Celso Martinelli
A história de Gabriel Melo França, de 10 anos, é marcada por descobertas, desafios e, sobretudo, por um amor que transforma. Filho de Ivânia Melo e Leonardo, o garoto com síndrome de Down mudou a forma como a família enxerga a vida, valorizando cada conquista e ressignificando o cotidiano. “Gabriel não chegou trazendo limitações — ele chegou trazendo propósito, ensinamentos e uma nova forma de enxergar o mundo”, destaca a mãe.

Entre consultas, terapias e aprendizados diários, a trajetória da família revela a importância da informação, do acolhimento e das redes de apoio para garantir desenvolvimento, inclusão e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, evidencia os desafios ainda enfrentados por muitas famílias, especialmente no acesso a serviços especializados e na construção de uma inclusão real.
Na entrevista a seguir, Ivânia Melo compartilha, com sensibilidade e sinceridade, como foi a descoberta do diagnóstico, os caminhos percorridos ao longo dos anos e sua visão sobre inclusão, preconceito e futuro para pessoas com síndrome de Down.
SD – Como foi a descoberta do diagnóstico e de que forma a sua família se adaptou a essa nova realidade ao longo do tempo?
Ivânia Melo – Descobrimos o diagnóstico no nascimento do Gabriel, um dos dias mais marcantes das nossas vidas. Digo no plural, porque a chegada do Gabriel mudou tudo em nossa vida e pra melhor. Durante toda a gestação, nenhum exame indicou qualquer possibilidade de Síndrome de Down. Por isso, tudo aconteceu de forma inesperada, mas, ao mesmo tempo, profundamente transformadora. A chegada do Gabriel já era, por si só, carregada de emoção. Para mim, de forma ainda mais intensa. Na 33ª semana de gestação, em um ultrassom de rotina, foi identificado um pequeno problema na placenta, o que trouxe apreensão e exigiu ainda mais cuidado nessa reta final. Com muita fé e muita esperança, consegui levar a gestação até a 35ª semana. Gabriel nasceu com 35 semanas e 2 dias, pesando apenas 1,460 kg e medindo 42 cm — tão pequeno, tão frágil, e ao mesmo tempo, tão forte. Diante daquele momento delicado, meu único pedido a Deus era pela vida do meu filho. E, caso o caminho fosse diferente do que eu havia imaginado, que Ele me concedesse discernimento e serenidade para acolher tudo o que viesse. E foi ali, na sala de parto, que tudo fez sentido. Quando o pediatra, após avaliá-lo, disse que havia a possibilidade de Gabriel ter Síndrome de Down, o que brotou em mim não foi medo — foi gratidão. Uma gratidão profunda, verdadeira, pela vida do meu menino. Naquele instante, eu senti com clareza que Deus já vinha me preparando há muito tempo para aquele encontro. Ao longo dos meus 10 anos de relacionamento com meu marido, sempre me senti naturalmente conectada a histórias de crianças com deficiência. Nas redes sociais, eu as acompanhava com carinho, e, de forma muito especial, aquelas com Síndrome de Down sempre tocavam meu coração de maneira diferente. Hoje, fazendo um balanço, entendo que nada foi por acaso. Deus, em sua infinita generosidade, nos confiou uma vida. E mais do que um diagnóstico, recebemos uma missão de amor. Gabriel não chegou trazendo limitações — ele chegou trazendo propósito, ensinamentos e uma nova forma de enxergar o mundo. Percebemos, hoje, o quanto cada pequeno detalhe da sua evolução é profundamente lindo e o quanto aprendemos a valorizar cada conquista como uma verdadeira vitória.

SD – Quais foram (ou ainda são) os principais desafios enfrentados no dia a dia, especialmente em relação ao acesso a tratamentos, educação e serviços especializados?
Ivânia Melo – Graças a Deus, logo que Gabriel foi atendido por um pediatra fora da Maternidade, ele nos indicou a Associação Instituto Ivone e Pedro Lanza (IPEL Down), em Sete Lagoas, que atende especificamente pessoas com Síndrome de Down com especialidades como fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia. No final dos 3 meses Gabriel começou na fisioterapia na IPEL. Íamos toda a semana para que ele pudesse receber o atendimento especializado e que pudéssemos receber orientações para que reforçássemos em casa. Com 5 meses, ele começou a ser atendido pela fonoaudióloga em Cachoeira da Prata pela Unidade de Saúde local. E é quem o atende até hoje pelo Núcleo Especializado da cidade. A única dificuldade que enfrentamos foi para encontrar um profissional de Terapia Ocupacional, não porque não tínhamos o atendimento, mas por falta de profissionais na área que pudesse nos atender. Hoje, Gabriel participa do AEE, sessões de fono e TO pelo Núcleo de Cachoeira da Prata, além de ter sessão 2 vezes na semana com TO particular em Sete Lagoas. Adaptar a esse novo mundo não é fácil, mas buscando as informações, profissionais sérios e comprometidos a nos ajudar, a caminhada que antes era uma luta, vira uma jornada tranquila. E o mais importante, quando há amor, tanto na relação com nosso filho, como nas relações nas quais precisamos estreitar laços, os desafios ficam menos maçantes.

SD – Como você avalia a inclusão e a acessibilidade para pessoas com síndrome de Down em áreas como escola, convivência social e, futuramente, o mercado de trabalho? Ainda há preconceito?
Ivânia Melo – Os avanços foram significativos em diversas áreas. Há mais recursos, mais informações, apesar de que ainda há preconceito e a falta de inclusão. Porque a inclusão de verdade acontece quando nós, pais, não precisamos ficar pedindo que seja feito o básico. Mas infelizmente, ainda é uma realidade. No entanto, hoje em diversos lugares há o diálogo, há a busca pelo conhecimento e por querer acolher nossos filhos, nos ouvir e a nos entender. Está longe do que sonhamos para nossos filhos, mas é um começo que, pelo que vejo, vai ser muito bom lá na frente. Precisamos evoluir para uma inclusão real, que não seja só na fala, que seja por atitudes, que toda as áreas e a própria comunidade reconheça as capacidades dos nossos filhos, respeitem as diferenças e ofereça oportunidades iguais, inclusive pensando no futuro dessas pessoas no mercado de trabalho.

SD – Quais instituições, profissionais ou redes de apoio foram fundamentais nessa caminhada e que orientações você daria para outras famílias que estão começando essa jornada?
Ivânia Melo – As redes de apoio fazem toda a diferença. Se não tivesse meus familiares e toda a nossa rede de apoio, a caminhada poderia ter sido mais difícil. Além de profissionais comprometidos, escolas acolhedoras e, principalmente, o contato com outras famílias que vivem a mesma realidade são fundamentais. Participo de diversos grupos com pessoas que vivem a mesma caminhada que eu, cada filho (a) com sua particularidade, sua personalidade, mas com histórias que podem ser compartilhadas e que nos ajuda bastante em diversas situações. Esse apoio emocional e a troca de experiências fortalecem e orientam o caminho. Para quem acaba de ter um filho com esse diagnóstico, eu diria: em primeiro lugar, aceite o diagnóstico do seu filho, porque o diagnóstico dele não vai definir o futuro, apensar vai mudar o percurso para um caminho que requer observar o simples, que torna pra nós algo difícil de descrever, busque informação, conheça os direitos da sua criança, confie no potencial dela e não caminhe sozinho. A união entre as famílias é uma das maiores forças para garantir avanços e conquistar respeito.






