Sete Lagoas deve repactuar política de saúde e ampliar atendimento em cardiologia no Hospital N. S. das Graças

Rosana Parra e Letícia Cota Freitas, que afirmaram não haver intuito de transferir cardiologia para Hospital Regional. Fotos: Daniel Protzner

O território de saúde que engloba Sete Lagoas (Central) e outros 33 municípios da microrregião Centro precisa repactue a situação da cardiologia, de modo que contemple, e até amplie, o serviço dessa especialidade no Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), nessa cidade. A conclusão é de Letícia Cota Freitas, referência técnica da Superintendência de Políticas de Atenção Hospitalar da Secretaria de Estado de Saúde (SES), que participou de reunião da Comissão de Saúde nesta terça-feira (9/12/25), sobre o tema.

Solicitada pelo presidente da comissão, deputado Arlen Santiago (Avante), a audiência pública buscou vocalizar a preocupação com uma possível transferência do serviço de cardiologia do HNSG para o Hospital Regional em construção na cidade. Além de Letícia Freitas e outras representantes da SES, participaram da reunião na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) funcionários do hospital e vereadores de Sete Lagoas.

A gestora da SES acrescentou que todo o desenho da rede de saúde é feito no próprio território, como prevê a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080, de 1990), pactuado na Comissão Intergestores Bipartite (CIB) micro de Sete Lagoas e homologado na CIB-SUS. Mas essa estruturação pode ser rediscutida nos Comitês Gestores Hospitalar e de Urgência e Emergência. “Pensamos que o território deve rediscutir a cardiologia desse hospital”, disse ela, completando que o estabelecimento já demonstrou grande competência em duas habilitações: cardiovascular e intervencionista.

Ainda para ela, de maneira a ampliar o atendimento dessa unidade, os responsáveis pela saúde da região deveriam conversar com o representante de Curvelo (Central). Esse município tem pactuado que seus atendimentos de cardiologia serão realizados na Capital, e não em Sete Lagoas, muito mais próxima de Curvelo. “Para que o HNSG tenha escala, o ideal é que a micro Curvelo pactue com 7 Lagoas, o que também vai contribuir para desafogar BH”, aconselhou. 

Rosana de Vasconcelos Parra, diretora de Atenção Hospitalar de Urgência e Emergência da SES, reforçou que não há intenção de fechar um serviço que funciona bem, como o do HNSG. “O hospital está sendo referenciado como alta complexidade e cumpre os parâmetros; o seu perfil assistencial foi pactuado e validado; e no mais, tudo pode ser reavaliado”, esclareceu. 

Por fim, Ana Elisa Machado da Fonseca, coordenadora dos Hospitais Regionais da SES, afirmou que o Hospital Regional da Macro Centro, com previsão de funcionamento para o segundo semestre de 2026, vai atuar na cardiologia em complementariedade com o HNSG. Ela informou que serão 226 leitos, sendo 40 de UTI, pronto atendimento, salas de cirurgia, ambulatório, entre outros, para atendimento em várias especialidades como ortopedia, neurocirurgia, nefrologia, urologia, oftalmologia, cardiologia e psiquiatria. 

No atendimento de infarto, N.S. das Graças tem padrão de primeiro mundo

Participantes da audiência posam para foto após a reunião. Fotos: Daniel Protzner

Antônio Bahia Neto, da equipe de Cardiologia do Hospital N.S. das Graças, declarou sentir orgulho do serviço prestado. “Temos indicadores de primeiro mundo: resolvermos infarto em 58 minutos enquanto a recomendação internacional é de até 90 minutos”, elogiou. Além disso, 100% dos infartados têm aceso ao cateterismo – a média mundial é de apenas 15%.

“Então, temos uma ilha de excelência e nos surpreende agora quererem migrar todo nosso serviço para o hospital regional, sem nenhuma justificativa técnica”. Ele completou que para atingir esse nível de qualidade, foi necessário um trabalho de anos da instituição e que se o serviço for transferido para outra unidade esse desempenho não se manterá: “Haverá grande prejuízo para os usuários do SUS e os da saúde suplementar”, alertou.

Lara Jamille Silva, diretora-geral do HNSG, destacou que o serviço de cardiologia é referência para outros 23 municípios. “São quase 20 anos na construção desse serviço, com condutas e protocolos homogêneos”, valorizou. Ela anunciou que nesta quarta (10), serão inaugurados dez leitos de UTI coronariana, somando-se aos outros 20 existentes. O hospital atende 24 horas por dia a pacientes particulares, conveniados e principalmente usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Aluísio Barbosa Júnior, presidente do Conselho Administrativo do hospital, lembrou que 1400 colaboradores atuam na unidade, que atende a mais de 30 convênios. Para ele, caso o Hospital Regional assumisse mesmo que parte da cardiologia, se tornaria inviável manter o serviço.

Alma lavada

O vereador de Sete Lagoas Deivison Abreu Freitas, que também trabalha no hospital, disse que os funcionários não iriam aceitar pacientes morrerem por falta de intervenção, na medida em que o serviço qualificado fosse transformado em atendimento paliativo. Após a fala das gestoras da SES, Freitas considerou positivo o resultado da reunião. 

“O que ouvimos é totalmente diferente do que ouvimos em Sete Lagoas – vocês trazem a possibilidade de fazermos uma nova repactuação da saúde; saio daqui com a alma lavada”, enfatizou ele, emocionado. E complementou que a Secretaria Municipal anterior foi a mais corrupta dos últimos 20 anos, com decisões monocráticas e com interesses pessoais. 

Referência 

Com 145 anos, o Hospital N.S. das Graças é uma instituição filantrópica, mantida pela Irmandade de N.S. das Graças (INSG), de utilidade pública, de caráter beneficente e de assistência à saúde. O HNSG é referência em Minas na cardiologia, oferecendo atendimento de alta complexidade em cirurgias cardíacas, stents e arritmias, entre outros, para uma população. Os 23 municípios da microrregião abrigam uma população de mais de 450 mil habitantes. Entre 2022 e 2025, o hospital realizou 2.300 tratamentos e 2.500 cirurgias cardíacas.

Fortalecer a cardiologia

Para o deputado Arlen Santiago (Avante) a possibilidade de transferência dos serviços de cardiologia do HNSG para o Hospital Regional seria como “vestir um santo para desvertir o outro”. Com o intuito de fortalecer essa especialidade no HNSG, o parlamentar sugeriu que sejam destinadas à unidade outras modalidades de cirurgias, “para aumentar a demanda de lá e não retirar o que funciona bem”. Nesse sentido, propôs ainda que a cardiologia seja retirada do Hospital Regional e passada em sua totalidade para o N.S. das Graças.

Arlen Santiago divulgou também que vai requerer a realização de novos encontros sobre o tema: uma audiência pública em Sete Lagoas, para ouvir a população local; e uma visita à Secretaria de Estado de Saúde para uma conversa com o secretário Fábio Bacheret.

O diretor-geral do Instituto de Previdência dos Servidores Militares de Minas Gerais (IPSM), coronel Rodrigo de Faria Mendes, disse que o instituto tem contrato com o Hospital N.S. das Graças, para atendimento em 14 especialidades. Ressalvou que o atendimento de cardiologia do estabelecimento não é tão demandado pelos militares, por uma questão cultural, não em função da qualidade. “Não obstante isso, as demais especialidades nos atendem muito bem”, concluiu.