Em cada banca, há mais do que produtos. Há trabalho, há tradição — e há uma cidade inteira pulsando ali
por Celso Martinelli

Há um ritmo próprio em Sete Lagoas. Ele nasce cedo, no frescor das hortaliças colhidas no dia, e segue noite adentro, entre luzes, música e mesas cheias. Esse ritmo tem endereço certo: as feiras livres, que transformam a cidade em um grande espaço de convivência, trabalho e identidade.
De quinta a domingo, 12 feiras ativas movimentam bairros inteiros, atraindo cerca de 25 mil visitantes por semana e reunindo aproximadamente 500 trabalhadores. É a economia local pulsando com a força da agricultura familiar, que abastece boa parte das bancas com produtos cultivados nas hortas comunitárias ou nos quintais dos próprios feirantes.
“As feiras são a alma da cidade. Elas representam não só a geração de renda, mas a valorização do produtor local e o fortalecimento das relações humanas. É onde a economia gira, mas também onde a cidade se encontra”, destaca Ozanam Júnior, Gerente de Indústria, Comércio, Serviços e Apoio ao Empreendedorismo da Prefeitura de Sete Lagoas.
Se durante o dia as feiras são sinônimo de saúde, cor e alimento fresco, à noite elas ganham outro significado. Embora sem a presença marcante do hortifruti, os espaços se transformam em verdadeiros pontos de encontro: cerveja gelada, caldos fumegantes, costela com mandioca, música ao vivo e crianças brincando. É ali que começa o fim de semana de muita gente, em um ambiente familiar, acolhedor e tipicamente mineiro.
Entre todas, algumas já fazem parte da memória afetiva da cidade. A Feira da Boa Vista, que completou 40 anos em 2026, é um símbolo dessa tradição. Realizada aos domingos na orla da lagoa, reúne cerca de 150 feirantes e chega a receber entre 7 e 10 mil pessoas em um único dia.
Não muito distante dali, a Feira da Nova Cidade, com 42 anos de história, mantém o mesmo vigor: cerca de 160 feirantes e um público que varia entre 5 e 7 mil pessoas, com um diferencial curioso — um setor de bazar popular que mistura roupas, utensílios e oportunidades em um verdadeiro “topa-tudo” a céu aberto.
No coração da cidade, a Feirinha do Centro, realizada às sextas e sábados à noite na Praça Dom Carmelo Mota, reúne cerca de 90 feirantes e atrai milhares de pessoas em busca de gastronomia, artesanato e cultura. Ali, o clima é de encontro, com música, luzes e sabores que traduzem o melhor da cidade.
“Desde 2025 três novas feiras foram implantadas: Itapuã II, Catavento e no bairro Olinto Alvim. A chegada dessas feiras amplia o acesso, descentraliza oportunidades e fortalece ainda mais a economia local”, completou Ozanam.
Mais do que espaços de compra e venda, as feiras de Sete Lagoas são pontos de encontro. São lugares onde o produtor conhece o cliente, onde o alimento tem origem e história, e onde o tempo desacelera para caber em uma conversa, um sorriso ou um prato compartilhado.
NOVIDADE NO PARQUE JK
O Parque de Exposições JK, em Sete Lagoas, passou a receber todos os domingos, das 9h às 15h, o projeto “Domingo no Parque”, iniciativa criada pelo Sindicato Rural para reunir lazer, gastronomia, música e valorização dos produtores locais.
O evento conta com feira de produtores rurais, opções de alimentação, atrações para crianças e música ao vivo, transformando o espaço em um ponto de encontro para famílias da cidade e região.
Família de Sete Lagoas se une para trabalhar nas feiras da cidade
“A gente prospera no caos”: esta foi a fala de Cristina Silva, professora da rede estadual de ensino há quase 30 anos que apostou em um sonho antigo numa possibilidade de renda extra e com isso, aprender mais sobre empreendedorismo. Ela e a filha Stephani atuam em feiras livres de Sete Lagoas durante os finais de semana e afirmam: não se veem longe da área tão cedo.

