Proposta chega ao governo federal e prevê quatro corredores ferroviários em Minas Gerais, incluindo a ligação entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Em entrevista, Cristina Oliveira explica os benefícios para a mobilidade, o turismo e a economia regional e detalha os próximos passos das negociações com o Ministério dos Transportes

A proposta defendida pelo movimento prevê quatro corredores: Belo Horizonte–Sete Lagoas, Belo Horizonte–Divinópolis, Belo Horizonte–Ouro Preto e Belo Horizonte–Conselheiro Lafaiete
DA REDAÇÃO
A retomada do transporte ferroviário de passageiros em Minas Gerais voltou à pauta das discussões com o governo federal. O Movimento pela Volta do Trem de Passageiros da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e Entorno busca aproveitar o processo de renovação da concessão da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), cujo contrato de 30 anos, iniciado em 1996, chega ao fim em 2026, para defender a inclusão do transporte de passageiros na infraestrutura ferroviária. A concessão é administrada pela VLI.
A proposta defendida pelo movimento prevê quatro corredores: Belo Horizonte–Sete Lagoas, Belo Horizonte–Divinópolis, Belo Horizonte–Ouro Preto e Belo Horizonte–Conselheiro Lafaiete. Segundo a coordenação, os trajetos podem alcançar quase 30 municípios e beneficiar cerca de seis milhões de habitantes.
Para Sete Lagoas e seu entorno, a iniciativa representa a possibilidade de uma nova alternativa de deslocamento até a capital e outras cidades, além de oportunidades para fortalecer o turismo regional, facilitar o acesso ao trabalho e ao estudo e movimentar a economia. A região reúne atrativos naturais, culturais e históricos que poderiam ser mais acessíveis com a retomada do transporte ferroviário.
A mobilização também envolve a participação da sociedade civil e a articulação com representantes políticos e órgãos públicos. Em Sete Lagoas, Priscila Horta e Sandra Nogueira atuam como coordenadoras regionais do movimento, com a proposta de ampliar a participação da população e fortalecer a reivindicação local.
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De acordo com Cristina Oliveira, coordenadora-geral do movimento, as tratativas com o governo federal avançaram após uma reunião com o ministro dos Transportes, George Santoro, em setembro de 2026. Na ocasião, o grupo apresentou a proposta para os quatro corredores ferroviários.

Como desdobramento, foi criado um grupo de trabalho com representantes do governo federal e da sociedade civil. A reunião mais recente mencionada por Cristina ocorreu em 15 de outubro de 2026. Segundo ela, o próximo passo previsto é convidar o governo de Minas Gerais, por meio da área responsável pela infraestrutura, e a concessionária VLI para discutir um Acordo de Cooperação Técnica (ACT).
A intenção é definir as responsabilidades de cada parte: a participação federal na infraestrutura, a atuação do governo estadual na organização da operação e as condições de compartilhamento da malha ferroviária com o transporte de cargas. A assinatura do acordo e a realização de estudos técnicos ainda são etapas necessárias. Portanto, não há, neste momento, previsão confirmada para início do serviço, duração das viagens ou preço das passagens.
Na entrevista a seguir, Cristina detalha como surgiu o movimento, quais benefícios são esperados para Sete Lagoas e região e o que falta para que a proposta avance.
ENTREVISTA | CRISTINA OLIVEIRA

