Uma pesquisa publicada em junho deste ano revela que uma estalagmite da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, preservou um registro climático contínuo de 22,5 mil a 9,3 mil anos atrás. As inclusões fluidas presentes em suas camadas funcionam como “cápsulas do tempo”, permitindo medir diretamente a temperatura da caverna no momento em que cada gota de água ficou aprisionada. Segundo o estudo, a região passou por um aquecimento de aproximadamente 5,8 °C entre o fim da última era glacial e o início do Holoceno, com variações em “degraus” e até um salto abrupto de 1,4 °C em cerca de dois séculos, há 13 mil anos.

O trabalho mostra que, embora esse salto tenha sido rápido em termos naturais, ele ainda é mais lento que o aquecimento atual: desde 1980, Sete Lagoas registra aumento médio de 0,32°C por década, mais que o dobro da taxa máxima natural identificada na estalagmite (0,12°C por década). Para os autores, isso evidencia o caráter inédito da mudança climática causada pela ação humana e reforça que o ritmo de aquecimento tende a aumentar nas próximas décadas.
Confira o texto do professor da PUC Minas e um dos integrantes do estudo, Luiz Eduardo Panisset Travassos.
Uma estalagmite encontrada quebrada no chão de uma gruta turística de Sete Lagoas acaba de ajudar cientistas a responder a uma pergunta que parecia impossível: qual era a temperatura no centro-leste da América do Sul há milhares de anos, no fim da última era do gelo? A resposta foi publicada na conceituada revista científica Nature Communications e traz um recado direto para o presente.
O estudo reuniu pesquisadores do Peru, do Brasil, da Alemanha, da Noruega, dos Estados Unidos e da China, e contou com a participação do professor Luiz Eduardo Panisset Travassos, do Departamento de Geografia da PUC Minas, responsável pelo monitoramento das condições atuais da caverna, etapa essencial para “calibrar” o termômetro natural usado na pesquisa. O trabalho foi liderado pela pesquisadora peruana Angela Ampuero, da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Química, da Alemanha.

Uma caverna que guarda a memória do clima
A estrela da pesquisa é a Gruta Rei do Mato, em pleno bioma Cerrado. Para a maioria dos visitantes, suas estalactites e estalagmites são apenas belas formações. Para os cientistas, elas são verdadeiros arquivos do clima do passado. Estalagmites crescem lentamente, gota a gota, ao longo de milhares de anos, à medida que a água da chuva se infiltra pelo solo e pinga no piso da caverna, depositando carbonato de cálcio. Enquanto crescem, elas aprisionam minúsculas gotas dessa água em cavidades microscópicas, as chamadas inclusões fluidas. Cada gota é, na prática, uma “cápsula do tempo”: um pedacinho de água fóssil preservado exatamente como era no momento em que a estalagmite se formou.
A estalagmite estudada, batizada de REI 7-2, foi encontrada partida em 2009, perto do fim da trilha turística da gruta. Suas camadas guardam um registro contínuo que vai de 22,5 mil até 9,3 mil anos atrás.
Lasers, microscópios e água de milhares de anos
Para “ler” a temperatura escondida nessas gotas, a equipe usou uma técnica de altíssima precisão chamada microtermometria assistida por nucleação. Em laboratório, sob um microscópio especial e com o auxílio de pulsos de laser, os pesquisadores mediram em que temperatura cada gotinha aprisionada se comportava de determinada maneira. A partir disso, conseguiram calcular qual era a temperatura dentro da caverna quando cada camada da estalagmite se formou.
A grande vantagem do método é que ele mede a temperatura de forma quase direta, sem depender de fórmulas e estimativas indiretas que costumam introduzir grandes margens de erro em outros tipos de reconstrução climática. Ao todo, foram analisadas mais de 850 dessas inclusões fluidas.
O que a pesquisa revelou

Os resultados mostram que, entre o auge da última era glacial e o início do período atual (o Holoceno), a caverna esquentou cerca de 5,8 °C, saindo de uma média de aproximadamente 14,4 °C para 20,1 °C. Mas esse aquecimento não foi contínuo. Ele aconteceu em “degraus”, com direito a uma pausa de resfriamento de cerca de 0,5 °C em um período conhecido como Reversão Fria Antártica. O momento mais marcante foi um salto abrupto de 1,4 °C em apenas cerca de dois séculos, há aproximadamente 13 mil anos.
Essas mudanças bruscas estão ligadas a alterações em uma gigantesca “esteira” de correntes do Oceano Atlântico (a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC), que distribui calor entre os hemisférios e influencia diretamente as monções e as chuvas da América do Sul.
O recado para o presente
Aqui está o ponto mais importante da pesquisa. Mesmo aquele aquecimento abrupto de 13 mil anos atrás (o mais rápido registrado na estalagmite) foi mais lento do que o aquecimento que vivemos hoje. Desde 1980, a região de Sete Lagoas vem esquentando a um ritmo de cerca de 0,32 °C por década. A velocidade máxima do aquecimento natural registrada no fim da era glacial foi de aproximadamente 0,12 °C por década.
Em outras palavras: o aquecimento atual é cerca de duas vezes e meia mais rápido do que a mudança natural mais veloz dos últimos milhares de anos, impulsionado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa, em especial o dióxido de carbono (CO₂), na atmosfera.
Para os autores, isso reforça o caráter inédito da mudança climática causada pelo ser humano. E, como o clima ainda não atingiu um novo equilíbrio, a tendência é que o ritmo de aquecimento continue aumentando nas próximas décadas.
Mais do que um resultado científico de ponta publicado em uma das revistas mais respeitadas do mundo, o estudo é um lembrete do valor do patrimônio natural de Minas Gerais. Uma caverna que recebe visitantes em Sete Lagoas guardava, em uma de suas estalagmites, parte da história climática de todo o continente — e uma advertência sobre o futuro que estamos construindo.
A pesquisa contou com apoio da FAPESP, FAPERJ, CNPq, do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) e da Fundação Nacional de Ciências da China (NSFC).





