Vergonha que mata: tabu impede prevenção do câncer de próstata

Urologista Dr. Gelbert Amorim aponta que homens se cuidam três vezes menos que as mulheres e alerta: diagnóstico precoce garante 90% de cura no câncer de próstata

Dr. Gelbert Amorim

Por Celso Martinelli

Mestre em Biomedicina, titular da Sociedade Brasileira de Urologia e coordenador da Residência em Urologia da Santa Casa de Belo Horizonte, o Dr. Gelbert Luiz Chamon do Carmo Amorim também atua como coordenador da Comissão de Residência Médica do Hospital Municipal de Sete Lagoas. Nesta entrevista, ele fala sobre os avanços no diagnóstico e tratamento do câncer de próstata, o impacto do Novembro Azul e a importância da prevenção para a saúde do homem.

SETE DIAS – Nos últimos anos, têm surgido novas tecnologias e métodos diagnósticos para o câncer de próstata? Quais são as principais inovações científicas que o senhor destacaria hoje no campo da urologia?

Dr. Gelbert – O diagnóstico do câncer de próstata tem avançado bastante. A principal inovação é a ressonância magnética multiparamétrica, que permite identificar com maior precisão as áreas suspeitas, tornando possível a realização de biópsias dirigidas, com muito mais segurança e assertividade.
Além disso, a cirurgia robótica é uma das grandes revoluções na urologia. Hoje, ela é amplamente utilizada e a nossa especialidade é a que mais faz uso dessa tecnologia no mundo.

SD – Há estudos apontando que a idade dos pacientes diagnosticados com câncer de próstata tem diminuído. O senhor percebe essa tendência na prática clínica? Quais fatores estão relacionados a isso?

Dr. Gelbert – Sim, é uma tendência que temos percebido. O diagnóstico precoce tem aumentado, e isso está diretamente relacionado a hábitos de vida ruins, como o tabagismo, consumo de álcool e má alimentação. Além disso, a genética familiar tem papel importante: homens com histórico de câncer de próstata na família e indivíduos da população negra apresentam maior risco de desenvolver a doença.

SD – O exame de toque retal ainda é visto com certo preconceito por muitos homens. O que tem sido feito para quebrar essa barreira cultural e estimular o diagnóstico precoce?

Dr. Gelbert – O preconceito ainda existe, mas campanhas de conscientização, como o Novembro Azul, têm ajudado muito a mudar essa realidade. Ainda assim, é importante lembrar que o homem se previne três vezes menos que as mulheres, o que mostra que ainda há um longo caminho de educação e conscientização pela frente.

SD – Além do toque retal, quais outros exames auxiliam na detecção precoce do câncer de próstata? O PSA ainda é o principal indicador?

Dr. Gelbert – Sim, o PSA (Antígeno Prostático Específico) e o toque retal continuam sendo indispensáveis. Quando há suspeitas, complementamos a investigação com ultrassonografia, ressonância magnética e biópsia dirigida. A combinação desses exames garante maior precisão no diagnóstico e permite tratar o câncer em estágios iniciais.

SD – Quando o câncer de próstata é descoberto em estágio inicial, quais são as chances de cura e como evoluíram os tratamentos nos últimos anos?

Dr. Gelbert – Quando diagnosticado precocemente, o câncer de próstata tem mais de 90% de chances de cura. As cirurgias minimamente invasivas evoluíram muito, reduzindo o tempo de recuperação e as complicações pós-operatórias. O avanço das técnicas robóticas e dos métodos de diagnóstico por imagem também tem contribuído para tratamentos mais eficazes e seguros.

SD – O tratamento pode afetar a qualidade de vida do paciente? Quais as abordagens modernas para minimizar efeitos como disfunção erétil e incontinência urinária?

Dr. Gelbert – As principais complicações são realmente a incontinência urinária e a disfunção erétil, mas as técnicas cirúrgicas modernas e minimamente invasivas reduziram bastante esses riscos. A experiência do cirurgião é um fator determinante nesse processo. É importante destacar que impotência e incontinência têm tratamento — o câncer, não, portanto a prevenção e o diagnóstico precoce são sempre o melhor caminho.

SD – Há diferença perceptível nos índices de diagnóstico e mortalidade entre as regiões do Brasil? Como está o cenário em Sete Lagoas e na região central de Minas Gerais?

Dr. Gelbert – Sim. Historicamente, o Nordeste brasileiro apresenta os piores índices de resolutividade em patologias oncológicas.
Em Minas Gerais, o INCA estima 78.100 novos casos de câncer por ano no triênio 2023–2025, o que reforça a alta demanda por serviços especializados.
Em Sete Lagoas, o atendimento oncológico melhorou nos últimos anos, mas ainda há desafios. Em 2017, havia cerca de 800 pacientes em tratamento no Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), e 70% eram residentes da cidade. A expansão e manutenção desses serviços, além do apoio de clínicas como a Oncoseven, são essenciais, já que o município ainda depende de um único hospital, o que limita a capacidade de atendimento.

SD – O senhor acredita que a campanha Novembro Azul tem surtido efeito prático? Os homens estão se cuidando mais?

Dr. Gelbert – Sim. Desde o início do Novembro Azul, temos percebido um aumento significativo na procura por exames e uma maior conscientização sobre o câncer de próstata e a saúde do homem. Ainda há resistência, mas o cenário é bem mais positivo do que há alguns anos.

SD – Além do câncer de próstata, que outras doenças masculinas merecem atenção durante o Novembro Azul?

Dr. Gelbert – É importante lembrar de outras condições urológicas, como a hiperplasia benigna da próstata, a prostatite, distúrbios hormonais e outras doenças relacionadas à saúde do homem. O Novembro Azul é um momento de reforçar a importância do cuidado integral, não apenas da prevenção do câncer.

SD – Para finalizar, qual é a principal mensagem que o senhor deixaria para os homens e suas famílias neste Novembro Azul?

Dr. Gelbert – Se cuidem. A prevenção é o melhor remédio. Saúde é uma só — e a vida também. É fundamental manter hábitos saudáveis, realizar exames regularmente e não deixar o medo ou o preconceito impedir o cuidado com o próprio corpo.