Retrovisor

23/08/21 - 08:14

Élida Gontijo

Sou uma avis rara, em pleno século XXI não sei dirigir. Quando falo para alguém que não me conhece, normalmente tenho que responder um interrogatório imenso, as pessoas não conseguem entender. Perguntam se tenho medo, não tenho, se sofri algum trauma, nenhum, de tantas perguntas acabei partindo para a terapia e cheguei a simples conclusão que não quero aprender.

Simples assim, não quero deixar de contemplar todo material que enriquece meus textos, para isso preciso ter o olhar livre, sem focar em nada, deixar fluir naturalmente. Gosto de andar a pé, parar ao encontrar com um conhecido que agora mascarado dificulta a identificação. Amo ser conduzida por um bom motorista, que dirige calmamente, que estaciona quando vejo uma flor bonita no caminho, uma igreja perdida no mato, abandonada, só vivendo de lembranças.

Como é bom não ter carteira de habilitação, menos um número para fazer parte da memória. Sou caroneira de carteirinha, ando em carros de marcas variadas, não pago IPVA ou gasolina, basta descer no lugar desejado e agradecer a carona, não me chamem de folgada, por favor. Sou uma boa companhia, pelo menos acho.

Sou ave, alma de poeta, que não tem direção, voa quando quer, sozinha ou acompanhada, depende de fatores internos. não tenho parada certa, meu combustível é o pensamento, meus pneus são as palavras, meu motor é a inspiração. Muitas vezes fico parada, esperando a hora de arrancar, trafegar ao encontro daquilo que mais me atrai: a escrita.

imagem

Agora dá para entender por que não dirijo? Gosto de avistar o horizonte amplo, belo, com uma boa luminosidade, não gosto de olhar pelo retrovisor, o que ficou pra trás bom ou ruim, prefiro deixar quieto, melhor viver o hoje, o momento. Vou seguindo a vida, rodando ora com pressa, ora devagar, dirigindo como o mestre maior quer, ele sim, sabe dirigir muito bem.

Sou andante, errante, admiradora do espetáculo diário, sou poeta!.

Élida  Gontijo- agosto de 2021