O Dia Nacional da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março, foi instituído pela Lei nº 14.306/2022 para promover a inclusão, combater o capacitismo e valorizar as pessoas com síndrome de Down na sociedade.
Celso Martinelli
Fundada em 2011, a Associação Ivone e Pedro Lanza (IpelDown) se consolidou como referência em Sete Lagoas no atendimento gratuito e multidisciplinar a pessoas com síndrome de Down e suas famílias. Com sede na Rua Paulo Frontin, 673, no Centro, em imóvel cedido pelo empresário João Carlos de Magalhães Lanza, a instituição filantrópica atua nas áreas de pesquisa, inclusão social e escolar e oferta de serviços especializados, promovendo acolhimento e qualidade de vida por meio de ações em saúde, educação, cultura, esporte e lazer.

Mantida com apoio de destinações da restituição do Imposto de Renda, a entidade atende atualmente dezenas de pessoas e busca ampliar sua atuação com novas parcerias. Em entrevista, a presidente Cátia A. Bastos Andrade destaca a importância da inclusão desde a infância, o impacto do trabalho desenvolvido e os desafios para expandir o atendimento.
SD. Como surgiu a Associação Ivone e Pedro Lanza – IpelDown e qual foi a principal motivação para sua criação?
Cátia Bastos Andrade – A construção de uma sociedade inclusiva exige mudanças de ideias e práticas. Com este objetivo surgiu a Associação Ivone e Pedro Lanza- IpelDown. Ainda é comum associar a síndrome de Down a uma doença e que trata-se de pessoas intelectualmente incapacitadas por possuírem déficit de atenção, concentração e memória, além da hipotonia, que afeta o desenvolvimento motor. Contudo, nada disso impede que tenham uma vida longa e cheia de realizações, desde que incluídas desde cedo em programas de estimulação e convivência social.
Quando nasce uma pessoa com deficiência, especialmente sem diagnóstico prévio, é comum que surjam inseguranças e ansiedade. Conhecedora dessa realidade e mãe de uma filha com síndrome de Down, decidi criar uma instituição que acolhesse e oferecesse apoio às famílias. Minha filha, Laís Bastos de Andrade, foi a maior motivação. Assim, a instituição cresceu com parcerias, estudos e profissionais dedicados.

SD – Quais são hoje os principais serviços e atendimentos oferecidos gratuitamente pela instituição?
Cátia Bastos Andrade – A instituição realiza acolhimento das famílias por meio do atendimento psicológico, oferecendo apoio e informação. Após isso, é feita uma avaliação multidisciplinar para direcionamento aos atendimentos necessários. Oferecemos gratuitamente fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia, pedagogia, além de atividades esportivas, culturais e artísticas, como pintura, teatro e dança.

