Em matéria publicada nesta quarta-feira (8) pelo jornal O Estado de São Paulo, os produtores de ferro-gusa foram até os Estados Unidos para retirar o produto na lista de exceções às novas tarifas de importação anunciadas pela administração do presidente Donald Trump. O setor argumenta que o material é uma matéria-prima estratégica para a siderurgia americana e que a taxação poderá comprometer tanto a competitividade das exportações brasileiras quanto a cadeia de suprimentos da indústria dos EUA.

De acordo com a publicação, os representantes participaram, nessa terça-feira (7), de audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington. O objetivo foi defender a exclusão do ferro-gusa das novas medidas tarifárias, cuja entrada em vigor está prevista para o próximo dia 15. Atualmente, o produto já enfrenta uma tarifa de 10%, que expira no dia 24.
A preocupação do setor é que a combinação da tarifa de 25%, aplicada com base na Seção 301 da legislação comercial americana, e de outros 12,5%, relacionados a alegações sobre falhas no combate ao trabalho forçado, resulte em uma tributação total de 37,5% sobre o ferro-gusa brasileiro. Segundo o Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer), esse nível de taxação poderá inviabilizar boa parte das exportações para o principal mercado consumidor do produto.
O principal argumento apresentado pelos fabricantes brasileiros é a elevada dependência dos Estados Unidos do fornecimento externo de ferro-gusa. De acordo com o empresário Frederico Henriques Lima e Silva, presidente da SDS Siderúrgica, atuante em Sete Lagoas, e representante do Sindifer nas audiências, aproximadamente 70% de todo o ferro-gusa importado pelos EUA tem origem no Brasil. A produção americana, por sua vez, representa menos de 6% da demanda do país.
Dados do Sindifer mostram que, em 2025, o Brasil exportou 4,06 milhões de toneladas de ferro-gusa, gerando receita de US$ 1,67 bilhão. Desse total, cerca de US$ 1,5 bilhão teve como destino empresas americanas. Minas Gerais respondeu por 70,6% dessas exportações, com vendas de US$ 1,18 bilhão. No ano anterior, a produção nacional alcançou 5,3 milhões de toneladas, sendo 3,7 milhões produzidas em Minas Gerais, principal polo da atividade no país.

Durante as audiências em Washington, representantes de siderúrgicas, fundições e empresas consumidoras americanas manifestaram apoio ao pedido brasileiro. Segundo Frederico Henriques, os participantes destacaram que a elevação das tarifas poderá aumentar os custos de produção, comprometer a competitividade da indústria siderúrgica americana e provocar interrupções na cadeia de suprimentos. “Mostramos a importância do produto brasileiro para a indústria americana, e fiquei surpreso e otimista com o apoio que recebemos de empresas e entidades dos EUA”, afirmou o empresário, em entrevista ao Estadão.
Além da relevância econômica, os produtores brasileiros ressaltam um diferencial ambiental do produto nacional. Grande parte do ferro-gusa exportado é produzida com carvão vegetal, processo que reduz significativamente as emissões de carbono em comparação ao uso de coque mineral, contribuindo para a descarbonização da cadeia global do aço. Apesar dessa vantagem, diversas negociações comerciais estão temporariamente suspensas enquanto o governo americano não define quais produtos serão contemplados com isenções.
Empresas brasileiras já sentem os efeitos da incerteza. A SDS Siderúrgica destina cerca de 40% da produção de sua unidade de Sete Lagoas para clientes americanos e entre 60% e 70% da produção da unidade de Divinópolis é exportada para os Estados Unidos. Ainda de acordo com o Sindifer, algumas siderúrgicas brasileiras dependem dos Estados Unidos para até 90% de suas vendas externas.
O setor avalia que a imposição das novas tarifas poderá reduzir drasticamente as exportações, afetar empregos e investimentos e provocar paralisação de parte das usinas brasileiras. Ao mesmo tempo, a medida também preocupa a indústria americana, que depende do fornecimento brasileiro para abastecer grandes grupos siderúrgicos.





