Um sete-lagoano integrante das Forças Armadas dos EUA

Edivaldo Anjos Júnior foi fuzileiro naval da Marinha mais poderosa do mundo, ocupou cargos em uma agência federal e agora tenta carreira política no país

por Filipe Felizardo

Eddie serviu à Marinha dos EUA e foi servidor federal do país por 28 anos / Fotos: Eddie Anjos / arquivo pessoal

Uma vida feita ao servir: essa é a trajetória de Edivaldo Anjos Júnior. Nascido e criado em Sete Lagoas, quando jovem teve a oportunidade de fazer parte de uma das forças armadas mais poderosas do mundo, a dos Estados Unidos. Após, fez sua carreira assumindo cargos em uma agência federal para veteranos no país, onde aposentou depois de 28 anos de trabalho. E apesar da aposentadoria, Eddie (assim como é conhecido nos EUA) busca um novo desafio: ser representante da comunidade onde vive, no estado de Ohio.

A sua história começou quando Eddie foi para uma pequena cidade como intercambista pelo Rotary Club de Sete Lagoas. A partir dali, percebeu seus horizontes se ampliarem ao conviver diretamente com a cultura local. “Foi durante esse período que me tornei amigo de um colega que servia no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Ele me falou sobre a disciplina, o senso de irmandade, o orgulho de vestir o uniforme e as oportunidades que isso poderia criar, incluindo a possibilidade de ajudar a pagar a faculdade por meio de benefícios educacionais”, conta.

Após um ano, ele retorna ao Brasil e se alista no 4° Grupo de Artilharia Antiaérea (GAAe), até retornar aos EUA e ingressar como Fuzileiro Naval da marinha do país. “Não foi uma decisão fácil, especialmente por estar longe do meu país e da minha família, mas eu acreditava profundamente nos valores de serviço, compromisso e trabalho árduo. Passei a ver o serviço militar não apenas como uma forma de retribuir ao país que me acolheu, mas também como um caminho para crescer pessoalmente, adquirir habilidades de liderança e construir um futuro por meio da educação”, comenta Eddie.

Eddie fez parte por quase 30 anos da agência norte-americana voltada aos veteranos / Foto: arquivo pessoal

Durante este período servindo nas Forças Armadas, o setelagoano participou de missão na Bósnia, entre os anos de 1999 a 2000, porém, um problema de saúde acabou o retirando da Marinha. Reformado, Eddie migrou para a administração pública, onde por 28 anos atuou no Departamento de Assuntos dos Veteranos (VA), segunda maior agência do governo federal dos EUA, onde foi líder em diversas operações neste órgão – ele conta que nada mudou, porque acredita que essa nova função continuou em sua vocação, que é o servir. No último mês, Eddie Anjos acabou se aposentando do VA, em uma cerimônia muito emocionante para ele. Porém, a vocação de servir ainda continua: sua comunidade na cidade onde vive o pediu para que ele possa concorrer às eleições locais em Ohio, no mês de novembro deste ano.

Apesar de uma vida inteira vivendo nos EUA, Eddie ainda mantém laços com o Brasil e Sete Lagoas. Apesar de vir pouco por aqui, o calor humano e as características que só existem aqui lhe fazem falta: “Existe uma energia única no Brasil que você leva consigo, não importa quanto tempo viva no exterior”.

Foto: arquivo pessoal

Veja a entrevista com Eddie Anjos:

SETE DIAS – Como chegou aos EUA e ingressou nas Forças Armadas?

Eddie Anjos – Minha jornada para os Estados Unidos começou como estudante de intercâmbio. Fui patrocinado pelo Rotary Club de Sete Lagoas e tive a oportunidade de passar um ano em uma pequena cidade chamada Greenville, no estado de Ohio. Essa experiência mudou o rumo da minha vida.

Morar com uma família americana, frequentar o ensino médio e mergulhar em uma nova cultura me abriu os olhos para possibilidades que eu jamais havia imaginado. Foi durante esse período que me tornei amigo de um colega que servia no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Ele me falou sobre a disciplina, o senso de irmandade, o orgulho de vestir o uniforme e as oportunidades que isso poderia criar — incluindo a possibilidade de ajudar a pagar a faculdade por meio de benefícios educacionais.

Eddie foi fuzileiro naval / Foto: arquivo pessoal

A experiência dele me inspirou. Passei a ver o serviço militar não apenas como uma forma de retribuir ao país que me acolheu, mas também como um caminho para crescer pessoalmente, adquirir habilidades de liderança e construir um futuro por meio da educação.

