Colunista Convidada – A menininha da foto

por Élida Gontijo – Maio de 2026.

Arrumando minhas gavetas encontrei a foto de uma garotinha que prendeu minha atenção. Era uma foto típica dos alunos do fundamental I há alguns anos. Em toda casa os filhos tinham esta  foto da escola. 

A garotinha tinha um olhar tímido, um cabelo com corte não tão comum naquela época, pois as  meninas tinham cabelos compridos. Não podiam parecer meninos, que logicamente tinham cabelos cortados bem curtinhos. Uniforme bem típico saia com pregas e suspensório e camisa branca. Não consegui perceber muita alegria em seus olhos me pareceu um pouco introspectiva.

Parecia estar concentrada no retrato, pois não se falava em foto não, estou querendo dizer  que a foto não é tão antiga assim. Não podia mexer, atrapalhava o fotógrafo ou alguém da escola contratado para fotografar todos os alunos .Percebi um certo orgulho em estudar em uma escola tão bonita: Grupo Escolar Artur Bernardes, ao subir aquelas lindas escadas sem sentir uma princesa dos contos de fadas, afinal sonhar era o que ela mais fazia.

Bonecas nunca fizeram parte da sua vida, seres sem vida , não conversavam não interagiam melhor jogar bola, correr atrás dos irmãos. 

Ah concentrei horas e horas, vendo esta menina que cresceu tanto, afinal de contas nunca foi baixinha, pelo contrário. Quantas voltas deu sua vida, inúmeras pessoas passaram  por ela, umas permaneceram outras desapareceram. Sonhos e sonhos, quanta fantasia ela criou e desmanchou como bolha de sabão.

De uma menina mais calada, tímida que hoje ninguém acredita que existiu, a lagarta ficou para trás , virou borboleta, aprendeu a voar muito tempo depois de sair do casulo, precisou envelhecer, amadurecer para acreditar que era capaz de voar, as asas estavam  prontas. Como todo primeiro voo, não foi fácil, voar sozinha é coisa de quem está pronta. Hora de largar o conforto do casulo e buscar sua identidade.

Pobre menininha, guardou seus sonhos de andar de carruagem, ter o príncipe encantado, tudo foi para dentro do baú bem trancado. A vida lhe ofereceu a força, a determinação, coragem de prosseguir, trocando de asas, de cores, de flores. O crescimento veio sem que ela esperasse , foi tão rápido! A vida era naquele momento, ela abriu bem suas asas e planou , a princípio um pouco sem rumo, muitas vezes pedindo ajuda acreditando em alguns, decepcionando com muitos. 

Voa, menininha, voa, hoje és capaz de olhar o horizonte, enxergar cores, continuar sendo intensa no amor, no doar, mesmo que para isso troque as asas muitas vezes, arraste pelo chão, pare de voar. Ah guardei com carinho a foto, agradeci a menininha que me ensinou a ser esta mulher forte a não ter medo de voar.