Quanto custa ser pai? Planejamento financeiro vira aliado para equilibrar os gastos e o sonho da paternidade

por Jéssica Alves

Quanto custa, na ponta do lápis, o sonho de ter um filho? Para muitas pessoas, a resposta financeira para essa pergunta costuma ser complexa, mas de  acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de estudos do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), criar um filho até o início da vida adulta pode variar de R$ 480 mil a mais de R$ 1,2 milhão na classe média brasileira.

Jornalista Leandro Jahel e família

Em um cenário econômico onde o custo de vida cresce em ritmo superior à inflação oficial, a engenharia financeira familiar se tornou um elemento indispensável na rotina dos lares.

O jornalista Leandro Jahel, de 39 anos, morador de Belo Horizonte, relata que a decisão de construir uma família e viver a paternidade veio antes de qualquer cálculo de orçamento. Casado há 14 anos, ele é pai de Maria Luísa, de 8 anos, e Helena, de 2 anos.

“Quando decidimos ter nossas filhas, eu nunca fiz cálculos financeiros para tomar essa decisão. Não pensei se seria mais ou menos caro, se caberia no orçamento ou quanto isso representaria no futuro”, reflete Leandro.

Mas a dinâmica familiar de Leandro se tornou desafiadora quando ele e a esposa optaram por ela focar diretamente na criação direta das crianças, o que centralizou para ele as obrigações financeiras da casa.

“Minha esposa escolheu não trabalhar fora de casa. Ela optou por trabalhar em casa, dedicando-se às nossas filhas e participando diretamente da educação delas. Isso fez com que recaísse sobre mim a responsabilidade de ser o único provedor financeiro da família. É uma responsabilidade grande e, muitas vezes, desafiadora, mas tenho plena convicção de que fizemos uma escolha acertada”, relata o jornalista.

Para ele, a decisão envolveu trocar o consumo imediato por um estilo de vida focado na convivência familiar: “Para mim, é muito melhor ter um padrão de vida um pouco mais simples e saber que minhas filhas estão sendo bem cuidadas”, destaca.

A percepção de Leandro sobre o custo de vida ilustra as análises técnicas de mercado. A advogada Adriana Barros, especialista em planejamento patrimonial, holding familiar e Direito de Família no escritório Ribeiro e Barros, explica que as despesas fixas tradicionais sobem em um ritmo agressivo, sufocando os rendimentos das famílias.

“Os maiores impactos hoje estão concentrados em educação, saúde e alimentação. A educação sofre reajustes anuais acima da inflação em muitas instituições privadas. Já a alimentação continua sendo uma das despesas mais sensíveis. Além disso, transporte e moradia também ganharam peso no orçamento familiar, tornando o custo de criação dos filhos significativamente maior do que há uma década”, detalha Adriana.

Adriana Barros, advogada do escritório Ribeiro e Barros, com atuação em planejamento patrimonial, holding familiar e Direito de Família

Os perigos dos “gastos invisíveis”

A advogada alerta que o planejamento financeiro das famílias costuma cair por causa de despesas menores que passam despercebidas no cotidiano, chamados de “gastos invisíveis”.

“O grande desafio das famílias está nos chamados ‘gastos invisíveis’. Itens como fraldas, medicamentos, roupas que precisam ser substituídas com frequência devido ao crescimento da criança, presentes para aniversários, passeios, aplicativos de entretenimento, entre outros. Estas parecem despesas pequenas, mas juntas podem representar uma parcela relevante do orçamento e dificultar o equilíbrio financeiro”, adverte a especialista.

Para otimizar os custos sem comprometer o desenvolvimento dos filhos, a advogada sugere inteligência na hora do consumo e do lazer. “O planejamento é o principal aliado. Antecipar compras de material escolar, aproveitar promoções sazonais e adquirir roupas em períodos de liquidação são estratégias eficientes”, pontua Adriana.

O passo a passo da reorganização

  1. Diagnóstico Financeiro Completo: Registrar rigorosamente todas as receitas e despesas da casa para entender o destino real do dinheiro.
  2. Triagem de Gastos: Identificar onde ocorrem os excessos e separar de forma clara o que é gasto essencial daquilo que é supérfluo.
  3. Corte e Renegociação: Estabelecer prioridades, renegociar dívidas ativas, suspender despesas não essenciais temporariamente e definir um orçamento mensal realista.

Entretanto, a advogada esclarece que não existe uma fórmula universal, pois cada família possui uma realidade de renda e necessidades diferentes. Segundo Adriana, o mais importante é que esses custos não comprometam a capacidade da família de formar uma reserva de emergência, investir para o futuro e manter o equilíbrio financeiro.

Por isso, iniciar o planejamento financeiro ainda durante a gestação — ou entre 12 e 24 meses antes dela — reduz de forma significativa o impacto econômico nos primeiros anos da infância.

Para os primeiros meses de vida do bebê, a recomendação técnica é blindar o bolso guardando o equivalente a, no mínimo, seis meses dos gastos adicionais estimados com o recém-nascido, mantendo essa quantia separada do fundo de emergência geral da família.

Dicas de caminhos para a renda fixa para iniciar um planejamento

  • Tesouro IPCA+: Títulos públicos indexados à inflação que ajudam a preservar o poder de compra do dinheiro ao longo dos anos.
  • CDBs, LCIs e LCAs: Opções de instituições sólidas que, dependendo das condições e do perfil, potencializam o patrimônio por meio dos juros compostos se os aportes forem mantidos regulares desde a infância.