Coordenadora-geral do Movimento pela Volta do Trem de Passageiros da RMBH e Entorno
Como surgiu o movimento pela volta do trem de passageiros?
O movimento surgiu quando ficamos sabendo do vencimento das concessões de 30 anos, feitas em 1996. Vimos na renovação uma janela de oportunidade para defender que os contratos incluam a volta dos trens de passageiros.
Para retomar os trens que funcionavam em Belo Horizonte até a década de 1980, defendemos quatro trechos: Belo Horizonte a Divinópolis, Belo Horizonte a Sete Lagoas, Belo Horizonte a Ouro Preto e Belo Horizonte a Conselheiro Lafaiete. São corredores que podem abranger quase 30 cidades.
Qual seria o maior benefício para a população, especialmente em Sete Lagoas e região?
O maior benefício é facilitar a mobilidade pela Região Metropolitana. As pessoas circulam entre as cidades para trabalhar, estudar, se divertir e ter acesso ao lazer. Nossa proposta é defender o trem como transporte de massa, capaz de contribuir para esses deslocamentos.
Além disso, onde o trem passa, há potencial de desenvolvimento. O serviço também pode beneficiar o turismo regional, facilitando as visitas às cidades, às festas locais, aos eventos culturais e religiosos e às áreas de riqueza natural.
Já é possível saber a velocidade do trem, o tempo de viagem e o valor da passagem?
Ainda não. É necessário fazer o projeto técnico. O trem circulava anteriormente a cerca de 60 km/h, mas defendemos obras de infraestrutura, principalmente a retificação de trechos com muitas curvas, para permitir maior velocidade.
Nossa proposta é que a velocidade seja, pelo menos, equivalente à dos ônibus, em torno de 80 km/h. Não estamos falando de trem-bala, mas de um serviço regional eficiente.
O tempo de viagem e o preço da passagem também dependem dos estudos técnicos e dos custos da operação. É importante destacar que passagens de transporte de massa ferroviário podem contar com subsídios, mas ainda não é possível dizer qual seria o modelo adotado.
Quanto custaria o projeto e quem seria responsável pelos investimentos?
O custo será definido pelo projeto técnico. Será necessário avaliar a recuperação ou construção de estações, a retificação de trechos, os pátios de manobra e outras intervenções para permitir que trens de passageiros compartilhem a infraestrutura com os trens de carga.
Na proposta que defendemos, o governo federal teria responsabilidade sobre a infraestrutura ferroviária, enquanto o governo estadual coordenaria a operação de passageiros. O estado poderia, posteriormente, realizar uma licitação ou outro procedimento para selecionar uma empresa operadora.
Por que o trem de passageiros foi desativado e o que falta para retomar o serviço?
Não temos uma informação oficial que explique por que o transporte foi desativado. Não seria correto especular sobre isso. Para retomar o serviço, precisamos avançar nas negociações entre o governo federal, o governo estadual e a concessionária, além de planejar as intervenções necessárias. A inclusão de Minas Gerais nas discussões sobre a retomada dos trens regionais é um avanço, mas ainda precisamos transformar essa possibilidade em planejamento e medidas concretas.
Em que estágio estão as negociações com o governo federal?
Estamos há cerca de dois anos dialogando com o governo federal. No início, precisávamos compreender quais órgãos eram responsáveis pelos trens regionais e quais tratavam dos sistemas metroviários. Agora, começamos a entrar numa etapa mais formal das tratativas.
Em setembro, apresentamos ao ministro George Santoro a proposta dos quatro corredores, que podem beneficiar quase 30 cidades e cerca de seis milhões de habitantes. Depois disso, o ministro determinou a criação de um grupo de trabalho com representantes do governo federal e da sociedade civil.
A reunião mais recente ocorreu em 15 de outubro. Nela, foi apresentada a perspectiva de convidar representantes do governo de Minas Gerais e da VLI para construir um Acordo de Cooperação Técnica. Esse instrumento deverá estabelecer o papel de cada parte na parceria.
A concessionária precisa colaborar para viabilizar o compartilhamento da linha com os trens de passageiros, enquanto o governo estadual deverá organizar a operação. Ainda há etapas a cumprir, mas consideramos que a abertura desse diálogo é importante para o avanço da proposta.
Qual deverá ser o primeiro trecho a receber investimentos?
Nossa expectativa é que a ligação entre Belo Horizonte, Sete Lagoas e Divinópolis esteja entre as primeiras a avançar. Os estudos que apresentamos ao governo federal apontam potencial de viabilidade econômica para esse corredor.
É importante, porém, distinguir a expectativa do movimento de uma decisão oficial: a definição do trecho prioritário, dos investimentos e do cronograma depende das próximas etapas técnicas e institucionais.
Como participar do movimento
A mobilização depende também da participação da população. Em Sete Lagoas, Priscila Horta e Sandra Nogueira são as referências regionais do movimento. A comunidade pode acompanhar as publicações, compartilhar informações, participar dos grupos de mobilização e ajudar a promover atividades locais em defesa da retomada do transporte ferroviário de passageiros. O instagram é o: @voltatremdepassageiros





