A dinâmica Mariza da Conceição Pereira

Professora, escritora, membro da Academia de Letras de Sete Lagoas, madrinha dos ex-combatentes da II Guerra Mundial é, sem dúvidas, uma figura icônica e muito querida em Sete Lagoas. Em entrevista ao SETE DIAS, Dona Mariza da Conceição Pereira conta um pouco de sua história, trajetória e principais lembranças e feitos no mundo das letras e no cenário histórico-cultural de Sete Lagoas.

08/09/21 - 08:42

A professora e escritora Mariza da Conceição Pereira,  um patrimônio de Sete Lagoas
A professora e escritora Mariza da Conceição Pereira, um patrimônio de Sete Lagoas

Por Roberta Lanza

Quando e onde nasceu? Quais as principais lembranças de infância e juventude?
Nasci em Sete Lagoas, em 9 de julho de 1940. Meus pais: Santos José Pereira e Ruth Gonçalves Pereira. Sou a primeira dos nove filhos do casal. Até os três anos de idade, residimos na Rua Quintino Bocaiúva, Bairro Santa Luzia, então chamado “Garimpo”. De lá, trago uma lembrança boa, recheada de ternura saudade: a convivência diária com o Vovô Zé Bruto, descendente de escravos africanos, (de quem “falei” no meu livro sobre os Tipos Populares e Figuras Marcantes de Sete Lagoas).  À noite, da janela de nosso quarto, assistíamos às alegres festas folclóricas que, com certa frequência, aconteciam em seu quintal. De dia, recebíamos pela cerca de bambu os roletes de cana de açúcar, as balinhas e as bênçãos do vovô...

Outra lembrança: pequenina ainda, fui ao velório de um jovem que morrera de tétano. Não entendi porque “dormia”, com uma das mãos muito “gorda” e envolta em pano branco. Diziam: “Foi a espingardinha de chumbo que explodiu na mão dele. Agora, ele vai para o céu, ficar com os anjos!”. Nada entendi. E por que tanta gente chorando? Naquele dia, eu soube da existência da morte...

Ainda durante a infância, na época da escola: falando em “anjos”, os céus me enviaram um deles, o mais bonito, o mais carinhoso e terno, como primeira professora: Dona Ana Maria L’Abbate, no Grupo Escolar “Professor Cândido Azeredo. Já das muitas marcas que me ficaram da juventude, uma sobressai: o sonho de cursar o Normal, que me levaria ao Magistério. Tive que fazer os cursos de Auxiliar de Escritório e Contabilidade. Eram gratuitos. Dariam para o “bolso” de papai... A fé, a prática religiosa levada a sério, preenchiam o vazio...Catequisa desde os 14 anos, eu tinha alunos e me sentia feliz!  

Como foi a sua trajetória profissional? 
Depois de escriturária (três anos) e bancária (sete anos e meio), com o coração ardendo de felicidade, fiz o sonhado Curso de Magistério: primeiro lugar e oradora da turma. Concurso do Estado: primeiro lugar! Nomeação da mais feliz das Mestras! 
Quando “nasceram” em Sete Lagoas as primeiras Faculdades (FEMM), já Professora de Língua Portuguesa, eu fiz o Curso de Letras pela FAFI. Na Universidade de Itaúna-MG, completei a Licenciatura (Plena), que não tínhamos aqui. Em Belo Horizonte, na Pontifícia Universidade Católica (PUCMG), cursei Teologia (Intensivo), pois lecionava também o Ensino Religioso.

Após a aposentadoria no Estado, exerci na Secretaria Municipal de Cultura, o cargo de Diretora do Departamento de História, quando tive a alegria de reativar o Museu Histórico Municipal. Nesse Cargo de Confiança, passei por seis Prefeitos Municipais e cinco Secretários de Cultura.

Quando e como adentrou no mundo das letras e literatura? 
Aos oito anos, no segundo ano primário, meu primo Ronaldo de Souza  Gonçalves e eu fomos premiados em “Composição”, feita na aula de Língua Pátria. No ano seguinte, nova premiação: versinhos sobre o Rio São Francisco, que estávamos “conhecendo” pelas aulas de Geografia. Fui me empolgando! 

