Coluna Católica – O bem-viver

O bem-viver como paradigma social e caminho para toda a humanidade. Será possível? Nos inicios século XXI, na Bolívia e Equador, os povos indígenas propuseram colocar em suas Constituições, como responsabilidade dos Estados, a conquista e o cuidado do bem-viver. Cada povo compreende isso do seu modo e a partir da sua cultura. Embora o bem-viver tome formas diversas e assuma elementos diferentes em cada cultura, existe uma raiz comum. Essa raiz é o que podemos chamar de espiritualidade do bem-viver. 

A espiritualidade é a arte de viver e conviver bem. Espiritualidade é a energia mais profunda da vida e tudo que favorece a vida. 

Jesus falou em Reino de Deus, ou reinado divino no mundo. Parece que Deus é Senhor de escravizados. Nenhum termo adequa bem a essas definições de Reino. 

Será que poderíamos substituir em nossas leituras do evangelho, o termo reinado divino pela noção de bem-viver? Se sim, devemos dar a ele a concretitude.

Como as culturas originárias são muito concretas, o bem-viver é um caminho de amadurecimento da vida, da vida comunitária e da vida pessoal. Geralmente, o bem-viver traduz-se por elementos muito concretos de uma educação ao viver comunitário.  O indígena, David Choquehuanca diz o que significa: 

“saber ouvir e compartilhar, 

saber ouvir e sonhar,

 saber alimentar-se corretamente

 e saber dançar. 

Saber comunicar-se e saber trabalhar.” 

Conforme a tradição espiritual, esse “saber” que o indígena repete aí não se refere apenas a executar bem aquilo que faz e sim tornar-se capaz de encontrar naquilo o gosto de viver e a alegria. Saber tem relação com sabor e saborear. Isso significa degustar a vida em tudo o que se faz.  

A ancestralidade e o bem-viver como estilo de vida, como proposta para ser universalizada na política, lembramos de Pedro Casaldáliga escreveu: 

“Ser o que se é, 

Falar o que se crê,

Crê no que se prega, 

Viver o que se proclama,

Até as últimas consequências”  

Os zapatistas do México completam: O bem-viver é um sonho coletivo que sonhamos acordados e para vivê-lo hoje. Nós somos um exército de sonhadores e sonhadoras. Por isso, somos invencíveis”.