
O Espiritismo é uma religião?
Allan Kardec repetiu algumas vezes que o Espiritismo não era uma religião. E definiu-o assim em seu “O Que é o Espiritismo”: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.” E, na “Revista Espírita” de julho de 1859, reforça: “Não o consideramos senão como ciência filosófica, que nos explica uma porção de coisas que não compreendemos e, por isso mesmo, em vez de abafar as ideias religiosas, como certas filosofias, faz brotá-las naqueles em que elas não existem.”
Hoje, os espíritas, somos unânimes em afirmar que o Espiritismo é também religião.
Onde, então, a contradição?
Em parte alguma. A questão é que o Espiritismo não é religião no sentido comum do termo. O Espiritismo é uma doutrina que possui um aspecto religioso, que se “assenta sobre as próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar”.
E este aspecto religioso visa, essencialmente, promover a relação direta da criatura com o Criador, sem intermediação.
Foi isso que levou Kardec a afirmar que “o Espiritismo é o mais potente auxiliar da religião”, por permitir a ela enxergar a inutilidade de rituais, cerimônias, sacerdotes e locais “sagrados” para a aproximação e adoração ao Criador.
A eliminação desses elementos exteriores facilitaria a união entre as religiões, uma vez que eles, muitas vezes, as desviam do foco primordial: encaminhar a criatura ao Criador.
“O objetivo da religião é conduzir a Deus o homem”, enfatiza Allan Kardec. A ponte entre o Criador e a criatura é outra criatura, qualquer criatura, e não somente as que são correligionárias. Foi para demonstrar isso que Jesus contou a parábola do bom samaritano, destacando que o samaritano possuía crenças religiosas diversas das dos judeus e, por isso, era severamente discriminado por estes.
Portanto, todo grupamento religioso que não ajuda seus adeptos a se comportarem à maneira do bom samaritano, incentivando neles o desprezo pelos diferentes, afasta-se de sua finalidade, forjando homens supersticiosos e fanáticos. Esses e outros ingredientes são os mesmos que inclinaram os líderes do judaísmo a assassinarem Jesus.





