por Amauri Artimos (@amauriartimos)
Promotor de Justiça aposentado, Vice-presidente do CMDCA/SL e presidente do Coral Dom Silvério

Em “A Crônica do Dia”, lida, pontualmente, às 11h30, na Rádio Cultura de Sete Lagoas, Wilson Tanure apresentou a crônica de Jovelino Lanza sobre a Banda União dos Artistas. O saudoso escritor é mais um dos inúmeros admiradores desse grupo que até hoje emociona o público sete-lagoano. Para a satisfação de nossos leitores, relembro o programa exibido há 77 anos (13-07-1949):
“Quando eu era rapazinho, isso há seguramente trinta saudosos anos, e frequentava os bailes do Ideal Esporte Clube, ia à Festa do Escorrega, ao Circo Savala e às touradas do José Serrano, sempre encontrava a banda de música “União dos Artistas”, do garboso Paizim. Dentre os músicos, destacavam-se, por suas figuras interessantes, João Pequim, Barroso, Gabriel e tantos outros. Como elemento principal, víamos José Xavier, alto, elegante, compenetrado de sua arte e demonstrando, pelo seu semblante alegre e agradável, a satisfação de que ficava possuído de estar proporcionando bem-estar aos presentes, com as notas musicais do seu inseparável amigo: o contrabaixo. Tocava a noite inteira com a mesma boa vontade do início e atendia a qualquer pedido de determinada música. Eu mesmo fui, por inúmeras vezes, contemplado com a sua gentileza. Naquele tempo, estávamos na época do “Fox-Trot” Argentino. Casado, tive que encarar a vida mais objetivamente e, muito razoavelmente, afastei-me, pelo menos em parte, desse ambiente, apesar de bom e necessário. Assim, perdi de vista nossa banda de música “União dos Artistas”. De quando em vez ouvia: Morreu Paizim; Morreu Barroso; Morreu João Pequim; Morreu Gabriel. Tudo isso recebia com pesar, mas como coisa natural, pois não podemos fugir a essa contingência.
‘Agora, dia nove deste, fui, como tantos outros, assistir à inauguração do Vitória Hotel. Estava o salão nobre repleto de gente, quando o Deputado Dr. Márcio Paulino, abrindo a solenidade, fez um circunstanciado e belo relatório das atividades da Sociedade construtora do prédio, da qual é ele seu ilustre presidente. Com a palavra, o Professor Teixeira da Costa fez um belíssimo discurso que continha soberbos ensinamentos. Isso não nos surpreendeu: é ele Professor com “P” maiúsculo, estudioso e culto. Depois, falou o nosso Dr. René Guimarães. D’esse não devemos falar, pois que sabemos fácil é a sua palavra e eletriza as massas. Por fim, falou o Milito, eterno enamorado de Sete Lagoas. O seu discurso foi mais uma bela poesia cheia de encantamentos. Todos eles foram fartos em concitar ao povo que trabalhasse no sentido de eternizar nossa época, promovendo tudo pelo bem-estar dos vindouros e que isso seria realidade, se tudo fosse feito com abnegação e desprendimento, e focalizaram para exemplo os grandes homens da história e suas obras. Terminados os discursos, a banda de música “União dos Artistas”, que estava próxima, executou uma peça do seu repertório. Chamada a minha atenção, vi com surpresa e ao mesmo tempo com alegria, José Xavier, com o seu contrabaixo e coisa curiosa: o mesmo homem de outros tempos: simpático, acolhedor, gentil e mais ainda, não envelheceu propriamente. Dele me aproximei e dando-lhe um abraço amigo indaguei: José Xavier, há quantos anos você faz parte desta banda? E ele respondeu: Há quarenta e um anos, fui um dos seus fundadores. Quanta saudade me passou pela mente e, meditei: quantos lares hoje, felizes, existem e que devem seu início à música de José Xavier? Quanto prazer aos jovens pares já proporcionou José Xavier? Noites e mais noites, cheias de encantos e de alegria, José Xavier ofereceu à mocidade de Sete Lagoas, injetou na alma da gente as notas sonoras de sua maravilhosa e indispensável arte. Assim, José Xavier deve também ser citado nos discursos de todos os sete-lagoanos, como um abnegado, como um grande gênio, como um dos maiores benfeitores desta encantadora terra que, com sua arte estupenda, faz a tristeza ceder lugar à alegria. José Xavier, você é um exemplo de abnegação e de desprendimento, pois vem de geração em geração fazendo sentir a alma dos de Sete Lagoas, a beleza de viver. José Xavier, você é um sublime artista. Louvores a você, José Xavier, que há de viver eternamente em nossos corações.” Foto: Banda União dos Artistas, com José Xavier, na Praça Francisco Sales, em 15-08-1978. Comemorando 70 anos de história (Fonte: Retalhos do Passado).





