por Amauri Artimos (@amauriartimos)
Promotor de Justiça aposentado, Vice-presidente do CMDCA/SL e presidente do Coral Dom Silvério

O Professor Fernandino Júnior nos deixou há 78 anos atrás (1º-05-1948). Em sua homenagem, trago à colação o belo artigo de seu ex-aluno Wander Manuel Moreira, colunista do Jornal Gazeta de Paraopeba, publicado nesse importante semanário por ocasião do falecimento do emérito educador: “Há pessoas cujo destino está marcado profundamente por episódios que as elevam à categoria de protótipos de uma pátria, de um povo ou de uma cidade. Assim foi o Prof. João Fernandino Júnior, Mestre incomparável, cuja vida foi dedicada à causa educacional. Ele foi não um simples ministrador de lições, mas algo mais do que isso. Pelo seu exemplo, sua dedicação, sua tenacidade e seu acendrado amor às Belas Artes e àquelas coisas que dignificam e elevam o homem, o Prof. Fernandino é, antes de tudo, um formador de caracteres, um plasmador de personalidades. Com sua morte ocorrida dia 1º deste, Sete Lagoas perdeu uma de suas mais representativas figuras em toda a sua história. Era Fernandino Júnior e, por isso mesmo, um dos seus mais queridos representantes. Provas exuberantes do quanto foi sentido o falecimento do ilustre educador, tivemo-las pelas homenagens que lhe foram prestadas, e que reverenciaram, com um carinho tocante, a memória ímpar de um sete-lagoano privilegiado. O Professor Fernandino faz jus àquelas demonstrações de pesar que lhe foram tributadas. Foi ele, mais do que qualquer outro, um apaixonado das belezas de Sete Lagoas. Com efeito, ainda no século passado, fez seus estudos brilhantíssimos na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Conseguiu ali o provinciano do remoto sertão de Minas altear-se por sobre seus companheiros de colégio e, graças à tendência acentuada para o desenho artístico e à vocação inata para o Belo, mereceu a honra de receber das mãos de Sua Majestade Imperial, D. Pedro II, Imperador do Brasil, a medalha do Mérito. Ninguém pensava que aquele jovem predestinado abandonasse a Capital Federal. Ali teria facilmente um futuro garantido. Suas qualidades e seu talento poderiam propiciar-lhe glória e fortuna. Mas a terra em que ele nasceu falou mais alto aos seus sentimentos. E ei-lo de volta à Minas que o viu nascer e à Sete Lagoas semibárbara que estava no seu sangue e era parte integrante de sua vida. Começa então aí a sua luta de abnegação e de sacrifício pelo progresso de sua terra. Era ele o propugnador incansável de todas as manifestações artísticas nas quais estava sempre à frente.
‘Músico admirável, foi o orientador e fundador das primeiras «euterpes» que Sete Lagoas ouviu. Sua glória maiúscula está, sobretudo, em suas composições musicais, nas quais canta as maravilhas naturais da «cidade lacustre». Como pintor, suas telas refletem, em toda a sua magnificência, os mais pitorescos e históricos locais de sua terra. Seus quadros, mostrando a Sete Lagoas antiga, constituem um patrimônio de inestimável valor artístico. Sua grande humildade nunca permitiu, porém, que ele expusesse fora de sua cidade os seus quadros. Por isso, somente pouquíssimas pessoas, por terem tido um contacto mais íntimo com ele, podem aquilatar a magnitude, o arrojo e a beleza de suas obras. Seu nome está ligado a todas as manifestações culturais de sua cidade, e a figura de Fernandino Júnior está em íntima união com os estabelecimentos de ensino que Sete Lagoas possui. Ao se falar em Fernandino Júnior, não se podem deixar no olvido os estabelecimentos escolares sete-lagoanos e vice-versa. Eles, unidos, completam-se. João Fernandino de Andrade Júnior foi, em toda a sua vida, um homem de trabalho. De conduta irrepreensível, foi sempre um lutador. Prova disso é ter sido o decano dos professores em Sete Lagoas. Mesmo quando já idoso e doente, não abandonava suas aulas e seus alunos. Com enormes dificuldades para andar, ainda assim nunca teve uma única falha no seu livro de ponto, no Ginásio D. Silvério ou na Escola Profissional. Educador dos mais completos, fazia de cada discípulo um amigo que ele estimava como a um filho dileto. Viu passar sob seus olhares de professor quase duas gerações de moços, para quem sua figura paternal ficará sempre gravada no escrínio de ouro das recordações inesquecíveis. O Prof. Fernandino Júnior, que teve toda a existência consumida no trabalho, foi surpreendido pela morte no dia Primeiro de Maio. Dolorosa, mas significativa coincidência!” (Jornal Gazeta de Paraopeba, 09-05-1948, Ano 38, Nº 2036, 1ª página).





