
por Geraldo Magela Pontes
Cazuza que me perdoe, mas eu não quero nenhuma ideologia para viver.
Nos anos 80, ter uma ideologia parecia uma busca legítima por sentido. Hoje, virou motivo para nos destruirmos. Lados, religiões e disputas eleitorais nos dividem, alimentando prisões invisíveis que só servem para nos afastar e ensinar a odiar. E o pior de tudo: as crianças são como esponjas. Desde cedo, começam a absorver e a reproduzir esse preconceito, aprendendo a odiar sem sequer saber o porquê de odiar. Criamos muros e certezas inabaláveis do lado de fora, até que a vida balança e nos cobra a verdade no corredor de uma emergência.
É na dor que a ilusão da divisão se desfaz. O único lugar onde a humanidade finalmente se acalma e se reconhece é dentro de um hospital. Da porta para dentro, a política e os rótulos caem por terra: o médico de esquerda salva o paciente de direita; o conservador é acolhido pelo progressista; o homofóbico é salvo pelas mãos dedicadas de um homossexual. Ali, não há palanque nem debate público — há apenas o sopro da vida tentando resistir. O sangue tem exatamente a mesma cor e a única prioridade é sobreviver. Na hora do socorro, quem te estende a mão e salva a sua vida pode ser justamente quem você criticava do lado de fora.
Se a dor nos une e nos ensina sem preconceito enquanto lutamos para respirar, o destino final escancara de vez essa igualdade. Terminamos todos debaixo da mesma terra ou transformados nas mesmas cinzas. Quando a jornada se encerra, os cargos, os partidos, as vaidades e as certezas viram pó.
Se nos salvamos na fragilidade e nos igualamos na finitude, viver alimentando o ódio por ideias é apenas uma trágica perda de tempo. A vida de verdade é grande demais para caber em rótulos. E quando tudo passa, percebemos que todas as nossas guerras, rivalidades e barulhos do cotidiano se dissolvem no mesmo destino: no final, tudo termina em um grande silêncio e em um imenso perdão.





