
Poetisa e professora aposentada
Os pais haviam ido pra Europa. E os dois aqui com a gente. Tudo tranquilo, pois sempre estavam mesmo conosco e nenhum de nós poderia ter dúvidas com relação à falta dos pais, por poucos dias. Nada haveria de anormal, pois já eram bem grandinhos e, certamente, entenderiam perfeitamente, uma viagem assim, há muito programada – e discutida em família.
Os dias passando, de repente ela vem me mostrar um desenho que acabara de fazer. Achei muito bonito, elogiei, como sempre, e arrisquei:
– Lindo, Gabi! Quer fazer este desenho lá no muro da frente?
– Uai! Eu posso, vovó?
– Pode sim. Por que não?
– Como assim?!
– Amanhã a gente sai pra comprar as tintas.
– Beleza!
Foram horas de grande concentração, subindo na cadeira verde, colocando ali no muro, o que estava no papel. Dias, desenhando, retocando, mais tinta, novamente na papelaria… o irmão dando sugestões… alegria com pessoas que passavam, paravam, olhavam, elogiavam…
– Quantos anos você tem, garota?
– Nove!
– Que lindo!!!
E assim, ela, que já me parecia bem incomodada com a ausência dos pais, feliz agora, dava seu recado em um muro da casa dos avós.
Pais de volta, alegria, abraços, presentes, elogios…
***
Certo dia, encontramos na caixa dos correios:
“Seu desenho é tão lindo! Tornou o nosso bairro mais feliz! Obrigada. Essa flor é para você, com carinho.” (Escrito num guardanapo de papel, letra bonita, e o desenho de três flores, com duas folhas em cada uma).
Elogio que a Gabi recebeu pela sua pintura “no muro da casa da vovó!” Como ela se sentiu lisonjeada com esse pedacinho de papel – que traz palavras de uma doçura sem medida – um recadinho “de coração para coração!”
***
Sinceramente?… Eu gostaria muito de saber quem foi que fez tão feliz, a nossa netinha! E a mim também, por ter tido a ideia de ocupar seu tempo com coisas diferentes, ao invés de vê-la contando os dias e as horas que faltavam para os pais voltarem para casa.
– Seja você quem for – MUITO OBRIGADA!





