Diversidade e o paradoxo da tolerância

12/11/21 - 15:22

Dr. Silvio de Sá

Nos últimos anos o debate sobre a questão da diversidade, no âmbito da sociedade, ganhou bastante relevância pública, tanto nos ambientes políticos, quanto sociais em nosso país. Do ponto de vista da etimologia, a palavra diversidade deriva do latim (diversitas, atis) e significa “diferença, variedade, mudança, alteração”. 

Entretanto, o argumento favorável à existência de uma sociedade plural, que preconiza uma igualdade de todos em meio às diferenças, não se limita apenas à questão do respeito à diversidade. Em síntese: não basta reconhecer a existência de uma diversidade entre as pessoas, é preciso que a mesma sociedade, ao mesmo tempo, promova a inclusão de grupos de pessoas que, pela ausência de respeito ou compreensão às diferenças, se tornam minorizados ou sub-representados. 

Entre as mais variadas pautas que circunda o tema da diversidade, podemos destacar: a necessidade de mais mulheres nos espaços de liderança, considerando que 51% da população brasileira é composta por mulheres, a questão racial, tendo em vista que 54% do povo brasileiro é negro. Uma outra pauta corresponde ao respeito à diversidade social, liderada pelo movimento LGBTQIA+ e, por fim, o respeito à diversidade, também tem sido pautado pelas pessoas com deficiência ou (PCDs). 

Em face das pautas supracitadas surgem os mais variados argumentos, contrários ou favoráveis ao tema da diversidade social. Percebe-se, entretanto, que muitas vezes o debate que envolve o tema da diversidade social não chega a um consenso e as partes envolvidas no discurso político ou social partem para argumentos de autoridade. 

Ocorre que o respeito à diversidade e à defesa de uma inclusão social de grupos minorizados ou sub-representados é um discurso que decorre de um imperativo de natureza ética, valendo-se aqui das máximas de Kant. Ou seja, por mais que uma pessoa possua uma posição política ou religiosa, bem delineada e solidificada em seus padrões morais, ela jamais poderá marginalizar uma outra pessoa em razão de sua opção sexual, por exemplo. É que a Ética, enquanto ciência que baliza os preceitos morais, não suporta esse tipo de discriminação entre os seres humanos, conforme ensina Sánchez Vásquez. 

Aqui entra a importância de se compreender o “paradoxo da tolerância” no sentido de que um cenário em que a tolerância é ilimitada, poderia levar ao desaparecimento da própria tolerância. Dito de forma mais simples: viver em sociedade pressupõe respeito e tolerância às diferências, porém, sem perder de vista que é um dever ético insurgir contra aqueles que são intolerantes, ou seja, que abandonam o debate racional e partem para argumentos de autoridade para justificar as suas posições a partir de dogmas ou crenças. 

Isso não significa que, em uma sociedade democrática ou aberta, alguém não possa defender a sua opinião ou seu ponto de vista. Ela não apenas pode, mas deve fazê-lo, porém, mediante uma demarcação racional e mediante argumentos falseáveis. O que não se admite é que, ante a ausência de argumentos racionais, demarcados por critérios de faleabildiade, uma determinada pessoa passe a defender argumentos dogmáticos ou de crença, tais como: superioridade de raça ou gênero.  

Por fim, um ser humano, conforme preconiza Karl Popper, deve reservar o direito, em nome da tolerância, de não tolerar os intolerantes. Em sendo assim, qualquer movimento que pregue a intolerância, ante a ausência de argumentos racionais, deve ser objeto de reprimenda, pela via do direito democrático.  

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