SD – Quantas pessoas são atualmente assistidas pela IpelDown e qual é a capacidade de atendimento da associação?
Cátia Bastos Andrade – Atualmente são 70 atendidos, mas a instituição tem capacidade para atender até 120 pessoas.
SD – De que forma o trabalho multidisciplinar contribui para o desenvolvimento das pessoas com síndrome de Down?
Cátia Bastos Andrade – Pessoas com síndrome de Down possuem déficits motores e cognitivos, além de possíveis comorbidades que afetam diferentes sistemas do corpo. Cerca de 40 a 50% têm cardiopatia congênita, 100% apresentam hipotonia, além de problemas de audição, visão, tireoide e outras condições.
Apesar disso, com o avanço da ciência, a expectativa de vida tem aumentado, chegando a 60 ou 70 anos. O trabalho multidisciplinar é fundamental para o desenvolvimento global, estimulando habilidades motoras, cognitivas, sociais e emocionais desde a infância. Essa abordagem visa promover autonomia, qualidade de vida e inclusão social, escolar e profissional. Contatos: (31) 3775-3159 / (31) 98679-9009 – E-mail: ipeldown@gmail.com .
SD – Quais são os principais desafios enfrentados pela associação para manter e ampliar os atendimentos?
Cátia Bastos Andrade – A instituição é filantrópica e proporciona atendimentos totalmente gratuitos, porém possui vários encargos, que incluem tributos, encargos trabalhistas sobre a folha de pagamento, além de custos fixos como manutenção do imóvel e equipamentos além de materiais de limpeza e escolar.
Os desafios são imensos, uma vez que a instituição nem sempre tem recurso financeiro para arcar com os custos dos atendimentos. A viabilidade financeira da instituição depende de pessoas físicas e jurídicas que destinam parte do Imposto de Renda devido, aos projetos aprovados pelas leis de incentivo. Doações independente de destinação tributária também colaboram imensamente na manutenção da instituição. Outro grande desafio é encontrar e manter o profissional altamente capacitado nas devidas especialidades.
SD – Como a IpelDown atua na promoção da inclusão social e escolar das pessoas com síndrome de Down em Sete Lagoas
Cátia Bastos Andrade – Por meio de uma abordagem multidisciplinar que integra a família, o ambiente escolar e a comunidade. A atuação foca na garantia de direitos, no desenvolvimento da autonomia, na adaptação de ambientes e na conscientização social para combater preconceito.
As atividades artísticas são fundamentais para pessoas com síndrome de Down, pois promovem a autoexpressão, elevam a autoestima e estimulam habilidades cognitivas e motoras finas. Elas oferecem uma forma de comunicação não verbal, permitindo que indivíduos expressem sentimentos e emoções, além de facilitar a inclusão social e a conquista de autonomia.
Essas são excelentes instrumentos de inclusão social pois oportuniza a sociedade participar ativamente dos eventos promovidos pela instituição, que apresenta talentos e alto índice de socialização das pessoas com síndrome de Down.
A parceria com as escolas onde estão matriculados nossos atendidos é fundamental para garantir a inclusão efetiva dos mesmos, unindo o conhecimento pedagógico da escola com o suporte terapêutico/especializado. Essa colaboração personalizada facilita adaptações curriculares, desenvolve habilidades sociais e cognitivas, melhora a comunicação e promove um ambiente acolhedor, combatendo preconceitos e assegurando o direito à educação de qualidade.
SD – Quais são os planos e projetos futuros da associação para ampliar o atendimento e fortalecer a inclusão na cidade?
Cátia Bastos Andrade – Quando falamos de futuro, a pergunta mais honesta talvez não seja “quais são os próximos projetos?”, mas sim: que sociedade estamos dispostos a construir para que esses projetos existam?
Hoje, atendemos 70 famílias de forma totalmente gratuita. São crianças, jovens e adultos com síndrome de Down que dependem diretamente desse espaço para se desenvolver, para pertencer, para ter acesso ao que deveria ser um direito, não um privilégio.
Mas a verdade é que o nosso futuro não depende apenas de planejamento técnico. Ele depende, sobretudo, de consciência social.
Já vivemos cenários difíceis. Precisando interromper os atendimentos por falta de recursos. E isso significa que ficaram sem intervenção, sem estímulo, sem apoio. Por isso, falar de futuro hoje é também fazer um convite, e um alerta.
Não existe inclusão real sem investimento. Não existe continuidade sem apoio. Não existe futuro com acompanhamento para essas famílias se a sociedade ainda enxergar a causa como algo distante, opcional ou assistencial. O nosso maior projeto para o futuro é simples e, ao mesmo tempo, urgente: garantir que nenhuma criança precise parar de ser atendida por falta de recurso. E isso só será possível quando a inclusão deixar de ser um discurso bonito de uma data específica e passar a ser um compromisso coletivo, contínuo e concreto. O futuro dessas pessoas não pode depender de sorte. Ele precisa ser uma decisão da sociedade.
VOCÊ SABIA?
Dados do Censo Demográfico 2022 (IBGE) apontam que o Brasil possui cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 8,9% da população. Em Sete Lagoas, o índice é de aproximadamente 6,5% dos moradores, ou seja, 14.439 pessoas.