Na Escola Técnica de Comércio (atual E.E, Maurilo J. Peixoto), meu Professor de Português, Olímpio do Carmo Fernandes, fez publicar o meu primeiro artigo de jornal: uma crônica. Na verdade, uma redação feita em classe. 

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Quais livros têm publicado e quais prêmios já recebeu?
“Vida” – Poemas – 1967 ; “Marijande na Escola – Poemas p/ a Infância - 1975 ; 
“Livro de Ouro” – Cinquentenário do CLSL - 2014; “Tipos Populares e Figuras Marcantes de SL” - 2017.
Na verdade, entre diplomas, placas, medalhas e troféus, conto mais de 60. O considerado “maior” é a Medalha de Ouro de Primeiro Lugar do Brasil, no Ano Internacional da Criança, pela Academia Internacional de Letras do Rio de Janeiro, em 1979. Muito me honra outro “prêmio”: a Medalha de “Colaborador Emérito do Exército Brasileiro”, em 28/08/2013, a mim concedida pela assistência prestada aos heróis ex-combatentes da II Guerra Mundial, como sua madrinha. 

Como aconteceu de ser madrinha dos ex-combatentes da II Guerra?
Desde que assumi o cargo de Diretora de História, reativando o Museu Histórico Municipal, constatei que as cinzas de nosso concidadão Claudovino Madaleno dos Santos, herói morto em campo da II Grande Guerra, não se encontravam em recipiente apropriado. Consultando autoridade competente, vi acolhida a minha intenção: “o sepultar, com as devidas honras”. Em reunião com os demais ex-combatentes e o Sr. Geraldo Bité, sobrinho do herói Claudovino, foi unânime a decisão: “sepultar!”. E na Semana da Pátria, em 1995, ano do cinquentenário do fim da II Guerra Mundial, em grandiosa festa cívico-religiosa, descansou em solo - pátrio o nosso herói! E nossos queridos ex-Pracinhas, em concordância com o 4º GAAAE, concederam-me o honroso título de “Madrinha dos ex-combatentes”.

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Conte sobre sua entrada e vivência no Clube de Letras de Sete Lagoas. 
O CLSL nasceu em 19/12/1964, com 10 jovens do sexo masculino. Em maio de 1965, fui convidada pelo fundador e presidente Marcio Vicente da Silveira Santos a ingressar: terceiro membro do sexo feminino àquela época. No mesmo ano, tomei posse solene na Cadeira do Patrono Dom Pedro II. Como fiz constar no Livro de Ouro (50º aniversário), “o CLSL é o oásis para minha sede. Entre cultores do mesmo Ideal, os ‘Irmão Clubistas’, respiro amizade, sinto a poesia da vida, certa de havermos oferecido a Sete Lagoas o melhor de nós mesmos”.

Como vê o cenário educacional e cultural de Sete Lagoas? 
Cenário frio, sem a vida palpitante que tivemos em outros tempos! Onde estão:  a Banda de Música União dos Artistas, o Coral (dos Pequenos Cantores) Dom Silvério, o Clube da Seresta de Sete Lagoas, nossos Artistas Plásticos e suas mostras ao povo, vários grupos de teatro, os recitais de música e de poesia?...  Onde estão nossas Pastorinhas do Natal, nossos Ternos de Congado, nossas Folias de Reis Magos?! E as gincanas educativas de nossas escolas, os festivais de cultura unindo professores, funcionários, alunos e suas famílias?!... A indesejada pandemia vai passar! E o que pode ser feito? Recomeçar, reconstituir, reviver! 
 
Qual o lugar mais gosta da cidade? 
Lugar de minha predileção, mas fora dos festejos anuais que lá se realizam, é a Serra de Santa Helena. Nada mais bonito do que a “minha cidade” vista lá do alto! Contemplada, admirada, evocada em sua história... Sete Lagoas só precisa de carinho, amor, cuidado e orgulho dos sete-lagoanos, sobretudo da parte daqueles que a governam. 

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