Dá-me de tua casa

30/05/21 - 07:38

Padre Warlem Dias

“Barracos, plásticos, papelão, cem famílias, foram morar em situação deplorável, sub-humana, tentando não morrer, mas sobreviver, para que os seus sobrevivam.” Tirar deles o que? Não tinham nem cama e nem sonhos. Hoje, com a presença de muitas mãos, eles ganharam rostos e nomes, num esperançar!

“Nenhuma família sem casa”, é um sonho e uma busca, contida na fala do Papa Francisco. Luta de inúmeras famílias sem teto, invisíveis em nossa sociedade.  A pergunta dos dois discípulos, repete: “Onde Moras”? E a resposta de Jesus continua: Vinde e Vede! Jo 1,39. Convite para todos, a fim de que “nenhuma pessoa sem dignidade”.

Ouso, nestes dias da desocupação da Ocupação Cidade de Deus a pedir: Dá-me de Tua Casa. Dar da casa é um desafio. Implica em abrir-se e desinstalar-se, tornar-se hóspede. 

Dar da casa é participar da vida “daquela gente”, no convite “vinde e vede!” E permanecer com eles. 

Vivemos de medos e inseguranças. Temos uma aversão aos Pobres. Petrificamos os nossos corações. Fechamos as nossas casas. Nestes tempos duros é preciso ir além da casca dura da nossa existência. No silêncio, escutar e descobrir a essência no invisível que tem rosto e coração e precisa de ser cuidado. 

Cuidar é dar atenção, sentir a realidade do outro e vivê-la na gratuidade. Os cristãos são chamados a se tornarem casas, hospedaria, ser hospedes uns dos outros. A casa é o lugar do encontro, da hospitalidade e economia solidária onde a mesa é comum na partilha dos dons e bens da vida. Isso implica cuidado. Ser cristão é cuidar uns dos outros. Portanto, somos hóspedes uns dos outros, casa para outros. A casa não são paredes, mas as pessoas em suas relações de cuidado e ternura. Dá-me da tua casa! Saboreemos da companhia um do outro, na água da acolhida e no pão partilhado. Sejamos hóspedes uns dos outros!

O hóspede vive numa situação de dependência, aceita e aprecia o que lhe é oferecido. Vive-se da gratuidade de ser recebido, acolhido, alimentado e incluído no mundo familiar do OUTRO. O hóspede não incomoda, não é arrogante, está na casa do OUTRO, onde tudo é sagrado. O hóspede recebe a gratuidade da hospitalidade, torna-se um amigo, não vai ao OUTRO para ser venerado, ao contrário, recebe a beleza da face do outro, no seu jeito de falar e caminhar, da sua cozinha e amizade. O hóspede é alguém que está a caminho, aprende, ensina a sociedade do bem-estar a sair da bolha e da indiferença e assumir a hospedagem comum. Dá-me de tua casa!

Veja Mais