Museu Histórico Municipal recebe o primeiro restauro completo de sua existência 

por Renato Alexandre

Projeto de revitalização tem previsão de conclusão para o m do próximo ano

Quem passa em frente ao icônico Museu Histórico Municipal encontra um canteiro de obras e pode acreditar que as características originais do imóvel serão perdidas. Um engano! À primeira vista, um tapume metálico e a manta de proteção que está sendo instalada na estrutura no telhado deixam esta impressão, mas o projeto em execução é o primeiro restauro completo de todo complexo e seguirá minuciosamente cada detalhe, inclusive, utilizando materiais complexos como adobe e pau a pique. 

A obra, realizada pela Prefeitura de Sete Lagoas, por meio da Secretaria Municipal Cultura, Esportes e Turismo, foi iniciada em meados de agosto pela empresa Minas Construção e Restaurações (MCR), especializada em recuperação estrutural do patrimônio histórico e autorizada pelos órgãos fiscalizadores para intervenções do tipo. A reportagem do SETE DIAS visitou o complexo, na última terça-feira, 21, e contou com esclarecimentos de Shirley Francisca da Silva Fonseca, historiadora do Departamento Municipal de Museus e Patrimônio Histórico e consultora do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compac).

Foto do Museu com a fachada em ruínas, em novembro de 1969

A edificação é considerada uma joia da arquitetura colonial do século XVIII, mas em 1968 estava em ruínas. Naquele momento, Afrânio de Avelar Marques Ferreira estava em seu primeiro mandato como prefeito (1967-19710) e decidiu colocou a reconstrução do imóvel, desapropriado pela Prefeitura, como prioridade de sua gestão. A inauguração como Museu Histórico Municipal foi no dia 24 de novembro de 1970, “A cidade ganhou muito na sua personalidade urbana com a instalação do Museu Histórico, principalmente por sua localização fazendo parte de um rico conjunto arquitetônico”, define em vídeo divulgado em redes sociais Maria Eunice Avelar, filha de Afrânio Avelar. 

Dom Daniel Baeta Neves e com a pá o vereador Geraldo Rocha Lima, responsável pelo Projeto de Lei que criou o Museu Histórico Municipal, em novembro de 1969.

Mesmo antes da inauguração, ainda em 1968, o imóvel foi tombado como Patrimônio Histórico Nacional, mas durante 55 anos só recebeu projetos menores para manutenção e conservação. Porém, depois de ficar fechado no período da pandemia da Covid-19, foi aberto por alguns meses até os efeitos no tempo na estrutura provocar sua completa interdição em 2023. “Foi uma questão de segurança. O comprometimento estrutural foi muito grande e, desde então, iniciamos a luta para colocar em prática este projeto que é a transformação de um sonho em realidade”, comenta Shirley Francisca. 

Geraldo Padrão, Afranio Avelar e Dom Daniel na inauguraçao do Museu Histórico, no dia do aniversário de Sete Lagoas

Originalidade da edificação é prioridade do projeto

Reginaldo da Silva é o encarregado da obra e, literalmente, coloca a mão no adobe, pau a pique e serras. Com enorme experiência neste tipo de trabalho, ele coleciona restaurações bem-sucedidas em cidades como forte vocação histórica e cultural como Diamantina, Sabará, Caeté, entre outras. “Estamos concentrados nas estruturas mais complexas que são o telhado e o assoalho. Cada detalhe é muito bem estudado para garantir a reconstrução com total originalidade”, explica. 

Reginaldo coordena a obra de maneira detalhista

Os detalhes da restauração impressionam. O teto, por exemplo, está recebendo uma manta de proteção que será coberta com telhas da cerâmica atual e, somente no fim, serão reinstaladas as telhas originais que foram revitalizadas. “As telhas originais sofreram com a ação do tempo e, por isso, vamos fazer uma primeira cobertura para garantir a proteção exigida em períodos de chuva”, explica Reginado da Silva.

A historiadora Shirley Francisca acompanha cada detalhe e considera o projeto a realização de um sonho

Janelas e paredes também começam a ser tratadas com técnicas especiais. O projeto exige concentração e paciência e deverá ser finalizado no segundo semestre do próximo ano. Toda a intervenção foi autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o valor do processo licitatório é R$ 1.103.000,00. A proposta também contempla outros dois imóveis que integram o conjunto destro de uma mesma área. 

A restauração foi anunciada pelo prefeito Douglas Melo e o vice-prefeito Dr. Euro de Andrade em reunião com membros do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (Compac), em junho deste ano. “Nossa cidade tem muitas histórias e figuras que nunca poderão ser esquecidas e o Museu Histórico preserva e representa muito bem a importância desse acervo”, destacou o prefeito.

Acervo construído por apaixonados pela história está protegido

O Museu Histórico Municipal tem um rico acervo de peças que remetem a história de Sete Lagoas desde as épocas da colonização e da escravidão. É um conjunto de documentos, objetos, instrumentos, móveis e roupas. Diversas fotos também mostram a transformação da cidade e retratam cenas cotidianas. Até recentemente, o espaço também abrigava o Memorial Zacarias que, na gestão passada da Prefeitura, foi transferido para Centro Cultural Nhô Quim Drumond – Casarão. 

A construção deste acerto também contou com a participação efetiva do ex-prefeito Afrânio Avelar. Ele foi doou as primeiras peças e, de maneira natural, motivou o mesmo gesto de outros sete-lagoanos. “Recebemos doações de muitas pessoas no decorrer dos anos. Tudo está devidamente catalogado”, esclarece Shirley Francisca.

Inauguração do Museu Histórico no dia 24 de novembro de 1970

Para garantir a integridade do acervo, a Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo providenciou a devido acondicionamento e transferência para outros departamentos da Prefeitura. “Inclusive, esta será a oportunidade de manutenção e restauro de algumas peças”, destaca Shirley Francisca.

Geraldo Padrão, Afrânio Avelar, Dom Daniel e autoridades; ao fundo o espaço onde atualmente está o escritório do Departamento de Museus