O papel estratégico das ICTs no ecossistema de inovação

por Janayna Bhering (@janaynabhering)
Engenheira com Mestrado em Ciência e Tecnologia; Especialista em Estatística Aplicada a Processos (Six Sigma Black Belt) e Gestão da Inovacao; Doutoranda em Inovação e Tecnologia pela UFMG.

No debate sobre inovação no Brasil, é comum que os holofotes se voltem para startups, grandes empresas e, mais recentemente, para a inteligência artificial. No entanto, há um ator estrutural, silencioso e frequentemente subestimado: as Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs).

As ICTs são organizações, públicas ou privadas, dedicadas à geração, difusão e aplicação do conhecimento científico e tecnológico. No Brasil, o conceito é formalizado pela Lei de Inovação, que define ICTs como entidades que têm, entre suas finalidades, a pesquisa básica ou aplicada e o desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços. Mais do que centros de pesquisa, essas instituições atuam como pontes entre academia, setor produtivo e governo, desempenhando papel central na transformação do conhecimento em inovação com impacto econômico e social.

Tradicionalmente reconhecidas como geradoras de conhecimento científico, as ICTs vêm assumindo um papel muito mais sofisticado, e ainda pouco discutido, na arquitetura da inovação contemporânea. Elas deixaram de ser apenas “fornecedoras de tecnologia” para se tornarem orquestradoras de ecossistemas.

Esse papel estratégico se manifesta, sobretudo, em três dimensões.

A primeira é a tradução entre mundos. ICTs operam na fronteira entre ciência, mercado e políticas públicas, convertendo demandas difusas em projetos estruturados, viáveis técnica e financeiramente. Em um ambiente onde empresas muitas vezes não dominam os instrumentos de fomento, e o Estado carece de capilaridade para alcançar a ponta, as ICTs atuam como tradutoras de linguagem, risco e oportunidade.

A segunda dimensão é a redução de incertezas sistêmicas. Projetos de inovação, especialmente os de maior densidade tecnológica, carregam riscos elevados, técnicos, regulatórios e de mercado. Ao estruturarem testes, validações e provas de conceito, as ICTs não apenas desenvolvem soluções, mas destravem decisões de investimento. Em muitos casos, são elas que tornam um projeto “financiável”.

A terceira, e talvez mais estratégica, é a construção de confiança. Em ecossistemas fragmentados, onde diferentes atores possuem interesses e tempos distintos, a confiança é um ativo escasso. ICTs, quando bem posicionadas, funcionam como instituições neutras capazes de alinhar expectativas, mediar parcerias e sustentar agendas de longo prazo, algo essencial em cadeias complexas como saúde, mobilidade e energia.

Paradoxalmente, quanto mais eficaz é esse papel, menos visível ele se torna. Afinal, seu impacto não aparece apenas em patentes ou publicações, mas na viabilização de projetos que, sem essa mediação, sequer existiriam.

Ignorar essa função é um erro estratégico. Em um contexto de reindustrialização, transição energética e transformação digital, o Brasil não precisa apenas de mais inovação, precisa de melhores mecanismos de coordenação. E é justamente aí que as ICTs operam.

A pergunta que deveria orientar líderes públicos e privados não é se devemos investir em ICTs, mas como potencializar seu papel como infraestrutura essencial da inovação. Porque, no fim, são essas engrenagens silenciosas que determinam se boas ideias permanecerão no papel, ou se, de fato, chegarão ao mercado.