Por Edith Machado
Psicóloga e especialista no atendimento a mulheres, a convite do Sete Dias para essa edição especial

O Dia da Mulher continua sendo um marco necessário por muitos motivos, sobretudo pelo direito à vida. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 feminicídios: quatro mulheres mortas por dia simplesmente por serem mulheres, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Esse dado exige indignação, políticas públicas e responsabilidade coletiva.
Falamos, com razão, sobre o direito de existir. Mas, sem diminuir a gravidade dessa realidade, quero te convidar a ampliar a reflexão: que tipo de existência estamos construindo? Para além de sobreviver, temos nos permitido florescer? Fomos educadas, histórica e culturalmente, para sermos fortes. Somos filhas e netas da Mulher-Maravilha, criada em 1941 como símbolo de poder em um mundo em guerra. Enquanto os homens lutavam, as mulheres sustentavam fábricas, lares, economias e afetos. A heroína era necessária. A força era necessária. Mas o que acontece quando a força deixa de ser escolha e se transforma em obrigação?
Martin Seligman chamou de desamparo aprendido o fenômeno pelo qual alguém, após repetidas experiências de impotência, deixa de tentar mudar a própria realidade — não porque não possa, mas porque se acostumou a suportar. Quando essa lógica atravessa o feminino, surge uma adaptação silenciosa: mulheres competentes e produtivas, mas desconectadas de si mesmas. A questão não é abandonar responsabilidades. É incluir-se nelas.
Há uma diferença profunda entre força e endurecimento. Força é consciência; endurecimento é defesa. O feminino saudável não é o que suporta tudo, mas o que reconhece e legitima as próprias necessidades.
Nas últimas décadas, a psicologia do feminino reforçou que saúde mental não é apenas ausência de doença, mas presença de autonomia emocional. É aqui que o florescimento humano se torna essencial. Florescer é crescer em meio aos desafios, com consciência e escolha.
Neste 8 de março, talvez a pergunta mais transformadora não deva ser dirigida apenas à sociedade — “o quanto avançamos?” —, mas a cada uma de nós: estamos vivendo por escolha ou por adaptação? Estamos conseguindo integrar vulnerabilidade e protagonismo e nos permitindo existir inteiras? O feminino não veio ao mundo apenas para suportá-lo ou sustentá-lo. Veio para criar e transformar. E toda transformação começa dentro.
Feliz dia, mulheres!





