Segunda Chamada /2a. temporada - Um festival de erros

18/09/21 - 15:00

Wellberty Hollyvier D’Beckher

Quando Segunda Chamada estreou em 2019 foi uma grata surpresa. A série que se passa na Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, com o ensino do Eja, no turno noturno, veio tratando  de assuntos caros da nossa sociedade, temas como: abandono de incapaz, aborto, uso de drogas por professores e alunos, intolerância religiosa, homossexualismo, racismo, violência urbana, violência contra a mulher, infidelidade e a relação familiar entre pai e filho complicada. A série tratou de tudo isso com uma leveza, com um olhar imparcial, mas sem deixar de ser pontual. Tinha problemas também, como só ter quatro professores em cena, sendo um de teatro, que dificilmente estaria no Eja. Nem na sala dos professores haviam outros, nem como figurantes e, no final do ano letivo, na festa de formatura, isso incomodou. Será que na escola só havia professores de história, português, matemática e teatro? O último episodio foi ótimo, com um dos alunos puxando a música Tente Outra Vez, de Raul Seixas, logo seguida cantada por todos. Foi emocionante, e a renovação para o segundo ano deixou todos animados.

Aí veio a pandemia, o mundo parou, e séria teve que ser adiada e só chegou agora em setembro de 2021 com 6 episódios. Mas ela veio diferente, continuam apenas os quatro professores, mas este é o menor problema da série. O primeiro ano se passa em 2019, logo o segundo ano teoricamente teria que ser em 2020, com todos os desafios de dar aulas online durante a pandemia, mas a série resolveu ignorar isso. Para a série, a pandemia não aconteceu, e começou o segundo ano normalmente, como se nada tivesse acontecido, sem nenhuma citação ao que mundo passou e ainda está passando, prestando assim um desserviço a seu público. Pode ter sido uma escolha narrativa,  mas dentro do mundo de Segunda Chamada, que no primeiro ano primou pela verossimilhança, creio que foi uma escolha errada e que empobreceu a série.

Mas não é só isso, os temas escolhidos para este segundo ano, além de serem pobres, não foram bem desenvolvidos, ficando na superfície o Alzheimer, mostrado na série através do personagem Gilsinho (Moacyr Franco), e não tem um arco narrativo rico, como poderia ser. A impressão que fica é que os roteiristas não pesquisaram bem sobre a doença, que poderia sim render ótimas discussões, mas não é caso aqui e colocar o personagem Gilsinho cantando os maiores sucessos de Moacyr Franco é de uma pobreza e falta recurso narrativo de dar pena.

A evasão escolar, um tema que deveria e poderia mostrar a realidade do que acontece com o ensino noturno do Eja, não tem tempo o suficiente de tela para mostrar ao público a sua real gravidade. Na série, a escola corre o risco de fechar se não arrumar mais 15 alunos para ter o mínimo de alunos exigido pela Secretaria de Educação. Logo a onipresente professora Lúcia (Debora Bloch) arruma uma solução: ela vê algumas pessoas morando na rua embaixo de um viaduto, conversa com eles, e não é que todos eles se matriculam no outro dia? Porém não são 15, mas o que importa é trazer mais um tema espinhoso à série, então para quê se ater números, que a própria série levantou?

Os moradores com vulnerabilidade social são discriminados por outros alunos e membros de funcionários da escola. O grupo liderado por Hélio (Ângelo Antônio) e cada membro deste grupo tem sua própria história. Este tema é o melhor tratado pela série. É bem conduzido? Não, mas rende boas discussões sociais, que com atenção maior poderia salvar a série, mas isso não acontece. A trama da professora Sônia (Hermila Guedes) que sofre na primeira temporada com a violência do marido, é previsível, assim como sua condução. O professor Marco André (Silvio Guindane) tem um desfecho que a gente aguardava desde o final da primeira temporada. Foi encomendado 12 episódios, mas só foi apresentado 6, e termina com um gancho para uma nova temporada, resta aguardar se será melhor do que esta risível segunda temporada.

A série pode ser vista na Globoplay. Nota 4,5\10
 

 

imagemWellberty Hollyvier D’Beckher é formado em artes cênicas pela UFMG, pela faculdade do Rio de Janeiro em crítica e análise de filmes, além de cinéfilo desde os dez anos de idade.

 

 

 

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