Bela Vista aposta na base, investe na estrutura e reafirma o compromisso de formar talentos.

Celso Martinelli
Ao completar 96 anos de história no dia 21 de abril de 2026, o Bela Vista Futebol Clube segue reafirmando seu papel como uma das instituições mais tradicionais do esporte em Sete Lagoas. Sob a presidência de Wagner Augusto de Oliveira — advogado, jornalista e dirigente em seu atual mandato — o clube vive um momento de reorganização, fortalecimento das categorias de base e planejamento para o futuro. Em entrevista, Wagner destaca conquistas, desafios e perspectivas da agremiação, que recentemente avançou em melhorias estruturais, como a nova iluminação do estádio, viabilizada por meio de parceria com a Credisete.

O Bela Vista celebra 96 anos. Qual a importância dessa trajetória para o futebol de Sete Lagoas?
Fundado em 21 de abril de 1930, o Bela Vista completa 96 anos de história, consolidando-se como um dos clubes mais tradicionais de Sete Lagoas. Ao longo de sua trajetória, teve papel fundamental no desenvolvimento do futebol local, contribuindo para a formação de atletas e para a promoção do esporte na cidade.
Quais são os principais títulos e conquistas do Bela Vista ao longo de sua história?
O Bela Vista acumulou conquistas importantes no cenário amador e regional, com destaque para os títulos municipais de 1973 e 1985, além do tricampeonato em 1990, 1991 e 1992. O clube sempre foi reconhecido pela competitividade e pela revelação de talentos.
Qual é o balanço desse período?
Destaco uma gestão marcada por desafios e avanços, com foco na reorganização administrativa, fortalecimento das categorias de base e esforços contínuos para recuperação e valorização do patrimônio.

Quais pessoas importantes na história do Bela Vista?
Ao longo de sua trajetória, o Bela Vista contou com a contribuição de diversos dirigentes que ajudaram a construir sua história. Entre os ex-presidentes, destacam-se: José Hilário do Reis, Tito Alves Costa, Pacífico Guimarães Costa, Ronaldo Pontes, Alcides Vieira, Caio Antônio Vasconcelos Reis, Herman Wilke Campos, Dilceu de Oliveira, Dóris Camargo, Divino Alves Padrão, Nilton Santos Gaspar, José Carlos da Silva e Wagner Augusto Oliveira.
Atualmente, qual é a situação patrimonial e financeira do clube?
O Bela Vista busca equilíbrio financeiro, com receitas provenientes principalmente de parcerias, eventos esportivos e apoio local. Apesar das limitações, a gestão trabalha para manter o clube ativo e sustentável, juntamente com pessoas abnegadas como o ex-presidente José Carlos da Silva – Neca – e Marcos Salatini, adotando medidas de contenção de despesas e buscando novas fontes de investimento.
Vale destacar que o clube está próximo de obter a certidão negativa de débitos junto aos órgãos públicos, o que deve contribuir significativamente para essa retomada.
Como está estruturado atualmente o time adulto?
A estrutura do futebol adulto segue em avaliação, com planejamento voltado à organização gradual e sustentável, alinhado às condições financeiras e estruturais do clube.
Existe a possibilidade de o Bela Vista voltar a disputar competições profissionais?
O retorno ao futebol profissional é um objetivo de longo prazo. A diretoria entende que esse passo exige investimentos consistentes, estrutura adequada e parcerias estratégicas.
O Bela Vista pode vir a se tornar uma SAF?
A possibilidade de transformação em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) pode ser discutida internamente, especialmente como alternativa para captação de investimentos, mas depende de análise criteriosa e alinhamento com a realidade do clube.
Como está hoje o trabalho nas categorias de base?
O Bela Vista mantém sua tradição na formação de atletas, com foco no desenvolvimento das categorias de base. A implantação de escolinhas, inclusive no período noturno — viabilizada pela nova iluminação do estádio — deve ampliar o alcance do projeto.
Como é avaliada a situação do entorno do estádio – com o buraco do Santa Luzia consolidado ao lado e ainda sem solução?
A diretoria acompanha com atenção questões que possam impactar o patrimônio do clube, buscando preservar sua estrutura e garantir condições adequadas para suas atividades.
Quais são as perspectivas para o futuro?
Os 96 anos reforçam o orgulho pela história construída e renova o compromisso com o futuro. A diretoria segue empenhada em fortalecer o clube, ampliar projetos esportivos e consolidar o Bela Vista como referência no futebol local.
- Quem é Wagner Augusto de Oliveira
Wagner Augusto de Oliveira é advogado, jornalista e atual presidente do Bela Vista Futebol Clube, tradicional equipe de Sete Lagoas. Está à frente do clube em seu mandato atual, com atuação voltada ao fortalecimento institucional, valorização do futebol local e desenvolvimento de projetos esportivos, especialmente nas categorias de base.
Pioneirismo: BV foi primeiro clube do Brasil a ter mulher no comando do futebol
por Filipe Felizardo
Popular na cidade, o Bela Vista tem um feito que poucos conhecem – e não estamos falando da histórica excursão pela Europa: foi o primeiro clube do Brasil a ter uma mulher como presidente, ainda nos anos 2000. A empresária Dóris Andrade esteve durante seis anos no comando, onde criou um projeto que incentivava os jovens da categoria de base a serem bons alunos na escola, além do futebol.