Após concluir meu programa de intercâmbio, voltei para o Brasil for um ano onde fiz serviço militar como era mandatório. Fiz isto no 4GAAE for 10 meses. Ai voltei para os Estados Unidos e decidi ingressar no Corpo de Fuzileiros Navais. Não foi uma decisão fácil, especialmente por estar longe do meu país e da minha família, mas eu acreditava profundamente nos valores de serviço, compromisso e trabalho árduo. Essa escolha moldou o resto da minha vida — do meu serviço militar à minha carreira de quase 28 anos no serviço público federal, apoiando veteranos.

Olhando para trás, o que começou como um intercâmbio estudantil se tornou a base da minha história americana.

SETE DIAS – Gostaria que pudesse falar um pouco desta sua aposentadoria. E hoje, como está sendo a sua vida?

A aposentadoria tem sido significativa e reflexiva para mim. Após quase 28 anos no serviço público federal — e uma vida inteira moldada pelo meu tempo no Corpo de Fuzileiros Navais — deixar a liderança operacional diária no Departamento de Assuntos de Veteranos não foi simplesmente fechar um capítulo. Foi a conclusão de uma missão que carreguei com muito orgulho.

A transição em si foi emocionante. Quando você dedica décadas a servir veteranos, liderar equipes, melhorar o acesso aos cuidados e resolver desafios complexos, essa responsabilidade se torna parte da sua identidade. Mas me aposentei com um profundo sentimento de gratidão e realização. Tive a sorte de trabalhar ao lado de profissionais extraordinários que compartilhavam o compromisso com a excelência e com os veteranos que servíamos. Saber que a missão continua com uma liderança forte me trouxe paz.

Eddie se aposentou no mês passado, com direito a homenagens por parte de seus colegas / Foto: arquivo pessoal

Hoje, minha vida é mais equilibrada, mas o senso de serviço não me abandonou. Passo mais tempo com a família e na minha comunidade, o que tem sido uma enorme bênção. A aposentadoria me permitiu refletir sobre o impacto da minha carreira e valorizar os relacionamentos construídos ao longo do caminho.

Ao mesmo tempo, servir não é algo que você simplesmente desliga. Como veterano com deficiência e ex-executivo federal sênior, ainda me sinto chamado a contribuir — seja por meio de mentoria, envolvimento comunitário ou serviço público de novas maneiras. A aposentadoria me deu a oportunidade de pensar estrategicamente sobre como posso continuar fazendo a diferença, apenas em uma capacidade diferente.

De muitas maneiras, esta fase da vida parece menos um fim e mais uma transição — de liderar grandes operações federais para focar no impacto na comunidade local e no crescimento pessoal. Sou grato pela jornada, orgulhoso do trabalho realizado e otimista em relação ao que o futuro reserva.

SETE DIAS – Em uma entrevista recente, você relatou sobre o apreço as Forças Armadas. Na sua opinião, a que se deve o apreço do norte-americano aos seus soldados?

Eddie Anjos – Acredito que o alto preço que os americanos estão dispostos a pagar por seus soldados se resume a uma profunda compreensão do que realmente significa servir. Nos Estados Unidos, o serviço militar é visto como um compromisso voluntário de defender não apenas o território, mas também ideais — liberdade, democracia e o Estado de Direito. Nossos militares se alistam sabendo que podem ser chamados a sacrificar seu conforto, sua segurança e, às vezes, até mesmo suas vidas. Esse nível de compromisso cria um vínculo profundo entre a nação e aqueles que a servem.

Como fuzileiro naval e, posteriormente, como veterano com deficiência, vivenciei esse compromisso em primeira mão. O povo americano entende que, quando um jovem é enviado para o exterior, toda a família serve ao seu lado. O “preço” não é medido apenas em orçamentos de defesa — é medido pelo tempo longe dos entes queridos, pelas feridas físicas e emocionais e pela responsabilidade vitalícia que carregamos de cuidar daqueles que retornam para casa transformados pelo serviço.

Eddie serviu na Bósnia entre 1999 a 2000 / Foto: arquivo pessoal

Outro motivo é a confiança. Os americanos depositam uma confiança extraordinária em suas Forças Armadas. Eles acreditam no profissionalismo, na disciplina e nos valores incutidos naqueles a quem servem. Devido a essa confiança, eles esperam que o país invista em treinamento adequado, equipamentos, assistência médica e apoio a longo prazo para os veteranos.

