Por Aline Nery
Empresária, idealizadora da Rodada de Gigantes, mãe de Laura e Bia

Este não é um texto de confronto. Não é um manifesto contra homens, tampouco uma defesa ideológica. É um relato de experiência. Uma vivência que, acredito, ecoa na trajetória de muitas mulheres que aprenderam, desde cedo, quais seriam os “lugares permitidos” a ocupar — e que, ainda assim, decidiram ir além.
Nunca fui de permanecer em um único papel. Ao longo da vida, experimentei muitos: filha, amiga, irmã, esposa, mãe, empresária. O desafio não esteve em escolher qual deles seria mais importante. O verdadeiro desafio foi — e continua sendo — dar conta de todos ao mesmo tempo. E sempre sob cobrança.
Nós, mulheres, fomos educadas a acreditar que a sobrecarga é sinônimo de força. Que dar conta de tudo nos torna mais valiosas. Que agradar, muitas vezes, é uma obrigação silenciosa — sobretudo quando se trata de agradar aos homens. Crescemos aprendendo a equilibrar pratos que nunca param de girar.
Em mais de 30 anos de atuação profissional, enfrentei inúmeras situações que revelam como o mercado ainda enxerga a mulher. Empreender já é um desafio. Empreender grávida, com um bebê recém-nascido, administrando empresa, funcionários, clientes e, ao mesmo tempo, aprendendo a ser mãe, é uma forte prova de resistência. Exige-se muito da mulher — e, ainda assim, ela entrega. Nós entregamos, mas a que preço!
Quando ouço alguém dizer que não percebe o machismo, que não há preconceito, percebo o quanto essa visão está limitada. Ele existe — às vezes sutil, às vezes explícito. Em muitas mesas de reuniões a mulher ainda é vista como coadjuvante. Já fui confundida com secretária. Já presenciei situações em que apenas as falas dos homens eram valorizadas — mesmo que as mulheres fossem as promotoras da reunião.
Há também a tentativa silenciosa de neutralizar a própria feminilidade como estratégia de sobrevivência. Mulheres que se vestem como homens, adotam posturas rígidas, constroem uma espécie de armadura para serem respeitadas. Como se precisassem provar o tempo todo que são capazes.
Com o tempo, aprendi a reconhecer esses movimentos e, principalmente, a me posicionar. Hoje, ocupo meu lugar com autoridade e serenidade. Não para competir, mas para ser respeitada. Não para disputar poder, mas para exercer a competência construída ao longo de anos.
Existe ainda um julgamento social que atravessa a vida pessoal. Mulheres são frequentemente valorizadas pelo homem que está ao seu lado. Duas amigas sentadas juntas são vistas como “sozinhas” porque não há um homem à mesa. Como se a presença masculina fosse um selo de validação. E é nesse momento que a gente descobre como é a auto estima masculina socialmente. “Eles se acham”.
E há um ponto delicado que precisa ser refletido: muitas vezes, somos nós, mulheres, que perpetuamos padrões ao educar nossos filhos. Entre meninos e meninas, quantas vezes facilitamos o caminho para eles e exigimos mais delas? Quantas vezes ensinamos, sem perceber, que o homem pode mais e a mulher deve se virar?
Apesar de tudo, seguimos. Criamos filhos e filhas. Conduzimos empresas. Lideramos equipes. Administramos lares. Construímos carreiras. Não porque seja fácil, mas porque é necessário. Porque desistir nunca foi uma opção ensinada a nós, ainda bem.
Hoje, não se trata apenas de ocupar espaços. Trata-se de reconhecer que eles também são nossos por direito. Não estamos preenchendo lacunas — estamos nos posicionando.
Ser mulher é, sim, um desafio constante. Mas é também uma dádiva. É sensibilidade e força coexistindo. É firmeza com afeto. É coragem com intuição. É plenitude.
Ser mulher é especial. E é justamente nessa singularidade que reside a nossa maior potência.





