Colunista Convidada – UMA MANHÃ DE DOMINGO

Por Mariana Leão Sousa

Era uma manhã de domingo comum. Nenhuma data comemorativa. Nenhum feriado. Apenas três de julho de 2016.

O telefone tocou muito cedo.

— Alô! É da residência do Dr. Marcio Tadeu?

— Sim. Ele não está.

Eu sabia o motivo. Pouco antes, havia escutado o som das chaves na porta, no mesmo horário matinal de sempre.

— Aqui é do Hospital Nossa Senhora das Graças. Com quem falo?

— Mariana, filha do Dr. Tadeu. Posso ajudar?

— Seu pai caiu na porta do hospital e se recusa a receber atendimento. Preciso da autorização de um familiar para prosseguir com a internação.

Desliguei o telefone com a mesma pressa com que chamei minha mãe. Pegamos o carro e partimos para o hospital.

Todos os domingos, ele saía para visitar os pacientes da semana, “dar altas”, como ele mesmo dizia. Depois, seguia para a casa de Antonio Faria — ou “papai”, como carinhosamente chamava meu avô.

Aquele domingo comum tornou-se o domingo que jamais seria esquecido.

Ao chegar à sala de emergência, o avistei “pendurado” de fios no peito em um quarto lotado de médicos em todos os cantos daquele pequeno espaço. Olhei para ele, peguei naquelas mãos firmes, e ele me disse

— Vai ficar tudo bem, filha.

Depois daquele momento, nada ficou! Com uma partida precoce, o que vimos foi comoção em razão da sua ausência, tão repentina.

Muito orgulhosamente dizemos que o Dr. Marcio Tadeu deixou como legado a história de um médico muito humano e benevolente, que dedicou sua vida para salvar muitas outras. Diziam muitas vezes assim:

— Se ninguém descobriu, pode levar ao Dr. Marcio que ele resolve.

E era verdade. Ele esmiuçava cada parte de um caso inexplicável até encontrar o caminho para a cura. 

Dr. Márcio Tadeu

Não existia um só dia em que não abrisse seus livros à noite para estudar a cirurgia do dia seguinte. Ele dizia que um detalhe poderia salvar uma vida.

Não havia um só dia em que ele não abrisse os livros à noite para estudar para aquela cirurgia do dia seguinte. Dizia que um detalhe podia salvar uma vida. Chegava em casa com queijos, compotas, pano de prato e leitoa quando perto do Natal, todos agrados que evidenciavam afeto e gratidão.

Alguns amigos o chamavam de professor. Por onde passava, deixava o rastro de gentileza. Fazia questão das pessoas. Tinha fala firme e opinião certeira.

Já se foram dez anos daquele domingo comum. Se hoje estivesse aqui, provavelmente estaria na mesma sala de cirurgia, vestido de branco, com a caneta no bolso direito e sua inseparável pasta de couro marrom. Dentro dela, um estetoscópio, um aparelho de pressão, um carimbo com seu nome e as histórias de tantas vidas que suas mãos ajudaram a preservar.

Não há tempo que diminua a sua presença. Ela permanece viva no olhar de cada pessoa que, naquele domingo, nos abraçou e disse:

— O Dr. Marcio Tadeu salvou a minha vida.

Uma saudosa homenagem de sua esposa Dorinha Leão; de seus filhos, Daniel e Mariana; e de seu neto, Marcelo.