Recorde de suicídios acende alerta e psiquiatra destaca riscos ligados a jogos, apostas e endividamento

Psiquiatra Dr. André Rocha fala sobre sinais de alerta, formas de abordagem e caminhos para buscar ajuda em Sete Lagoas

Dr. André Rocha

por Celso Martinelli

O Brasil registrou, em 2025, 16.533 mortes por suicídio, uma média de 45 casos por dia e o maior número da série histórica, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O número representa um aumento de 25,6% em relação a 2020 e reforça a necessidade de ampliar as ações de prevenção e atenção à saúde mental.

Minas Gerais aparece em segundo lugar no número absoluto de registros, com 1.987 mortes em 2025, atrás apenas de São Paulo. Quando considerada a população, o Estado também apresenta um cenário preocupante: foram 9,29 mortes por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 7,75.

O suicídio é considerado um importante problema de saúde pública e está relacionado a diferentes fatores. Transtornos mentais, como depressão e ansiedade, além do uso abusivo de álcool e outras drogas, problemas financeiros, isolamento social, conflitos familiares e outras situações de sofrimento podem aumentar a vulnerabilidade.

O alerta também envolve os jovens. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio está entre as principais causas de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Neste ano, a campanha Setembro Amarelo tem como tema “Escutar é estar presente”, reforçando a importância do acolhimento, da escuta ativa e da busca por ajuda profissional. O 10 de setembro é o Dia Nacional de Prevenção do Suicídio.

Mas como identificar quando uma pessoa está em sofrimento? O que fazer diante de alguém que fala sobre morte? Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas aumenta o risco? E onde buscar ajuda em Sete Lagoas?

Para responder a essas e outras questões, o médico psiquiatra Dr. André Rocha explica os principais sinais de alerta, orienta familiares e amigos e apresenta os caminhos disponíveis na rede de saúde do município.

ENTREVISTA – DR. ANDRÉ ROCHA

SD – O que explica o aumento dos casos de suicídio no Brasil e em Minas Gerais?

Dr. André Rocha – O aumento dos casos de suicídio tem várias causas, entre elas o crescimento dos transtornos mentais, como depressão e ansiedade, além do uso de álcool e outras drogas. Outro fator que merece atenção é o endividamento relacionado aos jogos e às apostas on-line. As perdas financeiras podem levar a um ciclo de novas apostas para tentar recuperar o dinheiro, provocando dívidas, conflitos familiares, ansiedade, culpa e desesperança. Somados a outros fatores de vulnerabilidade, esses problemas podem agravar o sofrimento psíquico.

Temos várias situações que podem levar uma pessoa a tentar o suicídio, entre elas o isolamento social, a ruptura familiar, a solidão, problemas financeiros e no trabalho, abuso físico e sexual, bullying e dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental para diagnóstico e tratamento. É importante destacar que nem todos os casos de suicídio estão relacionados exclusivamente a problemas psiquiátricos.

Dr. André Rocha – O aumento dos casos de suicídio tem várias causas, entre elas o crescimento dos transtornos mentais, como depressão e ansiedade, além do uso de álcool e outras drogas. Outro fator que merece atenção é o endividamento, que atualmente também aparece relacionado ao crescimento dos jogos e das apostas, especialmente as apostas on-line.

Em alguns casos, a pessoa começa a apostar acreditando que poderá obter um ganho rápido ou recuperar perdas anteriores. Quando passa a perder dinheiro, pode tentar recuperar o valor apostando novamente, criando um ciclo difícil de interromper. Isso pode levar ao acúmulo de dívidas, conflitos familiares, problemas no trabalho, isolamento, ansiedade, culpa e desesperança.

Quando essas situações se somam a outros fatores de vulnerabilidade, como depressão, uso de álcool e outras drogas ou ausência de uma rede de apoio, o sofrimento pode se tornar ainda mais intenso. Por isso, é importante reconhecer o problema relacionado ao jogo e buscar ajuda antes que as consequências financeiras e emocionais se agravem.

