Uma história que começa numa criança peculiar, passa por uma depressão, e chega até você — com ciência, com afeto e sem fórmulas prontas.

Por Edith Machado
Psicóloga – Psicologia Para Florescer
Antes de falar sobre psicologia, preciso te contar uma história. A minha. Porque acho que ela pode ter alguma coisa a ver com a sua. Eu era uma criança peculiar. Aprendi cedo a brincar sozinha porque era a mais nova de cinco irmãs já adolescentes, eu fui uma filha temporã. Minha mãe, que teve suas gestações muito próximas umas das outras, ensinou as minhas irmãs a brincarem juntas e tinha horror a crianças em bando brincando na rua e com essa informação talvez eu tenha denunciado a minha idade. Fato é que eu passava muito tempo inventando brincadeiras comigo mesma, e nunca pensei, na época que isso pudesse ser algo ruim. Eu me virava super bem sozinha e hoje entendo que, talvez meio sem querer, e também sem muita escolha, passei por um treinamento intensivo de imaginação. As inúmeras brincadeiras inventadas desafiavam a minha criatividade. Mas pelo que me lembro, entre histórias incríveis e fantasia, eu brincava muito de como seria a minha vida ideal no futuro.
E foi nesse mundo interno, criativo e ingenuamente esperançoso, típico de um universo infantil, que surgiu uma resposta que nunca me abandonou. Sabe aquela pergunta que os adultos adoram fazer para as crianças: “O que você vai ser quando crescer?” com aquele sorriso de quem espera ouvir “médica” ou “professora”?
Pois é. A minha resposta às vezes podia soar surpreendente.
“Quero ser feliz. E não quero ser atriz.”
Não me pergunte sobre a atriz. Tenho a memória exata da frase, mas confesso que a lógica interna daquela criança ainda é um mistério pra mim, até porque, anos e anos mais tarde fiz curso de teatro e cheguei a estrear em uma peça. Vai entender né?
Mas vamos nos concentrar no que vinha antes: quero ser feliz. Não uma profissão. Não um título. Um estado de ser. Cresci com esse norte meio abstrato, porém não muito. Quando chegou a hora de escolher o que estudar, fiz o cálculo com a seriedade de quem já havia pensado nisso há anos: já que vou passar a maior parte da minha vida no trabalho, esse trabalho precisa me dar alegria. E fui além — pensando, com uma cabeça adolescente notavelmente otimista, que se um dia meu casamento não desse certo, meu trabalho seria minha alegria de reserva.
Sim: o plano era casar, ter filhos, ter um emprego que eu amasse. Nada muito novo, porém, tudo muito definido.
Olha a cabeça dessa minha adolescente gente!
Então foi assim que construí minha estratégia de vida. Com esse fio condutor meio ingênuo, muito honesto e completamente meu. Que me levou a passar em vários vestibulares, começar algumas faculdades, eu estava em uma busca. Encontrei. O primeiro curso: Belas Artes. Nossa, como eu era feliz nas dependências da Escola de Belas Artes da UFMG e principalmente na biblioteca onde eu passava horas estudando sobre história da arte.
Eu contei que na infância minha brincadeira preferida era desenhar? Pois é, menina. Era assim, meus dias de menina eram sempre repletos de canetas coloridas e papel. Acabei me optando pela arte, ou talvez a arte tenha optado por mim.
A vida seguiu, me formei, casei, me tornei professora, artista. Mas como diria Carlos Drummond de Andrade, no meio do caminho tinha uma pedra. E eu tropecei.
Quando a felicidade não foi suficiente
Demorou alguns anos para eu perceber que felicidade — aquela que eu perseguia desde criança — era algo maravilhoso, sim. Mas também era fugaz. Ela chegava, iluminava tudo, e depois ia embora sem avisar. Foi quando a depressão bateu na minha porta que entendi isso na pele. Não de forma intelectual, não num livro. Na pele mesmo: daquele jeito que só quem viveu sabe descrever: a ausência de cor nas coisas que antes tinham cor, o cansaço que não passa com o sono, o esforço enorme de parecer inteira quando por dentro você está em cacos.
O plano tinha sido quase perfeito. Eu me casei. Eu amava viver de arte, mas outras coisas vieram juntas com a responsabilidade da vida adulta, o preço das escolhas, as consequências da vida em si. Vivi muitas questões internas e externas para fazer uma descoberta: felicidade não é o suficiente como objetivo de vida. A ideia é bonita, mas não dá para ser a única coisa que se busca.
O que a neurociência diz sobre isso?
