por Amauri Artimos (@amauriartimos)
Promotor de Justiça aposentado, Vice-presidente do CMDCA/SL e presidente do Coral Dom Silvério

“Maria Gonçalves era muito boa professora. Ótima professora! Tudo que eu aprendi foi com ela. (…) Ela marcava para a gente, a gente usava, a gente decorava o vocabulário para dar. E eu decorava tudo e dava tudo sem errar. Ela, um dia, pegou e falou assim: ‘Eu vou soltar a Maria Luzia, mas vocês vão ficar todos aqui de castigo’. Meu irmão estava … Era o Guilherme. Já faleceu. Guilherme Martins Abreu. Aí, Maria Gonçalves falou para eu passar lá na cozinha, onde a servente ficava, a Odília de Tina, para me dar um caldo de feijão. E me deu esse caldo de feijão. E eu tomei esse caldo de feijão. Gostoso! Isso porque eu era ‘muito boa de inteligência e que o feijão era bom pra saúde’. (…) O tempo todo em que ela deu aula, era brava demais. Mas para mim não, porque tudo que ela mandava decorar, eu decorava tudo. Nesse tempo, usava resumo de história sagrada: Resumo de História Sagrada. É um livro, mas eu não o tenho, não guardei. Ela marcava para eu decorar. Eu decorava tudo! Ela mandava ficar em pé, perto do quadro, e eu começava a falar, e ela com o livro na mão. (…) Ela, nessa época, dizia que eu era a mais inteligente da sala!” (04-04-2026, Maria Luzia Rodrigues).
O depoimento acima é um trecho da entrevista que eu tive a honra de fazer com Maria Luzia Rodrigues. Aluna exemplar, aprendeu a ler e a escrever na Escola Rural Pio XII, em Pedras, vizinha à Fazenda Velha, mantida pela Diocese de Sete Lagoas. Maria Luzia, hoje com 89 anos, lembra, com carinho, os anos em que ali estudou. A casa está lá, até hoje, bem cuidada por Dona Neuza, na Rua Santo Cristo, nº 150, onde reside: no alto das Pedras, abaixo da Capela Nossa Senhora da Piedade. Maria Luzia ali estudou dos sete aos dez anos, até completar o terceiro ano. Todos os dias saía do Sítio das Pedras, onde morava (próximo à atual fábrica de produtos lácteos Trevinho), e caminhava até a escola, para aprender as primeiras lições. Nada fácil, pois a distância era muito longa. Ao se formar, recebeu de Maria Gonçalves um santinho com a imagem de Maria Santíssima, que guarda até hoje, e que contém a seguinte mensagem: “A Maria Luzia, uma lembrança da sua humilde professora. Maria Gonçalves. 15-06-1944”.
A irmã de Maria Luzia, Nilta Antônia Abreu Fonseca, atualmente com 80 anos, lembra que, passado algum tempo, a Prefeitura de Sete Lagoas construiu um grupo nas proximidades da Escola Rural Pio XII, para onde os alunos foram transferidos. Posteriormente, a unidade foi fechada e substituída pela Escola Municipal de Fazenda Velha, construída na comunidade vizinha. Atualmente, a escola recebeu o nome de Aurete Pontes Fonseca, que foi uma professora muito querida em Pedras. Nilta Antônia, que também exerceu o magistério em Sete Lagoas, foi professora na Escola Municipal de Fazenda Velha por vários anos. De início, substituiu, por três meses, a Professora Judith Alves Borba, que estava de licença (09-1963). Depois, a partir do ano seguinte, foi nomeada, em definitivo, pelo Prefeito Vasconcelos Costa (02-1964 a 09-1969).
Entre os moradores, há o consenso de que Maria Gonçalves foi a primeira professora da região, como nos fala Marquinhos, do Empório da Fazenda Velha: “ô Dalva, a Maria Gonçalves era a Irmã Flávia. Eu estou conversando com a Aparecida aqui. A primeira professora que teve nas Pedras, quando Padre D’Amato criou a escola, foi a Maria Gonçalves. Ela deu as primeiras aulas. Depois, veio a Dona Castorina e a Dona Corina Raposo. Aí que teve a Dindinha (Maria Evangelina Lacerda). Essas é que foram as primeiras professoras. A Dona Corina Raposo é da família Raposo, que tem a papelaria. E a Dona Castorina, a família dela mora no Bairro São Geraldo. Aparecida foi criada, também, por Dindinha, e sabe da história toda. Hoje eu vou conversar com mãe, para passar esses dados ao Dr. Amauri. Então, Dalva, a primeira professora foi Maria Gonçalves, a Irmã Flávia” (depoimento de Marquinhos, no grupo de WhatsApp de Pedras). Outras professoras também foram citadas: Dona Deja, Silvia, Helena e Alice Araújo. Ao concluir este artigo, impossível não lembrar de “Meus Tempos de Criança”, a belíssima canção de Ataulfo Alves, da nossa Miraí-MG (02-05-1929/20-04-1969). Que Saudade das Professorinhas! Foto: Nilta Antônia Abreu Fonseca e Maria Luzia Rodrigues.