Temos várias situações que podem levar uma pessoa ao suicídio, entre elas o isolamento social, a ruptura familiar, a solidão, problemas financeiros e no trabalho, abuso físico e sexual, bullying e dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental para diagnóstico e tratamento. Nem todos os casos de suicídio estão relacionados exclusivamente a problemas psiquiátricos.

SD – Quais são os principais sinais de alerta de uma pessoa em risco?

Dr. André Rocha – Nem sempre a pessoa fala diretamente que quer morrer, mas mudanças de comportamento e atitudes podem indicar que ela esteja em situação de risco.

Entre os principais sinais estão falar sobre morte, dizer que não aguenta mais, que está pensando em desistir ou que seria melhor não existir.

A desesperança em relação à vida também é um sinal importante, assim como a perda do sentido da vida, o isolamento, a negligência com os autocuidados e com o trabalho, despedidas de pessoas próximas, tentativas inesperadas de organizar assuntos financeiros, aumento do uso de álcool e outras drogas e envolvimento em situações de risco que possam causar danos.

SD – Como identificar esses sinais no dia a dia, em casa, na escola ou no trabalho?

Dr. André Rocha – A pessoa pode começar a negligenciar os autocuidados e os afazeres de casa, deixar de realizar tarefas na escola, apresentar queda de rendimento ou começar a faltar ao trabalho sem justificativa.

Mudanças significativas de comportamento e de rotina devem ser observadas com atenção, principalmente quando aparecem acompanhadas de isolamento ou de sinais de sofrimento emocional.

SD – Como abordar uma pessoa que demonstra sofrimento ou fala em morrer?

Dr. André Rocha – A abordagem deve começar pelo acolhimento dessa pessoa em sofrimento, sem julgamentos. Mesmo não sendo um profissional da saúde, é possível demonstrar empatia, mostrar que percebe que aquela pessoa está sofrendo e oferecer ajuda.

Em algumas situações, a pessoa pode estar apresentando pensamentos suicidas iniciais; em outras, pode estar em uma situação de risco mais imediato. Nunca se deve desvalorizar uma situação em que a pessoa fale sobre suicídio, mesmo quando ela já tenha passado por episódios anteriores.

SD – Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas pode ajudar ou aumentar o risco?

Dr. André Rocha – Perguntar sobre suicídio não aumenta o risco. Pelo contrário, pode ser uma porta de entrada para que a pessoa fale sobre seus sentimentos e suas angústias e pode representar o início da busca por tratamento.

O mais importante é ser acolhedor e não fazer julgamentos. Essas pessoas, na maioria das vezes, já carregam grandes estigmas e intenso sofrimento emocional.

SD – Em Sete Lagoas, onde uma pessoa em sofrimento pode buscar ajuda?

Dr. André Rocha – A principal porta de entrada para pessoas em sofrimento psíquico agudo e em situação de risco são os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Também é possível procurar qualquer unidade de urgência e emergência, como o PA Belo Vale, a UPA e o Hospital Municipal.

As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) também estão preparadas para reconhecer situações de maior gravidade e realizar os encaminhamentos de acordo com a necessidade e a urgência de cada caso.

O acompanhamento pode envolver desde aconselhamento e encaminhamento para atendimento especializado, inclusive com psiquiatra, até a necessidade de atendimento de urgência e internação para garantir a segurança do paciente.

SD – Que orientação o senhor deixa para familiares e amigos que percebem alguém próximo em situação de risco?

Dr. André Rocha – Nunca duvide que uma pessoa possa estar em risco de suicídio. Escute, acolha e se mostre disposto a ajudar. Em situações de risco, acione a rede de urgência e emergência e procure envolver familiares e pessoas próximas.

Se você perceber que alguém está apresentando atitudes ou comportamentos que possam indicar risco, procure ajuda. Evite julgamentos. Nem sempre a pessoa em sofrimento irá contar para todas as pessoas que está pensando em tirar a própria vida.

·         Onde buscar ajuda

Em situações de sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, é importante procurar ajuda profissional. Em Sete Lagoas, a população pode buscar atendimento nas UBSs, CAPS, PA Belo Vale, UPA e Hospital Municipal, conforme a necessidade e a gravidade do caso. O CVV – Centro de Valorização da Vida também oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia, além de atendimento pelos canais digitais.