ENTREVISTA | João Batista Mares Guia candidato a deputado federal pelo PT

por Caio Pacheco, especialmente para o SETE DIAS

João Batista dos Mares Guia, nascido em 25 de junho de 1948, em Santa Bárbara, é sociólogo, professor, escritor e especialista em educação básica. Graduado em Sociologia pela UFMG, iniciou sua trajetória política no movimento estudantil durante a década de 1960, período em que foi preso e perseguido pela ditadura militar, chegando a viver exilado no Chile.

Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e, em 1982, tornou-se o primeiro deputado estadual eleito pela legenda em Minas Gerais, exercendo mandato entre 1983 e 1987. Em 1984, coordenou em Minas Gerais a campanha das Diretas Já, a convite de Tancredo Neves e Luiz Inácio Lula da Silva.

Na área da educação, foi secretário municipal de Educação de Contagem e, posteriormente, secretário-adjunto e secretário de Estado da Educação de Minas Gerais. Também atuou como professor da UFMG e como consultor em educação para instituições como o Banco Mundial e a Fundação Roberto Marinho, além de prestar consultoria a redes públicas de ensino.

Após décadas de atuação principalmente na educação, retornou ao PT em 2024, a convite do presidente Lula, e atualmente se apresenta como pré-candidato a deputado federal por Minas Gerais nas eleições de 2026.

João Batista Mares Guia fala sobre trajetória política, eleições e propostas para o Brasil


Caio Pacheco: João Batista, é um prazer recebê-lo em Sete Lagoas. O que o senhor sente ao ser acolhido pela cidade?

João Batista Mares Guia: Eu gosto muito de Sete Lagoas. Fui secretário de Estado de Educação de Minas Gerais e frequentava todas as sedes das Superintendências Regionais de Ensino. Por isso, vinha frequentemente a Sete Lagoas. Eu mesmo ministrava cursos para diretores, pedagogos e professores.

Aqui implantamos o PROCAD, Programa de Capacitação de Dirigentes, e o PROCAP, Programa de Capacitação de Professores. Também tenho grandes amigos na cidade. Portanto, tenho um laço afetivo muito forte com Sete Lagoas. É uma cidade muito próxima de Belo Horizonte. Estamos em casa.

Caio Pacheco: O senhor tem uma trajetória política extensa, desde a União Nacional dos Estudantes, passando pela fundação do PT, pelas Diretas Já, pela Assembleia Legislativa e pela Secretaria de Estado de Educação. Essa experiência o credencia para chegar à Câmara dos Deputados e tentar mudar o cenário atual de radicalização política?

João Batista Mares Guia: Meu número de campanha diz um pouco da resposta: 13, do PT, o partido do coração, que cumpre e honra seus compromissos com o Brasil, e 68, uma homenagem à minha geração.

Foi uma geração libertária, de revolução nos costumes e na cultura. Havia um grande movimento pela autogestão, contra hierarquias, mandonismo e autoritarismo. Eu gosto muito dessa mistura de gerações. É importante preparar novas gerações e também aprender com elas.

Minha juventude foi dedicada à luta contra a ditadura militar. Passei por três etapas: a resistência do movimento estudantil até o Ato Institucional nº 5, em 1968; a resistência armada revolucionária contra a ditadura; e, depois, a resistência democrática, junto à sociedade civil, comunidades de base e sindicatos.

Com o surgimento do moderno sindicalismo liderado por Lula, das comunidades eclesiais de base e com a chegada dos militantes de esquerda que retornavam do exílio ou saíam das prisões, houve uma convergência que resultou na formação do Partido dos Trabalhadores.

O PT passou a lutar pelas liberdades democráticas e também por reformas estruturais, pela redistribuição da riqueza e pela melhoria das condições de vida da população trabalhadora do campo e da cidade.

Nós estamos a meio caminho desse processo. O presidente Lula hoje é minoritário no Congresso Nacional, mas majoritário no coração do povo brasileiro.

Sou candidato a deputado federal para lutar pelo desenvolvimento integral do Brasil, nas áreas econômica, social, política, ambiental e cultural. Quero também contribuir para reduzir a pobreza e ampliar a classe média, por meio de uma política tributária progressiva, fazendo com que os mais ricos paguem impostos que historicamente não pagaram.