Cristina já alimentava a vontade de ter um ponto na tradicional Feirinha do Centro: há cerca de três anos foram abertas inscrições para novos permissionários, mas como a demanda era alta, ficou em lista de espera. Pouco tempo depois, surgiu uma nova oportunidade, desta vez no Montreal, que retornava após um hiato causado pela Covid-19. Com uma semana já estava com sua barraca vendendo arroz temperado e feijão tropeiro. “Eu sempre tive vontade de ter um negócio. Surgiu a oportunidade, e eu pensei: ‘o não eu já tenho’. Você quer saber de alguma coisa? Vambora!”, disse, convicta que de uma escolha que não se arrepende. Stephani, que já vendia alimentos nas ruas, passou a ajudar a mãe e pouco tempo depois montou seu próprio negócio, de macarrão.
No início deste ano, a família recebeu a permissão de montar um ponto na feira do Centro, comercializando feijoada às sextas e sábados. Em uma sociedade, Cristina, seu esposo, filhas e a irmã se desdobram para estar, semanalmente, em dois lugares ofertando os produtos para uma clientela que não para de crescer. O SETE DIAS acompanhou um pouco da rotina e fez uma entrevista com elas.
SETE DIAS: Como surgiu este sonho em ser feirante?
Cristina Silva: Quando eu pensei em montar alguma coisa, eu vi o anúncio no site da prefeitura, e não tinha a do Centro, mas aí me informaram que eu tinha que ir lá fazer a inscrição. Fiquei na esperança, mas na Feira do Centro levou quase três anos [para ser chamada]. Aí, nesse intervalo, fiz a inscrição para o Montreal, com uma semana me chamaram. E fomos na cara e coragem e desde o início o meu produto já deslanchou rapidamente.
SETE DIAS: Cristina, você é professora de formação. Porquê você buscou trabalhar em feira?
Cristina: Eu acho que a feira surgiu como uma oportunidade para empreender. Porque você começa a ter uma visão de negócio. Às vezes, você se lança em um empreendimento maior, mas você não sabe o gasto que tem por trás.
A feira foi o início da minha visão de empreendedorismo, na verdade. E empreender para o lado da comida. Porque na minha família, as minhas irmãs cozinham bem.
Stephani Silva: No meu caso eu já fazia empreendedorismo antes da minha mãe, em 2016. Eu iniciei vendendo bolo de pote. Depois, fui para o amendoim e biscoito de doce de leite. Mas chegar a ter um empreendimento em uma larga escala, para mim, aos 26 anos, foi mais orientação da minha mãe. Ela chegou em mim e falou assim: “você sabe mexer. Tenta. Você vai estar perto de mim, da sua tia, seu pai, sua irmã. A gente vai te ajudar”
E aí, eu iniciei sete meses depois dela [na feira do Montreal]. E foi uma batalha. Eu virava a minha mãe muitas vezes e falava assim: “eu vou sair, vou ver se eu arrumo um trabalho”. Porque foi muito complicado eu começar a ter uma clientela; tinha dia que eu vendia apenas um macarrão. Mas, graças a Deus, ela continuou me insistindo para eu continuar.
Não me vejo largando lá tão cedo. Mesmo eu terminando a faculdade, eu acho que ainda vou continuar mexendo por lá.
SETE DIAS: Hoje vocês possuem duas barracas, de feijoada no Centro e arroz temperado com tropeiro no Montreal. Como que é essa organização?
Cristina: Na sexta, é tranquilo, porque todo mundo da família vai para ajudar na barraca do Centro. Agora o sábado é complicado. Eu e minha irmã combinamos qual quer ficar na Feirinha. Hoje é sábado, então a equipe se divide. Então, tudo já tá pronto com as caixas e a comida. A gente pega o meu carro, leva fogão e comida para o Centro. A barraca lá está montada, aí minha irmã, que é sócia, já tá lá.
Stephani: E enquanto isso, o outro carro, eu e o meu cunhado, vamos pro Montreal, começa a descarregar e fazer a montagem das barracas. Pra quando a minha mãe levar as comidas, a barraca já está montada pra poder começar a abertura da feira.
SETE DIAS: Nesse ‘prosperar no caos’, graças ao trabalho você consegue pagar um veículo novo, né?
Cristina: A feira tem que me gerar aquilo para pagar, porque senão eu mexo no meu orçamento particular. Esse dinheiro serve pro carro e algumas outras coisas que eu vou comprando no longo do mês. Cada semana, minha irmã e eu dividimos o lucro e deixa um caixa. Eu até não falo que ele é o meu ganha-pão, porque o maior valor vem [do trabalho] no Estado, né? Agora, é uma renda que me ajuda bastante. Porque se eu fosse pagar o carro com a renda de professora, eu comprometeria uma boa parte desse dinheiro.
No caso da Stephani, como a faculdade dela é integral, ela não tem essa renda.
Stephani: É, agora na faculdade eu precisei de computador novo, processador, software. Eu estou indo agora pra Viçosa e pro Recife para apresentar trabalhos; eu vou usar o dinheiro da feira. Então, ela é literalmente o meu ganha-pão. Sem a feira, eu ia ficar muito mais dependente da minha mãe e ela, por consequência, muito mais apertada em relação às outras contas do nosso dia-a-dia.
Cristina: Eu tive muito medo de começar algo porque envolve dinheiro e é um custo que você tem até que aquilo começa a dar lucro. Mas, igual a minha colega falou comigo, ‘o não você já tem, corre atrás’. Você tem que tentar pra depois pensar ‘não deu certo, mas eu tentei’. Às vezes a gente tem que dar uma arriscada. E aí, nessa arriscada, graças a Deus, deu certo, né?
AS FEIRAS DE SETE LAGOAS
Tradicionais e de grande público
• Boa Vista – Orla da Lagoa da Boa Vista | Domingo, 6h às 15h
A mais antiga da cidade, com 40 anos (em 2026), cerca de 150 feirantes e público entre 7 e 10 mil pessoas. Oferece hortifruti completo, gastronomia variada, artesanato, música ao vivo e entretenimento.

