Colunista Convidado – Família em férias

por Dr. Nelson Monteiro

A família havia imaginado as férias naquela praia muito badalada, que havia sido recomendada por amigos como um lugar de fazer inveja àquelas vistas em filmes de Hollywood. Tiveram um choque ao chegar porque, em vez do almejado, a praia parecia um plano confuso feito de toalhas, guarda-sóis e corpos comprimidos lado a lado. Com muita sorte conseguiram uma estreita faixa mal suficiente para colocar seus pertences, mas se acomodaram mesmo assim, com muito cuidado para não esbarrar nos grupos vizinhos. 

Meio sem graça, seus filhos começaram a cavar na areia, parando frequentemente para olhar se estavam o espaço vital dos outros. Foi quando a música começou a competir para ver quem conseguia fazer mais confusão. À esquerda, uma grande caixa de som tocava um tum-tum tão alto que o som parecia fazer o chão tremer sob seus pés, enquanto outro grupo tocava um rock antigo em volume máximo, cantando de maneira desafinada e trocando as palavras inglesas por traduções malfeitas. Em algum lugar atrás deles, outro sistema de som se juntava com ritmos funk estrondosos, nenhuma das músicas combinava e, juntas, formavam uma parede caótica de barulho que abafava completamente o som as ondas se chocando com a areia. 

Os pais tentaram levar na brincadeira, a princípio, dizendo que aquela balbúrdia fazia do contexto de uma praia, enquanto forçava um sorriso amarelo, mas a conversa se transformou em gritos, depois em gestos e, por fim, em silêncio. As crianças taparam os ouvidos, incapazes de cochilar ou mesmo se concentrar em construir um castelo de areia. Cada tentativa de relaxar era interrompida por outra onda de som vinda de uma direção diferente. 

Naquela noite, todos estavam pensando a mesma coisa, aquelas não eram as férias com que haviam sonhado e, pela manhã a decisão já havia sido tomada. Eles arrumaram as malas mais cedo do que o planejado, dobrando roupas que mal haviam sido usadas e carregando o carro em quase total silêncio. Enquanto se afastavam da praia, o barulho foi ficando para trás, substituído pelo zumbido constante da estrada. 

As férias terminaram mais cedo, eles não ficaram tanto tempo quanto pretendiam, mas sentiram um alívio em partir, levando de volta um entendimento de que, quando o desconforto se torna insuportável, é mais sábio escolher a tranquilidade. Voltaram com uma decisão comum: praia badalada, nunca mais.