Ser presidente do ‘BV’ foi na verdade um pedido do filho Ivan, que juntamente com outros amigos veio para o clube jogar. “Ele disse ‘mãe, o Bela Vista precisa da sua ajuda’. E eu falei: qual ajuda? E ele ‘você tem que ser presidente’. Na hora eu falei ‘mas não entendo nada de futebol’”, comenta Dóris. Apesar disso, ela aceitou o desafio e com a união das famílias, seguiu em frente com foco na base. “Mesmo sendo um ambiente masculino, o que que nós fizemos? Convidamos as mães para ajudar; vários casais me ajudaram nessa jornada, nessa experiência”, completa.
Para que um garoto pudesse jogar na base do Bela Vista na época havia uma regra de ouro: tinha que ser um bom estudante, além de ser bom atleta. “E também, como havia crianças de poucas condições financeiras, nós dávamos a ‘misturinha da Pastoral’. Incentivávamos de diversas maneiras, mas a maior cobrança era que estivesse bem na escola, porque não adiantava nada ser bom de bola e ser ruim de escola”, completa. Ela e as famílias viajavam com os garotos pelas competições, se tornando um momento de colaboração e amizade.
E nesse tempo, o BV começou a ganhar projeção na base, até com atletas integrando outros clubes no futuro. Mas, para ela, o maior legado foi formar cidadãos: “Penso também, que mesmo não sabendo, eles aprenderam muita coisa de ética, de moral e de justiça também. São pilares importantes na sociedade, em qualquer ambiente, quer seja na escola, quer seja no esporte, na família. É importante adquirir esses princípios para a vida toda, traz transformação”, conta. “Hoje eu os vejo como jovens e pais profissionais com grande responsabilidade, acredito que foi muito bom a participação deles nesse momento que nós buscamos elevar. Não só o esporte, mas também o próprio ser humano”, completa Dóris.
Pioneirismo
O futebol há tempos vem perdendo a pecha de ser um ambiente totalmente masculino. Antes mesmo de figuras como a atual presidente do Palmeiras Leila Pereira ser destaque no meio, Dóris ‘abriu os caminhos’ para as mulheres comandarem clubes com o Bela Vista. E, curiosamente, ela só tomou conta do feito histórico anos após: “Eu fui a primeira mulher a ser presidente de fato e de direito. Um fato inédito e interessante, porque nem eu imaginava isso, né? Soubemos bem depois. É uma situação diferente, porque nós mulheres participávamos em diversos segmentos; e nunca me imaginei participando no segmento do futebol, mas valeu a pena”, relata.
Além das categorias de base, uma equipe de futebol feminino foi criada durante o período, mas as dificuldades não fizeram o projeto prosperar. Mas, para Dóris, o período foi um grande aprendizado em sua vida: “Engraçado que não havia diferença em ver uma mulher comandando um clube, mesmo sendo raro não havia uma diferença, porque nós fizemos desse momento um momento de família, um momento de colaboração, de amizade, um momento em que o esporte agregava, trazia responsabilidade e trazia também dedicação e disciplina”.
A saga europeia que virou reportagem especial na TV Globo
por Renato Alexandre
O Bela Vista Futebol Clube completou 96 anos e sua história é marcada por uma das maiores aventuras do futebol nacional. Em 1958, poucos meses depois do Brasil conquistar sua primeira Copa do Mundo, a equipe fez uma conturbada e desafiadora excussão pela Europa. A saga que durou 2 meses e teve impressionantes 24 jogos foi tema de uma reportagem especial do Globo Esporte, no dia 19 de fevereiro de 2019, tendo com personagem central o Seu Zico, na época com 88 anos e o único ex-atleta vivo que participou da aventura.

A reportagem de quase 8 minutos fez parte do quadro “Esquecidos” e foi apresentada pelo repórter Guto Rabelo. Foram entrevistados o presidente do Bela Vista, José Carlos da Silva – Neca, o diretor de futebol Luciano Mansur, o massagista Jurandir Passos e o torcedor Alberto Marques. A matéria fez uma análise da situação do time que iniciava um ousado projeto nas categorias de base para formar atletas profissionais. Ainda mostrou com detalhes o Estádio Santa Luzia, casa do BV, que é uma referência no bairro de mesmo nome.

Porém, a grande atração da reportagem foi Seu Zico que, durante várias abordagens, mostrou muita lucidez e não escondeu a emoção. O Bela Vista chegou a disputar cinco edições do Campeonato Mineiro da 1ª Divisão e a primeira delas foi exatamente em 1958, ano da excursão europeia. O Sr. Zico define: “O nosso time era bom”. No entanto, um contrato elaborado de maneira irresponsável e oportunista transformou a viagem em um grande desafio. “O empresário que acertou a excursão apresentou o Bela Vista como se fosse o campeão brasileiro da época”, explicou Luciano Mansur.
A mentira despertou grande interesse nos times europeus que queriam desafiar o representante do país que acabara de vencer a Copa e revelado Pelé para o mundo. “Chegamos para enfrentar o Real Madri que já era poderoso”, recordou o Seu Zico. A equipe espanhola era a principal do continente e vinha de três títulos seguidos do campeonato europeu. O Bela Vista fez bonito já que perdeu o jogo por 2 a 1, sendo o gol da vitória madrilenha saindo de pênalti aos 46 minutos do segundo tempo. Isso em um estádio Santiago Bernabeu com 80 mil torcedores como prova as imagens exibidas na reportagem. “A bola entraria e o Gaya tirou com a mão”, lembrou o Seu Zico ao explicar como foi o pênalti que decretou a derrota.
Além da Espanha, o Bela Vista jogou na Inglaterra, França, Alemanha, Alemanha Oriental, Suiça, Dinamarca e Holanda. A rotina desumana de 24 jogos em dois meses terminou com 19 derrotas, dois empates e três vitórias. O time fez 29 gols e sofreu 74 em gramados europeus. “Era muito pouco espaço de um jogo para outro”, explicou o Seu Zico.
A reportagem completa está disponível no YouTube no link: https://www.youtube.com/watch?v=mZnwUVZhUUk