A neurocientista Lisa Feldman Barrett demonstrou que o cérebro não registra “felicidade” como um estado fixo — ele constrói emoções a partir de experiências corporais, memórias e contexto social. Isso significa que a felicidade que sentimos é real, mas também é construída. E o que a sustenta não é a intensidade do prazer, mas a regularidade de experiências com significado. Foi então que comecei a estudar sobre um monte de coisas relacionadas a desenvolvimento pessoal. Descobri que arte poderia ser uma ferramenta poderosa para tratar depressão, ansiedade, e uma gama de transtornos psiquiátricos.
Me tornei Arteterapeuta
E comecei a viver totalmente dos meus atendimentos com mulheres, crianças, adultos, que passavam por mim para se reencontrarem através de propostas artísticas que levavam à reflexão e ao autoconhecimento. Minha busca era para entender mais e melhor como podemos construir uma vida com sentido, não em que sejamos felizes o tempo todo, afinal os revezes acontecem, mas que pudesse nos proporcionar um dia a dia com mais qualidade e bem estar. E foi assim que cheguei à graduação em Psicologia, à Psicologia Positiva, e depois ao conceito que mudou completamente a forma como eu vejo a vida e como trabalho: o Florescimento Humano como uma ideia de que existe uma diferença brutal entre sobreviver e viver de verdade.
Então, o que na verdade é florescer?
Florescer não é ser feliz o tempo todo. Se você ficar com alguma coisa desse texto, que seja essa. Porque essa confusão, entre florescimento e felicidade permanente, faz um estrago silencioso na vida de muita gente. O psicólogo Martin Seligman, que fundou a Psicologia Positiva como campo científico, desenvolveu um modelo chamado PERMAH que descreve os elementos do florescimento: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, significado, realização e saúde mental. Mas o que me toca de verdade nesse modelo não é a sigla. É o que ele pressupõe: que florescer é um processo ativo, não um estado que você atinge e pronto. Para entender a diferença O pesquisador Corey Keyes distingue dois extremos do espectro de saúde mental: o languishing — aquele estado de vazio funcional onde você não está doente, mas também não está bem, apenas existindo — e o flourishing, o florescimento pleno. A maioria das pessoas vive no meio. Esse meio tem nome: é onde a vida parece “ok”, mas algo falta.
Reconheceu?
Florescer engloba a metáfora da árvore que é impactada na tempestade, mas não cai porque as raízes são fundas o suficiente. Significa acordar numa segunda-feira difícil e ainda assim ter dentro de si, algo que é seu, algo que te sustenta. É se relacionar sem se perder, errar sem se destruir, sentir dor sem achar que a dor é sua identidade. E é ter um algo a mais que não deixa o vazio fazer morada. Brinco que florescer é a capacidade de não nos tornarmos ocos. É muito mais do que ser feliz. E é exatamente por isso que vale a pena buscar.
Por que isso importa agora, mais do que nunca?
Vivemos num tempo em que nunca se falou tanto em bem-estar e nunca se sentiu tão pouco. Os aplicativos de meditação explodiram. As terapias online multiplicaram. Os conteúdos de autoconhecimento estão em todo feed, todo mundo virou terapeuta (já reparou?). E mesmo assim, os índices de ansiedade, burnout e sensação de vazio seguem subindo, especialmente entre mulheres. Talvez porque estejamos confundindo informação com transformação, conhecimento com prática. Consumir conteúdo sobre florescer com realmente florescer. Dados que não podem ser ignorados: O maior estudo global sobre florescimento humano já realizado, conduzido por Harvard e Baylor, com mais de 200 mil pessoas em 22 países, publicado na Nature Mental Health em 2025, trouxe um achado perturbador: os jovens estão indo pior do que as gerações anteriores. E as mulheres, na maioria dos países, relatam mais sofrimento do que os homens. No Brasil, especificamente, a diferença de florescimento entre homens e mulheres é uma das maiores entre todos os países estudados.
Esta coluna existe porque acredito, com base na ciência e na experiência clínica, que esse número pode mudar. Não com fórmulas. Não com listas de 7 hábitos. Mas com entendimento real do que nos faz humanas e com a coragem de construir uma vida que valha a pena ser vivida.
E você, o que quer ser quando crescer?
Essa é a pergunta que eu te deixo hoje. Não de forma retórica, mas de verdade. Porque a maioria de nós foi ensinada a responder com uma profissão, um papel, uma função. Raro é quem tem a ousadia de responder com um estado de ser. Toda semana vou estar aqui, nesse espaço, explorando com você os temas que a vida real levanta e a psicologia tem muito a dizer: relacionamentos, emoções, limites, propósito, o corpo que carrega tudo isso, e o mundo que insiste em nos apressar. Mas vamos juntas, no nosso tempo. Sem receitas. Sem positividade de vitrine. Com ciência, com franqueza e com o afeto de quem já esteve no chão e sabe que dá pra florescer mesmo a partir daí. Especialmente a partir daí.
Se esse papo tocou você me escreve, quero te ouvir: suporte@psicologiadoflorescer.com.br
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