A Nossa História – Pedras, Memórias que não se apagam! (II)

por Amauri Artimos (@amauriartimos)
Promotor de Justiça aposentado, Vice-presidente do CMDCA/SL e presidente do Coral Dom Silvério

“Unidos todos seguimos, o mesmo plano de ação, buscando sempre o saber, pilar de uma grande nação. Zelar, com muito altruísmo, os dons do nosso discente, é nobre lema que temos, trabalho austero e envolvente. Aurete Pontes Fonseca, a nossa escola querida, que sempre ensina o caminho, dos belos nortes da vida. Aurete feita de história, de um povo é um grande penhor, é uma escola inclusiva, que aceita todos com amor. Docentes, pais, direção, com braços fortes sem igual, mantêm a força da gente, buscando o mesmo ideal”. Esse belo poema, de Geraldo Sebastião Pires, então musicado por Gilson de Matos e Dinilson Barbosa, é o Hino da EM Aurete Pontes Fonseca. Uma homenagem do professor Geraldo Sebastião Pires, que ali trabalhou e teve a honra de ser paraninfo de três turmas de oitava série.  

Em “Pedras: Memórias que não se apagam”, a história do povoado segue sendo contada assim: com emoção. As cenas são reais, e a simplicidade dos artistas tem um significado todo especial: “aqui a gente era muito irmão, brincava muito, brigava muito, apanhava de vara de marmelo (risos)”. As lições de família sobressaem: “falando da minha mãe, ela morreu faltando dezessete dias para cem anos. Deixou muita coisa pra gente. Pra gente ser honesto, trabalhador, né? Não ter nada dos outros. O que é da gente é da gente mesmo! E tudo que a gente aprendeu foi com ela” (Nilza Maria de Souza Carvalho). O valor do trabalho, o amor pelo comércio, que passa de pai para filho, também é destacado no filme: “Meu pai era miçangueiro. Comprava alho, banana, laranja, o que tinha de vender (…). Nós saíamos daqui, íamos até Formosa, Goiás, vendendo alho. Nós começávamos a vender alho em Felixlândia, Três Marias, João Pinheiro, Paracatu, Unaí. De Unaí nós íamos até Cabeceiras de Goiás, de Cabeceiras de Goiás nós voltávamos. (…) Hoje, a questão do alho foi o mofo branco. Nem a Embrapa conseguiu legalizar o produto pra acabar com o mofo. Se plantar hoje lá, ele volta a mesma coisa. O bicho é valente!” (Mauro Fonseca Alves). 

A terra é para ser cultivada e a fartura, ser comemorada: “Eu morei aqui em Pedras quando o pai da Dalva vendeu, eles foram lá me oferecer, se eu não queria ir. Eu falei: “Não, tudo bem.” Tava casadinho de pouco, fechei meu barraco lá e vim. Morei aí seis anos. Aqui não tinha nada, na fazenda. Não tinha cerca. Não tinha água aqui pra cima. Eu pus bomba na lagoa, levei água, dei caixa d’água lá pra cima, tudo que eu pude. Essa cerca que tem aí eu que fiz. Lavoura, eu plantava lavoura nisso tudo aqui. Eu colhia era vinte carros de milho. Colhia cem sacos de soja, tudo pra alimento da criação, pra fazer. O resto tinha, arroz, feijão, porco gordo no chiqueiro, milho, frango à vontade. De alimentação tinha de tudo” (Osmar Pires Borba). Havia até assombração: “Vi muitas vezes alma boa e alma ruim. Duas vezes que eu vim de Sete Lagoas, no caminho do Paredão. A Lua começando a apontar pro lado de cá, do Capim Branco. Aí, aquele homem preto, um monstro! Indo daqui pra lá, e eu vindo de lá pra cá. Eu estava na Exposição, lá pelas duas horas da madrugada. Ele de cabeça baixa. Fui até, ele de um lado e eu do outro. Eu só de cabeça baixa. Na hora que eu virei as costas, quando olhei pra ele, ele deu uma olhada, os olhos vermelhim, igual uma brasa de fogo! Doía até a cabeça da gente!” (Valério Lourenço).

No filme, os casos se sucedem de uma forma natural e, com eles, os fatos que enriquecem a história: a cerveja enterrada na areia molhada, para gelar, quando não havia geladeira; a receita de cubu, saborosa quitanda tipicamente mineira; a festa, resumida; o pão, molhado; as festas da igreja e o prato tradicional: tutu, macarrão e frango; a lagoa e as lavadeiras; a água jogada no pé do cruzeiro para fazer chover; as paneleiras e o artesanato de barro; a oração para espantar assombração. Um tempo que dá saudade: “eu gosto da casa da minha avó, do cheiro da casa da minha avó, do cheiro do refogo do feijão. Cozinhava o feijão todo dia na panela de barro. E na hora que refogava… aquela… tinha uma panelinha preta redondinha assim, ela punha meia panela de gordura, e punha o alho, e dava aquele cheiro e vinha com o feijão quente. Aí saía a fumaça assim. Aquilo cheirava longe! Eu tenho muita saudade, que dá água na boca!” (Marcos José Abreu e Silva). E como dá! O saudosismo, em Pedras, é muito forte, pois as pessoas têm a alma perfumada! (Clara Lúcia Pontes Fonseca). E memórias que não se apagam!