por Filipe Felizardo
A famosa frase “filho de peixe, peixinho é” é seguida em muitas famílias setelagoanas: as crias seguem os criadores formando uma tradição. Paulinho do Boi, ator, produtor cultural e folclorista setelagoano também vive a experiência de ter companhia das filhas nos palcos e na arte. A infância de Clarice e Larissa de Souza foi acompanhar os ensaios do Bloco Boi da Manta, nos ensaios e nas histórias que o pai contava todas as noites. Agora, a família segue unida atuando e produzindo cultura na Carroça Teatral e a Associação Cultural Boi da Manta.

SETE DIAS: Como suas filhas chegaram até você querendo seguir o caminho da arte?
Paulinho do Boi: No início dos anos 2000, eu fui surpreendido pelo exercício da paternidade. Trabalhava no SETE DIAS e, ao mesmo tempo, encontrava nos palcos um espaço de realização pessoal. Produzia projetos culturais e recebia crianças e adolescentes no quintal de casa para os ensaios do Bloco do Boi da Manta. Foi nesse período que entrei para o grupo de teatro Popularizô, dirigido pelo contador de histórias José Eustáquio Correia, o Zezinho.
Minhas filhas cresceram dentro desse ambiente. Elas me acompanhavam nos ensaios, assistiam às peças e ouviam histórias. Em casa, eu repetia com elas um ritual que vivi na infância: sentava ao lado da cama e contava histórias, como meu pai fazia com os doze filhos. Larissa, a mais velha, inventava sons e cantigas; Clarice acompanhava a irmã e mergulhava nas narrativas. Tudo começou como brincadeira.
Quando Larissa tinha 4 anos e Clarice apenas 2, comecei a levá-las para o palco. A mãe delas, Cláudia, flautista e grande incentivadora das meninas, ajudava a transformar aquele universo em afeto e imaginação. Em 2004, fomos convidados pela poetisa Marisa da Conceição Pereira para um Serão Poético. Contamos a história de João Jiló e cantamos O ABC do Preguiçoso, de Xangai. Aquele dia foi mágico. A partir dali nunca mais nos afastamos da arte. O que começou como parte da educação afetiva das meninas acabou se tornando um caminho profissional construído juntos.
SETE DIAS: Como é ter uma família artista, que projeta e vive cultura?
Paulinho do Boi: Ter uma família artista é viver a cultura no cotidiano. Eu acompanhei minhas filhas na infância, adolescência e juventude entre cortejos do Boi da Manta, peças de teatro e rodas de contação de histórias. A arte não foi apenas profissão; foi a maneira que encontramos de conviver, educar, celebrar e enfrentar a vida.
Hoje, Cláudia é produtora cultural e psicóloga. Juntos com nossas filhas e ex-alunos criamos o grupo Carroça Teatral e mantemos o Contadores de Histórias Boi da Manta. Com o apoio dos pais dos alunos nasceu também a Associação Cultural Boi da Manta, que se tornou um espaço de formação, memória e resistência cultural em Sete Lagoas.
Viver de arte no Brasil é um desafio, mas também um privilégio quando se constrói uma rede de afeto e propósito. Eu me sinto realizado e feliz por ter transformado a paternidade em uma experiência de criação coletiva. Todos os dias, quando acordo, percebo que meu lugar no mundo passa pela arte, pela cultura popular e pela família que construí ao redor delas.

SETE DIAS: Clarice, como surgiu o interesse de seguir no caminho da arte? O seu pai foi um espelho de inspiração?
Clarice: Certamente, o meu pai foi um espelho sim. Acredito que o ambiente da arte em casa foi de suma importância, mas também percebi – ao longo do tempo – que minha vontade vem de interesses próprios. Digamos que o interesse e o ambiente proporcionaram a vida artística…
SETE DIAS: Como é trabalhar e atuar ao lado dele? Há rituais em comum que fazem antes de entrar aos palcos, conte um pouco dessa vivência?
Clarice: O nosso dia-a-dia é como o de todo artista brasileiro: cheio de altos e baixos. Mas atuar ao lado dele me mata de orgulho. A família é como uma equipe, a gente vai se ajudando durante todo o processo. Não temos rituais em comum que fazemos antes de entrar no palco, pois varia de espetáculo para espetáculo, mas sempre gritamos juntos “merda” que é como um “boa-sorte” no teatro.
SETE DIAS: A arte feita aqui em Sete Lagoas está ganhando diversos lugares, em apresentações que produzem e atuam em festivais e projetos. Vocês acreditam que estando em família essa união faz também com que cheguem longe?
Clarice: Absolutamente. Eu brinco que se meu pai não trabalhasse comigo, não nos veríamos com tanta frequência assim. E uma família de artistas sempre consegue caminhar mais longe. Juntos é sempre melhor do que sozinho…





