduzem nas regiões trevosas do plano espiritual para esparzir a luz, mas que lá não se demoram além do necessário. Nesses ambientes insalubres, encontram-se grandes multidões de sofredores que tentam seguir os nobres mensageiros, mas que não o logram porque, durante a sua estadia na Terra, não acumularam provisões para a Grande Viagem. Muitos, a exemplo do cego Bartimeu, assentaram-se à margem do caminho e, com a visão espiritual avariada pelos gravames cometidos contra si mesmos, se deixaram quedar inertes.

Jericó representa os interesses imediatistas que se agitam em nossa intimidade, toldando a nossa visão da realidade espiritual. Como Bartimeu, somos individualidades e trazemos, impressos nas camadas mais profundas do nosso psiquismo, os caracteres de nosso grau evolutivo. Jesus visita-nos a cidade íntima. Ele entra e sai, nela não permanecendo. Mas, a sua visita nos concita a avaliar a nossa posição íntima: estamos assentados à borda do caminho, inertes, expectantes, aguardando que os semelhantes façam por nós o que nos cabe, ou já nos erguemos, dispostos a palmilhar o caminho com os próprios pés, no encalço do Senhor?