Eduardo Azeredo: “Sem ser de esquerda, fui mais de esquerda. Sem ser de direita, fiz mais que a direita”

O grande benemérito de Sete Lagoas, agora afastado da política, foi um ótimo governador para Minas, mas muito especial para nossa região, na saúde, desenvolvimento econômico e infraestrutura

por Caio PachecoEspecial para o Sete Dias

Ex-governador de Minas Gerais relembra laços familiares com a cidade, comenta investimentos estruturantes, avalia as mudanças na política brasileira e defende participação consciente da sociedade no processo democrático.

Engenheiro civil e político, Eduardo Brandão de Azeredo construiu uma trajetória de destaque na vida pública de Belo Horizonte, de Minas Gerais e do Brasil. Foi prefeito de Belo Horizonte (1990–1993), período em que consolidou políticas urbanas e administrativas que o projetaram nacionalmente. Em seguida, elegeu-se governador de Minas Gerais (1995–1999), mandato marcado por investimentos em infraestrutura, educação, saúde e pela atração de grandes empreendimentos industriais para o estado.

Azeredo também exerceu mandato como senador da República (2003–2011) e como deputado federal, além de ter ocupado posições de liderança partidária em âmbito nacional. É fundador do PSDB, partido pelo qual construiu sua carreira política, e atuou como presidente nacional da legenda, integrando até hoje seu Conselho Político.

Ao longo da carreira, destacou-se pela defesa do equilíbrio entre políticas sociais e desenvolvimento econômico, pela valorização da educação pública e pela modernização da infraestrutura logística. Mesmo afastado de mandatos eletivos, segue participando do debate público e da formulação política, mantendo atuação ativa nos bastidores da vida democrática brasileira.

SD – O senhor participou recentemente da iniciativa de registrar a história do Hospital Nossa Senhora das Graças em livro. Qual a importância desse projeto?

Eduardo Azeredo – Quero aplaudir a bela iniciativa de se registrar a história do Hospital Nossa Senhora das Graças em livro. É uma história mais do que centenária, é uma história da qual a minha família participa desde longa data, lembrando do meu avô Candinho e do meu avô João Antônio de Avellar, que foram dois incentivadores do início do hospital. Depois, o meu pai, o deputado federal Renato Azeredo, ao lado de Afrânio de Avellar, pôde acompanhar bem o crescimento do hospital até que chegou a minha vez, como governador, em que também pude colaborar com recursos, com iniciativas, com esforços para que o hospital atendesse de maneira efetiva, com qualidade, a população de Sete Lagoas e de toda a região.

SD – O senhor costuma dizer que é cidadão honorário e cidadão de fato de Sete Lagoas. De onde vem essa ligação tão forte com a cidade?

Eduardo Azeredo – Sou cidadão honorário de Sete Lagoas e cidadão de fato porque meu pai, Renato Azeredo, sempre teve uma paixão pela cidade. Ele nos levava sempre para rever os parentes, as avós, a vovó Chiquinha, a vovó Fina. Eu não conheci os avôs, conheci as avós. Foram períodos muito interessantes. No próprio Natal nós tínhamos essa cerimônia: de manhã estávamos em Belo Horizonte, à tarde estávamos em Sete Lagoas para dar um abraço nas avós, nas tias, nos primos que moravam na cidade.

Hoje sou casado com Heloísa, que é de família de Corinto, e temos três filhos: Renato, Ricardo e Gustavo. Os dois primeiros são casados com famílias sete-lagoanas. A minha família mantém ainda parte da antiga Fazenda da Lapa, que era da vovó Chiquinha, e isso nos mantém muito ligados ao que acontece em Sete Lagoas. Eu me orgulho de ter podido, especialmente como governador, dar continuidade ao trabalho do meu pai.

SD – Que legado o senhor destaca do trabalho realizado por seu pai e, depois, por sua própria atuação como governador em relação a Sete Lagoas?

Eduardo Azeredo – Meu pai levou para Sete Lagoas a Escola da Cemig, a Embrapa, conseguiu canalizar o Córrego do Diogo, viabilizou a construção da Rodoviária e diversos projetos, como a própria universidade, a Unifemm. Depois, quando chegou a minha vez, como governador de Minas Gerais, consegui lutar e realizar a duplicação da BR-040, no trecho de Belo Horizonte até Sete Lagoas e depois até o trevo de Curvelo.

No campo da industrialização, conseguimos atrair e instalar a Iveco em Sete Lagoas, a Ambev, além da expansão da Itambé. Foram iniciativas em que o Hospital Nossa Senhora das Graças sempre apareceu como um instrumento de suporte à industrialização. Uma indústria só se instala em uma cidade de grande porte se houver suporte hospitalar e saúde para os seus funcionários e para a comunidade. Eu sempre utilizei esse argumento para convencer investidores a se instalarem em Sete Lagoas.

SD – O vereador Caio Valace já comentou publicamente que gostaria de vê-lo como prefeito de Sete Lagoas. Como recebeu essa ideia?

Eduardo Azeredo – O Caio é um amigo de longa data, desde o início da minha carreira política, seguindo a amizade com o pai dele, que era um grande amigo do meu pai. Em uma conversa, ele comentou que eu já tinha sido governador, senador, deputado federal, prefeito de Belo Horizonte e perguntou por que não ser prefeito de Sete Lagoas. Foi uma ideia que me honrou e me deixou satisfeito com a lembrança, mas hoje estou mais voltado para ajudar a criar meus netos. Ainda assim, estou sempre pronto a ajudar Sete Lagoas em todos os momentos que forem necessários.

SD – Como o senhor avalia o momento atual de Sete Lagoas?