• Nova Cidade – Av. Prefeito Alberto Moura | Domingo, 6h às 15h
Com 42 anos, reúne cerca de 160 feirantes e público de 5 a 7 mil pessoas. Destaque para o setor de bazar popular com roupas, utensílios e eletrodomésticos.
• Centro / Feirinha – Praça Dom Carmelo Mota | Sexta e sábado, 18h às 23h30
Cerca de 90 feirantes e grande fluxo de público. Gastronomia (inclusive gourmet), artesanato, música e eventos culturais.

Feiras noturnas (quinta a sábado)
• JK – Praça do Bairro JK | Quinta, 18h às 23h30 | 15 feirantes
• Cidade de Deus – Av. 3, nº 459 | Sexta, 18h às 23h30 | 12 feirantes
• Montreal – Rua dos Manacás (Estádio Léia Dias) | Sábado, 18h às 23h30 | 14 feirantes
• Verde Vale – Av. Inah Louzada Marotta, 371 | Sábado, 18h às 23h30 | 15 feirantes
• Itapuã II – Rua Patativa (em frente à Escola Dr. Enísio Viana)
Sábado, 19h às 23h30 | 10 feirantes
Todas com gastronomia variada (caldos, churrasco, pastel), bebidas, doces, artesanato, música ao vivo e espaço para famílias.
Feiras com programação mista e de apoio à comunidade
• Várzea – Praça do Escorrega
Quinta, 18h às 23h30 e domingo, 6h às 15h | 15 feirantes
À noite: lazer e gastronomia. Aos domingos: hortifruti, carnes, padaria, artesanato e música.

• Olinto Alvim – Praça Tijão (Rua Santa Juliana)
Sexta, 18h às 23h30 e domingo, 6h às 15h
Segue o mesmo modelo, unindo convivência noturna e feira tradicional diurna.
• Catavento – MG-238, Km 24 (Rua Primavera)
Sábado, 16h às 22h | 10 feirantes
• Santa Maria – Av. Tonico Reis, 464 (ao lado da UPA Juvenal)
Domingo, 7h às 15h | 7 feirantes
Oferece hortifruti, refeições e tira-gostos, atendendo especialmente moradores e acompanhantes da unidade de saúde.
Segue o mesmo modelo, unindo convivência noturna e feira tradicional diurna.
Feiras mensais e especiais
• Empoaria – Rua Espinhosa, 12 (Padre Teodoro) | Todo 3º sábado, 19h às 23h30
• Feira de Artesanato da Boa Vista – Orla da Lagoa da Boa Vista | Todo 2º sábado, 15h às 21h
• Feira Amor de Mãe – Terminal Urbano | Bimestral (próxima na 1ª quinzena de maio), de segunda a sexta, 8h às 17h
















