O bloqueio de mais de R$ 4,3 bilhões do orçamento do Ministério da Defesa promovido pelo governo Lula pode afetar diretamente os projetos de veículos blindados produzidos em Sete Lagoas para o Exército. A situação já é vista com preocupação pela IVECO Defense Vehicles (IDV), que não descarta ações drásticas caso a situação não se normalize.

A pasta foi a mais afetada pelo corte de verbas anunciado no final de maio; ao menos R$ 22 bilhões foram bloqueados de cinco ministérios, entre eles Educação, Saúde e Fazenda. A medida faz parte do arcabouço fiscal do governo federal, que veta gastos acima da inflação e fora do crescimento projetado pela arrecadação para evitar o descontrole da dívida pública. O déficit estimado das contas está em R$ 60,3 bilhões, muito próximo do limite da regra. Este “freio” usado pelo governo aconteceu por conta do aumento do chamados gastos obrigatórios, que são inadiáveis: é previsto o pagamento de R$ 14,1 bi com o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e R$ 11,5 bi com as aposentadorias do INSS.
Com o bloqueio, dois projetos que renovam a frota do Exército podem paralisar, fato inédito até então. O principal deles é o Guarani, criado em 2005 e executado pela IDV em Sete Lagoas. São produzidos viaturas anfíbias blindadas com tração 6×6 ou 8×8, incorporando sistemas modernos de combate e servindo como posto de comando, porta-morteiro, ambulância e defesa antiaérea. Já são mais de 700 unidades produzidas e operados pelo Exército e estão previstos a entrega de mais 800. Em março deste ano, foi inaugurada a linha de produção do Guaicurus, outra viatura blindada que permite agilidade no combate – são 420 modelos em produção até o ano de 2033, e ao menos 15 para ser entregue ainda em 2026.
Indústria vê momento com preocupação
Com os recursos minguados seguindo na contramão do resto do mundo, a indústria bélica brasileira teme o impacto e projeta ajustes que podem levar ao desemprego. Para o SETE DIAS, a IDV relatou a “preocupação e estranheza” da ação do governo federal: “Tal ação acarreta impactos socioeconômicos relevantes em nossa empresa, fornecedores e em toda Base Industrial de Defesa do Brasil. A previsibilidade orçamentária é fundamental para a sustentabilidade do setor e esperamos que esta situação se normalize no curto prazo, evitando assim que a empresa e os fornecedores sejam obrigados a realizar ajustes nos contratos de trabalho”, relata, em nota.
A mídia especializada aponta que além dos projetos, o corte pode afetar custos básicos como combustível e munições para as Forças Armadas – o contingenciamento não é novo para os militares, mas a atual decisão dificulta ainda mais o andamento de projetos operacionais e administrativos. O site DefesaNet publicou há dias uma carta aberta ao ministro da Defesa José Múcio Monteiro, criticando a ação, que evidenciaria a incapacidade do país de proteger território, população e recursos estratégicos.
O SETE DIAS procurou o Ministério da Defesa acerca do corte que poderia afetar o Projeto Guarani, realizado em Sete Lagoas. A pasta comentou que o Exército era o responsável pelas informações; até a publicação desta matéria, a força armada ainda não se manifestou.