O preço que pagamos é, em última análise, uma expressão de nossos valores. Acreditamos que, se pedimos a alguém que defenda nossas liberdades, devemos estar totalmente comprometidos em apoiá-lo — antes, durante e muito depois do término de seu serviço. Esse compromisso não termina no campo de batalha; ele continua em nossas comunidades, em nossos sistemas de saúde e em nossa consciência nacional.

É por isso que o reconhecimento é tão forte. Ele está enraizado tanto na gratidão quanto na responsabilidade.

SETE DIAS – Como você vê essa cultura de valorização do veterano, muito forte nos EUA?

Eddie Anjos – A cultura de valorização dos veteranos nos Estados Unidos é algo que vivenciei sob duas perspectivas muito pessoais: primeiro, como veterano do Corpo de Fuzileiros Navais com deficiência e, depois, por quase 28 anos, como líder federal a serviço de veteranos no Departamento de Assuntos de Veteranos (VA).

Em nosso país, o respeito pelos veteranos está profundamente enraizado em nossa identidade nacional. Mas o que sempre me chamou a atenção é que esse respeito não é apenas simbólico. Ele se demonstra na forma como comunidades, famílias, profissionais de saúde e servidores públicos trabalham diariamente para garantir que os veteranos sejam cuidados e jamais esquecidos.

Eddie em atividades na sua comunidade / Foto: arquivo pessoal
Eddie em atividades na sua comunidade / Foto: arquivo pessoal
Como veterano participando de eventos dos Forças Armadas dos EUA / Foto: arquivo pessoal
Eddie enquanto fuzileiro naval / Foto: arquivo pessoal
Eddie em atividades na sua comunidade / Foto: arquivo pessoal
Eddie agora é candidato nas eleições locais em Dark County, estado de Ohio / Foto: divulgação

Durante meu período como Diretor de Operações Ambulatoriais e em funções de liderança anteriores no VA, testemunhei uma dedicação extraordinária por parte de funcionários cuja missão não era apenas um trabalho, mas uma vocação. Eles entendiam que valorizar os veteranos significa fornecer assistência médica oportuna, melhorar o acesso, modernizar os serviços e elevar continuamente o padrão de atendimento. Significa ouvir os veteranos, aprender com eles e se adaptar para atender às suas necessidades em constante evolução.

Como veterano, nunca vi meu serviço federal como algo separado do meu serviço militar. Era uma continuação dele. O uniforme pode ser retirado, mas o compromisso de servir permanece. Isso é parte do que torna nossa cultura tão forte — acreditamos que o serviço continua de diferentes formas ao longo da vida.

Acredito que a cultura americana de valorização dos veteranos reflete nossa gratidão, mas também nossa responsabilidade. Devemos mais do que agradecimentos; devemos ação, excelência e responsabilidade. Tenho orgulho de ter dedicado minha carreira a essa missão e me aposento com a certeza de que essa cultura de respeito e serviço continuará a guiar a próxima geração de líderes.

SETE DIAS – Você vem regularmente ao Brasil? Do que sente mais falta?

Eddie Anjos – Embora eu tenha vivido nos Estados Unidos por muitos anos, o Brasil — e especialmente Sete Lagoas — sempre fará parte de quem eu sou. Por causa da minha carreira no Corpo de Fuzileiros Navais e, posteriormente, por quase 28 anos no serviço público federal, não pude retornar com a frequência que gostaria. As responsabilidades da liderança e do serviço público exigiam minha dedicação integral. Felizmente, minha família se esforçou muito para me visitar sempre que possível, e esses momentos significaram tudo para mim.

Quando retorno a Sete Lagoas, a sensação é muito emocionante. Há algo poderoso em caminhar pelas mesmas ruas onde cresci, ouvir o sotaque familiar, rever velhos amigos e me reconectar com minhas raízes. Isso me lembra os valores que me moldaram — família, fé, resiliência e trabalho árduo. Esses valores permaneceram comigo ao longo da minha carreira militar e no serviço público federal.

Eddie com o pai, que mora em Sete Lagoas, prestes a completar 90 anos em 2026 / Foto: arquivo pessoal

É claro que há coisas de que sinto falta. Sinto falta do calor do cotidiano brasileiro — a proximidade dos encontros familiares, a comida, a espontaneidade das conversas e o forte senso de comunidade. Existe uma energia única no Brasil que você leva consigo, não importa quanto tempo viva no exterior.

Viver fora do seu país te ensina a valorizar ambas as culturas. Tenho orgulho da vida que construí nos Estados Unidos, mas tenho o mesmo orgulho de onde vim. O Brasil me deu a base. Os Estados Unidos me deram a oportunidade de servir. Ambos fazem parte da minha história, e levo essa gratidão comigo todos os dias.