
O território de saúde que engloba Sete Lagoas (Central) e outros 33 municípios da microrregião Centro precisa repactue a situação da cardiologia, de modo que contemple, e até amplie, o serviço dessa especialidade no Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), nessa cidade. A conclusão é de Letícia Cota Freitas, referência técnica da Superintendência de Políticas de Atenção Hospitalar da Secretaria de Estado de Saúde (SES), que participou de reunião da Comissão de Saúde nesta terça-feira (9/12/25), sobre o tema.
Solicitada pelo presidente da comissão, deputado Arlen Santiago (Avante), a audiência pública buscou vocalizar a preocupação com uma possível transferência do serviço de cardiologia do HNSG para o Hospital Regional em construção na cidade. Além de Letícia Freitas e outras representantes da SES, participaram da reunião na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) funcionários do hospital e vereadores de Sete Lagoas.
A gestora da SES acrescentou que todo o desenho da rede de saúde é feito no próprio território, como prevê a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080, de 1990), pactuado na Comissão Intergestores Bipartite (CIB) micro de Sete Lagoas e homologado na CIB-SUS. Mas essa estruturação pode ser rediscutida nos Comitês Gestores Hospitalar e de Urgência e Emergência. “Pensamos que o território deve rediscutir a cardiologia desse hospital”, disse ela, completando que o estabelecimento já demonstrou grande competência em duas habilitações: cardiovascular e intervencionista.
Ainda para ela, de maneira a ampliar o atendimento dessa unidade, os responsáveis pela saúde da região deveriam conversar com o representante de Curvelo (Central). Esse município tem pactuado que seus atendimentos de cardiologia serão realizados na Capital, e não em Sete Lagoas, muito mais próxima de Curvelo. “Para que o HNSG tenha escala, o ideal é que a micro Curvelo pactue com 7 Lagoas, o que também vai contribuir para desafogar BH”, aconselhou.
Rosana de Vasconcelos Parra, diretora de Atenção Hospitalar de Urgência e Emergência da SES, reforçou que não há intenção de fechar um serviço que funciona bem, como o do HNSG. “O hospital está sendo referenciado como alta complexidade e cumpre os parâmetros; o seu perfil assistencial foi pactuado e validado; e no mais, tudo pode ser reavaliado”, esclareceu.
Por fim, Ana Elisa Machado da Fonseca, coordenadora dos Hospitais Regionais da SES, afirmou que o Hospital Regional da Macro Centro, com previsão de funcionamento para o segundo semestre de 2026, vai atuar na cardiologia em complementariedade com o HNSG. Ela informou que serão 226 leitos, sendo 40 de UTI, pronto atendimento, salas de cirurgia, ambulatório, entre outros, para atendimento em várias especialidades como ortopedia, neurocirurgia, nefrologia, urologia, oftalmologia, cardiologia e psiquiatria.
No atendimento de infarto, N.S. das Graças tem padrão de primeiro mundo

Antônio Bahia Neto, da equipe de Cardiologia do Hospital N.S. das Graças, declarou sentir orgulho do serviço prestado. “Temos indicadores de primeiro mundo: resolvermos infarto em 58 minutos enquanto a recomendação internacional é de até 90 minutos”, elogiou. Além disso, 100% dos infartados têm aceso ao cateterismo – a média mundial é de apenas 15%.
“Então, temos uma ilha de excelência e nos surpreende agora quererem migrar todo nosso serviço para o hospital regional, sem nenhuma justificativa técnica”. Ele completou que para atingir esse nível de qualidade, foi necessário um trabalho de anos da instituição e que se o serviço for transferido para outra unidade esse desempenho não se manterá: “Haverá grande prejuízo para os usuários do SUS e os da saúde suplementar”, alertou.
Lara Jamille Silva, diretora-geral do HNSG, destacou que o serviço de cardiologia é referência para outros 23 municípios. “São quase 20 anos na construção desse serviço, com condutas e protocolos homogêneos”, valorizou. Ela anunciou que nesta quarta (10), serão inaugurados dez leitos de UTI coronariana, somando-se aos outros 20 existentes. O hospital atende 24 horas por dia a pacientes particulares, conveniados e principalmente usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Aluísio Barbosa Júnior, presidente do Conselho Administrativo do hospital, lembrou que 1400 colaboradores atuam na unidade, que atende a mais de 30 convênios. Para ele, caso o Hospital Regional assumisse mesmo que parte da cardiologia, se tornaria inviável manter o serviço.
Alma lavada
O vereador de Sete Lagoas Deivison Abreu Freitas, que também trabalha no hospital, disse que os funcionários não iriam aceitar pacientes morrerem por falta de intervenção, na medida em que o serviço qualificado fosse transformado em atendimento paliativo. Após a fala das gestoras da SES, Freitas considerou positivo o resultado da reunião.
“O que ouvimos é totalmente diferente do que ouvimos em Sete Lagoas – vocês trazem a possibilidade de fazermos uma nova repactuação da saúde; saio daqui com a alma lavada”, enfatizou ele, emocionado. E complementou que a Secretaria Municipal anterior foi a mais corrupta dos últimos 20 anos, com decisões monocráticas e com interesses pessoais.
Referência
Com 145 anos, o Hospital N.S. das Graças é uma instituição filantrópica, mantida pela Irmandade de N.S. das Graças (INSG), de utilidade pública, de caráter beneficente e de assistência à saúde. O HNSG é referência em Minas na cardiologia, oferecendo atendimento de alta complexidade em cirurgias cardíacas, stents e arritmias, entre outros, para uma população. Os 23 municípios da microrregião abrigam uma população de mais de 450 mil habitantes. Entre 2022 e 2025, o hospital realizou 2.300 tratamentos e 2.500 cirurgias cardíacas.
Fortalecer a cardiologia
Para o deputado Arlen Santiago (Avante) a possibilidade de transferência dos serviços de cardiologia do HNSG para o Hospital Regional seria como “vestir um santo para desvertir o outro”. Com o intuito de fortalecer essa especialidade no HNSG, o parlamentar sugeriu que sejam destinadas à unidade outras modalidades de cirurgias, “para aumentar a demanda de lá e não retirar o que funciona bem”. Nesse sentido, propôs ainda que a cardiologia seja retirada do Hospital Regional e passada em sua totalidade para o N.S. das Graças.
Arlen Santiago divulgou também que vai requerer a realização de novos encontros sobre o tema: uma audiência pública em Sete Lagoas, para ouvir a população local; e uma visita à Secretaria de Estado de Saúde para uma conversa com o secretário Fábio Bacheret.
O diretor-geral do Instituto de Previdência dos Servidores Militares de Minas Gerais (IPSM), coronel Rodrigo de Faria Mendes, disse que o instituto tem contrato com o Hospital N.S. das Graças, para atendimento em 14 especialidades. Ressalvou que o atendimento de cardiologia do estabelecimento não é tão demandado pelos militares, por uma questão cultural, não em função da qualidade. “Não obstante isso, as demais especialidades nos atendem muito bem”, concluiu.