Eduardo Azeredo – A cidade vive um momento importante. Sete Lagoas é uma metrópole, mas ainda precisa de avanços, especialmente em vias de acesso. É necessário duplicar a antiga estrada que passa por Pedro Leopoldo, Matozinhos e Prudente de Morais, criando um acesso adicional à BR-135. Do ponto de vista geral, também temos novas ferrovias autorizadas, o que melhora a infraestrutura.

Outro aspecto fundamental é a educação. A cidade se transformou em um polo educacional e, mais uma vez, é essencial ter o suporte de uma entidade médica como o Hospital Nossa Senhora das Graças. O Hospital Regional, sonhado há mais de 20 anos, finalmente será concluído, o que reforça ainda mais esse sistema.

SD – A política mudou desde o período em que o senhor foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas?

Eduardo Azeredo – Infelizmente, acredito que mudou para pior. Antes, a política era uma atribuição mais completa. Hoje vivemos uma polarização muito prejudicial, uma guerra de narrativas. Não se discute mais o aperfeiçoamento das políticas públicas, mas sim ataques ao adversário. Há exceções, claro, mas de modo geral houve uma piora. Precisamos resgatar partidos mais homogêneos, com programas claros. Continuo no PSDB justamente por acreditar nesse equilíbrio entre um poder público forte e uma iniciativa privada forte.

SD – Que conselho o senhor daria à sociedade em um ano pré-eleitoral?

Eduardo Azeredo – O principal conselho é a participação consciente. Que as pessoas não votem apenas pelo número de seguidores nas redes sociais, mas busquem informações corretas sobre os candidatos e seu preparo. A vida pública é difícil e complexa. Precisamos de pessoas competentes, com valores familiares, humanos e democráticos, para evitar qualquer risco de autoritarismo.

SD – Seu governo ficou marcado por investimentos expressivos em Educação. Como avalia essa experiência?

Eduardo Azeredo – Foi um ponto forte do governo. Aplicamos cerca de 45% dos recursos do Estado em Educação. Houve melhoria na qualidade e aumento real de salários. Educação, Saúde e Segurança são os três pilares fundamentais da atuação de um governo. Essa visão permanece atual.

SD – O que a política ofereceu de melhor ao senhor?

Eduardo Azeredo – A possibilidade de tomar decisões em benefício público e colocar em prática ideias e sonhos. Tenho orgulho de ver obras como a duplicação da rodovia entre Belo Horizonte e Sete Lagoas, o fortalecimento da Educação e da Saúde, o apoio aos hospitais filantrópicos. Apesar dos momentos difíceis, acredito que valeu a pena.

SD – Em períodos de dificuldade, de onde veio a força para seguir em frente?

Eduardo Azeredo – Da fé e do apoio de amigos e familiares. Em nenhum momento tive raiva ou desejo de vingança. Enfrentei tudo com serenidade e fé. Isso já faz parte do passado.

SD – O senhor pretende continuar participando da vida política?

Eduardo Azeredo – Sim. Permaneço no PSDB, partido que ajudei a fundar em 1988. Continuo participando da formulação de ideias e ações, especialmente nos bastidores, com a experiência que adquiri ao longo desses anos. Espero que as eleições futuras sejam pautadas pelo interesse público e não pela radicalização.

 SD – Para as próximas eleições, qual o conselho apresenta para a sociedade?

Eduardo Azeredo – Primeiro é a maior participação da população. Não vote apenas pelo fato do candidato ter mais likes, seguidores na internet. Vote realmente procurando informações corretas sobre os candidatos. A vida pública é muito difícil,  muito complexa. A administração pública é complexa. Nós não podemos ter apenas pessoas simpáticas na vida pública, precisamos de ter pessoas competentes. Nós vamos ter novas eleições em 2026 e espero que a radicalização que domina o Brasil seja afastada. Espero que possamos ter governantes que possam compor, ter uma visão ampla de compor com todas as forças. Eu tive o prazer de governar em um período em que essa questão ideológica não era tão importante. Eu tive em meu governo pessoas de direita como o ministro Alysson Paulinelli que foi meu secretário de Agricultura e Pecuária. Tive pessoas mais à esquerda como os secretários Amílcar Martins e João Batista dos Mares Guia. É perfeitamente possível você ter pessoas que são de setores diferentes trabalhando junto. Consegui fazer isso. Não sendo de esquerda consegui fazer um programa avançado de apoio a pequenos produtores rurais em uma questão de reforma agrária em terras devolutas, mas nunca concordando com a invasão de terras. Mesmo não sendo liberal, no sentido expressivo da palavra, eu consegui fazer com que o governo se dedicasse a fazer as suas funções. As funções privadas foram mais assumidas pela iniciativa privada, como é o caso da privatização dos bancos. Todas essas providências puderam ser tomadas. Sem ser de esquerda, fui mais de esquerda. Sem ser de direita, fiz mais que a direita. 

SD – Governador, eu não menti ao dizer que esta seria a última pergunta. E o 8 de janeiro?Eduardo Azeredo – O problema que tivemos não foi no 8 de janeiro. O problema foi, na verdade, foi no dia 12 de dezembro, quando realmente os militares foram consultados sobre a hipótese de não dar posse ao presidente que tinha sido eleito. Acredito que o 8 de janeiro foi na verdade a conclusão de um movimento que se frustrou que não concordava com a eleição especialmente do presidente Lula que foi eleito no mesmo sistema em que o governador Tarcísio, o governador Zema foram eleitos. Acho que foi um momento lamentável no Brasil, de radicalização. Eu prefiro respeitar as regras que estão colocadas. Então, essa é a minha opinião. Nós tivemos riscos da volta da ditadura militar sim. Esse risco, felizmente, foi evitado pelos próprios militares.