Fio da esperança

02/05/22 - 16:24

Élida Gontijo

Tenho andado um pouco introspectiva, organizando o que a pandemia bagunçou dentro de mim. Posso garantir que não só a mim, mas todos nós estamos bem bagunçados em nosso interior, só agora estão chegando os reflexos de toda essa turbulência que passamos. No momento que estava pipocando não dava tempo de pensar, era agir, cuidar e cuidar, medo misturado com proteção, todos resguardados, distância era a palavra da vez. Agora que estamos vacinados, eu com 3 doses que agradeço a Deus e a ciência todos os dias dei uma parada para analisar tudo dentro e fora de mim e infelizmente tenho ficado muito preocupada com o perfil do homem pós- o período crítico da pandemia. Pensei que apesar de muito frágeis emocionalmente, as pessoas estariam mais empáticas, valorizando mais a vida, o ser e não o ter. Mas cheguei a conclusão que a crueldade que estava guardada dentro de alguns aflorou de uma maneira assustadora. 

As crianças também estão sofrendo, percebo que a pureza de muitas foi contaminada , querem vencer, passar por cima dos colegas, poucos dividem, aplicam valores. Entre os adultos tanto pessoalmente como nas redes sociais , a troca de ofensas é enorme, ninguém pode escolher o partido político , falsa democracia, temos de ser aquilo que a maioria acha que é o melhor, discriminação com o negro, pobre , homossexual nem se fale. Então com o coração muito machucado fico rezando e analisando e fazendo algumas perguntas pra Deus, coitado estou igual criança na fase dos por quês. Mas ele como grande pai não me abandona vai me mostrando em pequenos fatos que atrás de toda essa bagunça há um fio tênue de esperança.

Na semana passada ele me fez enxergar um pedaço desse fio, participando de um encontro de formação em uma das escolas que trabalho, fui agraciada a participar de uma dinâmica com meu aluno Gael, do sexto ano, teríamos de enfrentar um circuito cheio de vários obstáculos ,onde um seria o guia e o outro o cego, ele escolheu ser o guia, tenho certeza que tem dedo de Deus nessa escolha. Viu que eu precisava de colo, acolhimento, mandou um anjo da Terra pra me guiar. Tenho pavor de ficar de olhos vendados sem meus óculos que já precisam ser trocados, sem enxergar nada, nada, fui guiada devagarinho por meu aluno, falava baixinho de todos os obstáculos, segurava no meu braço e não só me guiava, mas ia na frente fazendo também para facilitar pra mim. 

Era na parte da manhã, o sol batia em nossos corpos, estávamos em um espaço lindo da escola, os outros alunos também em dupla executando a mesma tarefa, não escutava os outros , só a voz calma do meu anjo guia. Falava pra ir com calma, abaixar, levantar, aprendi a ter paciência, paciência na hora certa, não desistir, foi uma experiência maravilhosa, senti acolhida, afagada por um coração puro.

Logo depois de terminamos a atividade, recebi a notícia da passagem de uma tia muito querida, mais de noventa anos, uma guerreira, exemplo para todos nós , grande guia de toda família, nossa matriarca. Chorei, senti, mas a coragem do meu guia  Gael me ensinou a ficar calma e enfrentar mais um obstáculo, continuei na escola dei minhas aulas, chorei perto dos alunos, mostrei pra eles  que professor chora, sente, ensina , mas muito mais aprende. 

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Agradeço imensamente a professora Lia pela oportunidade de participar desse momento de formação, ela e Crislayne , as organizadoras, ao Gael meu anjo guia a oportunidade de ser meu mestre na escola da vida e a Deus por mais uma pergunta respondida, sigo em frente em busca de mais um pedaço do fio da esperança. 

Maio de 2022.