Outra prioridade é uma revolução educacional, garantindo que os jovens tenham acesso a uma educação básica de alta qualidade e também à educação tecnológica ou universitária.

Se conseguirmos isso, o Brasil será outro. E acredito que Lula é a pessoa em melhores condições para liderar esse processo.

Caio Pacheco: O senhor tocou em um ponto importante, que é o atual Congresso Nacional. Como essa situação pode ser revertida a partir das eleições deste ano?

João Batista Mares Guia: É um desafio enorme. Precisamos enfrentar a extrema-direita, que já seria um desafio colossal, mas também temos o Centrão, que é muito flexível politicamente. Ele sabe que, para governar, é necessário formar maioria parlamentar e, por isso, ora se aproxima da extrema-direita, ora do governo.

Não podemos confundir o Centrão com a extrema-direita ideológica, que é antidemocrática. O Centrão atua de acordo com seus interesses e, muitas vezes, acaba se aliando a setores autoritários.

Mas há também um problema no campo progressista. O progressismo tem grandes ideias e tradições, mas está, em muitos casos, preso voluntariamente às emendas parlamentares.

Na minha avaliação, as emendas parlamentares representam uma corrosão da vida político-eleitoral, da representação e da própria soberania popular. Precisamos mudar essa lógica e pensar no bem comum.

Por isso, defendo o fim das emendas parlamentares e uma reforma política. Para mim, a reforma política é a mãe de todas as reformas.

Precisamos discutir mudanças como o voto distrital misto e o aumento da cláusula de barreira, para reduzir a quantidade de partidos e fortalecer as legendas programáticas.

Mesmo sendo minoria no Congresso, é possível fazer diferença. Quando fui parlamentar e era o único deputado do PT, muitas vezes conseguíamos formar maioria porque pautávamos os debates, os temas e a agenda política.
Se tivermos parlamentares progressistas e democratas de diferentes partidos trabalhando juntos, podemos levar grandes temas para a sociedade e mobilizar a população.

Também defendo uma segunda etapa da reforma tributária, com maior tributação sobre os mais ricos. É necessário discutir a tributação de remessas de lucros, dividendos, grandes fortunas e grandes heranças, aumentando a arrecadação para que o Estado possa investir em educação, tecnologia, infraestrutura, reforma agrária, cultura e desenvolvimento.

Precisamos transformar nossas riquezas naturais em produção industrial no Brasil, trazendo tecnologia para o país, além de fortalecer as Forças Armadas e a política de defesa nacional.

O legado que Lula pode deixar é uma democracia mais forte, mais prosperidade, menos desigualdade e a emancipação dos pobres da pobreza, permitindo que eles se tornem classe média.

Caio Pacheco: O senhor é muito claro e enfático nas propostas. O que espera do povo mineiro nesta eleição? O que os eleitores podem fazer para contribuir para essa mudança?

João Batista Mares Guia: O povo mineiro, assim como o povo brasileiro, tem sabedoria. Às vezes, o eleitor se decepciona com quem está no poder e experimenta outras alternativas. Isso também faz parte da democracia.
Minas Gerais já elegeu grandes presidentes, como Juscelino Kubitschek, e teve papel importante na eleição de Tancredo Neves, que foi escolhido presidente no Colégio Eleitoral, mas morreu antes de assumir.

Belo Horizonte também já elegeu diversos prefeitos de perfil progressista, como Patrus Ananias, Célio de Castro, Fernando Pimentel, além de outros nomes que tiveram apoio de setores progressistas.

O povo mineiro, como o brasileiro, não quer autoritarismo nem extremismo. Quer democracia.

Por isso, acredito que, em Minas Gerais, o caminho hoje é Patrus Ananias para governador, Marília Campos para senadora e Lula para presidente da República.

Se possível, queremos que Lula tenha uma grande vitória em Minas Gerais e que possamos avançar na construção de uma democracia cada vez mais forte.

No fim, o que defendemos é democracia, igualdade, liberdade e fraternidade. Não sou contra os empresários e não sou contra a iniciativa privada. Também não defendo o fim do capitalismo. Defendo uma economia mais justa, com política tributária redistributiva e justiça social.

É dessa forma que podemos avançar para uma verdadeira revolução educacional, reduzir as desigualdades e construir um Brasil melhor.