Por Izabela Maciel Lessa Valle, em homenagem à poetisa Judith Coelho Maciel

No ano passado, me envolvi muito em um projeto de trabalho, o Casa Cor Rio, uma mostra de arquitetura que propunha uma reflexão sobre o que gostaríamos de deixar como legado.
Voltamos ao passado para refletir sobre o futuro. E, inevitavelmente, minha mente voou para a Rua Professor Abeylard, 87… ou seria 78? (risos)
Era um dia de Natal, um dia sempre muito especial para mim. Nossos sapatos estavam na árvore, os presentes aguardados ansiosamente, mas as melhores memórias vieram dos momentos mais simples que passamos naquela casa. Cada um vindo de algum lugar do Brasil, mas nada se comparava a Carajás, no sul do Pará, como nós…
Como chegávamos antes, tínhamos alguns privilégios: jabuticabas e uvas guardadas somente para os ausentes e vários momentos de histórias no alpendre, nas cadeiras verdes de couro. O barulho do trem de ferro da minha infância ressoa até hoje na voz da minha querida avó.
Na cozinha mais incrível, repleta de amor e de aromas variados: da canela do mingau de milho verde à pimenta no “mexido” ao final do dia. Aprendi ali, com o calor das panelas e os crochês dos panos de prato, a ver carinho e dedicação nos mínimos detalhes, como na rosa esculpida na casca de tomate que sempre estava sobre o arroz.
O trabalho detalhado, cuidadosamente planejado e eficientemente executado era uma verdadeira lição de liderança. A nós, crianças, sobrava amor, bolinho de chuva, sorvete de pequi e muitas lembranças, mas principalmente muitas lições de vida.
Por ser a neta mais velha, apesar do peso deste título, acompanhei minha avó Judith em várias missas, terços nas casas das vizinhas, idas a salões de beleza, visitas ao nosso avô Pedro Maciel e também a um evento importante que aconteceu em um grande teatro.
Ela foi a grande homenageada. Fiquei muito admirada com a humildade com que recebeu esse reconhecimento e também com os inúmeros cumprimentos, sempre com o semblante sereno, sem demonstrar qualquer vaidade.
Soube outro dia que minha avó escrevia para o jornal, mas não usava o próprio nome. Ela assinava como Maria Alice e Verônica Mattos. Queria muito saber quem eram essas mulheres e que minha avó estivesse aqui hoje e pudesse nos explicar o porquê dessas escolhas, mas, principalmente, de onde vinha sua coragem e resiliência para nunca desistir de seus sonhos e projetos.
Seu livro “Se recordar fosse esquecer” esteve ao lado de uma máquina de escrever na estante do nosso espaço na Casa Cor, onde minha avó era a protagonista das minhas memórias. Minha avó Judith Maciel, contemporânea de Clarice Lispector e membro da Academia Feminina de Letras de Minas Gerais, é um testemunho de como seu legado pode atravessar gerações. Algumas pessoas que visitaram a mostra me perguntaram onde poderiam comprar seu livro! E foi assim que descobri que ele está à venda na internet. Quanto orgulho!
Esta foi a minha homenagem a esta mulher forte, além do seu tempo, cujos valores, inteligência, filantropia, fé e ética serão sempre minhas fontes de inspiração. Como disse Clarice Lispector: “E como uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.” Que este dia de hoje esteja sempre nas nossas memórias mais especiais. Feliz Natal! Feliz 2026!
Izabela Maciel Lessa Valle





