Coluna Tempo de Florescer – Feliz Dia das Mães. Mas, mãe, você está bem?

por Edith Machado | Psicóloga · Especialista em Florescimento Humano

A pergunta que quase ninguém faz, e que a psicologia diz que precisamos fazer urgente.

Essa semana as redes sociais vão se encher de emojis de flores, mensagens, fotos de cafés da manhã surpresa, almoços, presentes e frases bonitas sobre maternidade. Tudo muito merecido e sinceramente, eu adoro o Dia das Mães, mesmo não sendo, tradicionalmente, uma. Digo tradicionalmente porque tenho pets, sobrinhos, afilhados, e acredito que isso conta. Mas, voltando a um dos dias mais amorosos do ano, é lindo ver o reconhecimento às mulheres que nos deram a vida, pipocando no virtual e no real. Entretanto, ao longo desses quase 10 anos atendendo exclusivamente mulheres, aprendi na prática o que os dados científicos confirmam:  a saúde mental materna é, ainda hoje, um assunto que a gente empurra para debaixo do tapete. A mãe sorri na foto. A mãe agradece o presentinho. E a mãe vai dormir exausta, muitas vezes solitária dentro do próprio cansaço.

A Fiocruz conduziu o maior estudo sobre maternidade já realizado no Brasil: a pesquisa “Nascer no Brasil”, e o resultado foi contundente. Mais de 26% das mães brasileiras apresentam sintomas de depressão pós-parto no período de seis a dezoito meses após o nascimento do bebê. Uma em cada quatro mulheres.  Pensa nisso! Se você é mãe, e está lendo esse texto com outras três amigas mães ao redor, a estatística diz que uma delas (ou você mesma), pode estar sofrendo agora, e talvez não falou pra ninguém.

Por quê? Porque a maternidade ainda carrega um roteiro muito rígido sobre o que uma mãe “deve” sentir. E tristeza, vazio, ambivalência e exaustão profunda não estão na ordem do dia. Então, a mãe que se sente exaurida, esvaziada, esgotada, triste, apática, não conclui “preciso de ajuda”. Ela conclui “tem algo errado comigo”.

A depressão pós-parto pode acontecer logo após o nascimento do bebê, mas também pode aparecer um tempo depois. É comum, ao atender uma mulher no puerpério, fase que sucede o parto, chamar os companheiros delas para uma conversa. Conto nos dedos de uma mão, e ainda sobra, as vezes que eles receberam bem essa intervenção. Alguns negam com veemência o estado emocional das parceiras. Muitos dizem que elas estão realizando o maior sonho da vida, que a gravidez foi pensada, deseja, cuidada, e que elas não se sentem como elas dizem que se sentem. E essa postura não é apenas dos homens. A família em geral recebe muito mal a informação de que aquela mãe recente não está bem.

O puerpério tardio pode durar 45 dias em média. Mas o puerpério remoto não tem um tempo específico para passar e isso implica dizer que pode evoluir para um quadro depressivo profundo e complexo.

Para além das questões emocionais pós-parto, a ciência tem usado o conceito: “burnout parental”, para falar da sobrecarga da parentalidade, especialmente da necessidade de colocar a mãe no lugar daquela que dará “conta de tudo”. Os inúmeros afazeres, o excesso de responsabilidade, unidos a uma cultura de perfeccionismo materno e ausência de redes de apoio efetivas, coloca as mulheres mães em esgotamento físico e emocional severo.

Poderíamos falar muito mais sobre a realidade da precária saúde mental das mães, mas o que mais importa nesse texto é fomentar a ideia de que o relacionamento materno pode e dever ser construído com base em intimidade real. Presentes e mensagens são importantes, mas parar para conversar, ouvir, olhar nos olhos e dar espaço para as mães existirem enquanto seres humanos, e não apenas enquanto figuras maternas é essencial. Assim elas podem se permitir sentir sem culpa. Se tornam mais inteiras, podem florescer em meio ao desafio gigantesco que é maternar.

E se você é mãe, aqui vai uma dica para você mesma se presentear no Dia das Mães: se dê uma boa dose de compaixão. A pesquisadora Kristin Neff, da Universidade do Texas, dedicou décadas a estudar o que acontece quando as pessoas aprendem a se tratar com a mesma gentileza que ofereceriam a uma boa amiga. Ela chama isso de autocompaixão, e não é autoindulgência nem coitadismo. É uma postura ativa, com três componentes precisos: tratar-se com gentileza (em vez de autocrítica brutal), reconhecer que sofrer é parte da experiência humana compartilhada, e manter consciência equilibrada do próprio sofrimento, sem amplificá-lo nem ignorá-lo.

Pessoas com baixos níveis de autocompaixão tendem a ser mais críticas consigo mesmas, apresentam padrões de apego inseguro e maior vulnerabilidade à depressão e ansiedade. No contexto da maternidade, mães com maior autocompaixão relatam menos influência da culpa, maior presença afetiva com os filhos e mais capacidade de pedir ajuda quando necessário.

Traduzindo para o dia a dia de uma mãe: a mulher que se permite ser imperfeita sem se destruir por isso tende a ser uma mãe mais regulada emocionalmente e mais saudável. Parece um paradoxo mas é ciência do afeto. A autocrítica crônica, segundo estudos, ativa os mesmos circuitos de ameaça no cérebro que o medo físico. O corpo de uma mãe que se julga o tempo todo está, literalmente, em estado de estresse crônico.

Embora seja tentador desafiar a minha mãe, que respondia com um sonoro: “você não é todo mundo” quando eu suplicava para fazer algo que ela não achava viável, não farei como “todo mundo” e encerrarei esse texto com dicas mágicas para uma maternidade mais feliz. Mas termino com três perguntas: para você que é mãe, e para você que tem uma mãe ao lado:

Se você é mãe: quando foi a última vez que alguém te perguntou como você está, e você respondeu de verdade? Se faz tempo, talvez seja hora de começar a fazer essa pergunta para você mesma. Sem julgamento. Com a gentileza que você teria com qualquer outra pessoa que você ama.

Se você tem uma mãe perto: esse Dia das Mães, além do presente, considere perguntar, de verdade, olho no olho, com tempo para ouvir a resposta: mãe, você está bem? A resposta pode surpreender. E pode ser o começo de algo muito importante.

Se você fizer essa pergunta para a sua mãe, para si mesma enquanto mãe, e quiser dividir comigo a resposta eu vou adorar saber. Me chama no instagram: @edith__machado. Esse texto foi pra você ou para alguém que você conhece? Compartilhe. Toda semana um texto novo sobre psicologia, florescimento e a vida real. Se quiser conversar, me escreve pelo email:

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