Leitor, um desafio de memória para você: lembra de alguma data deste mês de fevereiro que tivemos céu aberto e sol durante todo o dia? Se você pensou nos dias de Carnaval, está certo. Segundo a meteorologia, este foi o período mais chuvoso em Sete Lagoas após quatro anos – uma média seis vezes maior, comparado ao ano passado. Fenômenos contribuíram para que a média de precipitações da primavera-verão chegassem próximo da série histórica medida na cidade – mas a “bênção” é acompanhada de perto das autoridades, por conta dos constantes alertas de risco geológico, à sombra da tragédia acontecida na Zona da Mata.

Fevereiro caminha para o fim com uma marca expressiva: até essa quinta-feira (26), a cidade teve 254 milímetros de acumulado de chuvas registrada na estação meteorológica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), muito acima do esperado para o período, de 170mm. O especialista em meteorologia Lucas Soares aponta que a marca repete um feito conseguido há pouco mais de quatro anos: “Fevereiro de 2026 está sendo o melhor para chuvas no período desde 2022, quando foi a última vez em que a chuva ultrapassou a média histórica. Choveu 345,8mm, o dobro da média histórica devido a atuação de uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS)”, relata, apontado que até o final do mês é esperado mais água. Essa zona é um fenômeno conhecido como “rio aéreo”, que carrega umidade da região Amazônica para o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, com chuvas volumosas e persistentes. Em um comparativo com o ano passado, a estação instalada na Embrapa registrou pouco mais de 40,8mm, uma quantidade seis vezes menor do que em 2026. Em outro ponto da cidade, no bairro Boa Vista, foi mensurado até esta semana acumulado de 236,4mm.
Nessa quarta-feira (26), institutos de meteorologia já apontam a nova formação da ZCAS entre a região central e norte de Minas, com duração até domingo (1º/3). Essa é a quinta vez no ano que o fenômeno aparece, a primeira delas em fevereiro. Antes, Sete Lagoas estava sob a influência de outro efeito conhecido da meteorologia chamado de cavado, onde a umidade alta e o calor permitem que se criem “fábricas de nuvens”, que trazem chuvas constantes e potencializam a formação de temporais.
Este sistema permitiu que parte da Zona da Mata mineira fosse fortemente impactada com as precipitações, causando o que é chamado de maior desastre do verão 2026 até então. Com as chuvas intensas, as cidades de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa foram as mais impactadas: mais de 50 pessoas morreram por deslizamentos de terra e desaparecidos são buscados em meio à lama e aos escombros. A Defesa Civil inclusive emitiu, pela primeira vez em Sete Lagoas um alerta sonoro severo para risco geológico na terça-feira (24) nos celulares da população.

Verão com chuva dentro do esperado
O recorde de fevereiro ajudou a “contabilidade” da média de precipitações durante a primavera-verão. Lucas Soares relata que as chuvas apareceram de forma gradativa, com dezembro de 2025 tendo média dentro do previsto: “De outubro de 2025 até agora, choveu aproximadamente 1100mm. O normal é ter média entre 1200 a 1400mm”, relata. Janeiro, um mês conhecido pelas águas, teve acumulado 34% acima da média. “A concentração das chuvas fora entre os dias 2 a 5, 18 a 23 e 29 a 31 de janeiro”, completa Lucas, relatando que a motivação para tanta água foram a formação das ZCAS.
O especialista aponta que março começa com uma diminuição no volume das precipitações, mas dentro do padrão esperado para o período.
Como funciona a medição
Tanto Lucas Soares como o INMET utilizam um pluviômetro para calcular a quantidade de chuva caída em Sete Lagoas. O objeto, que tem histórico de ser usado desde a antiguidade, foi aperfeiçoado a partir do século XVII e permite a coleta da água da chuva com a sua conversão no sistema de metragem. O modelo utilizado pelo especialista é manual, onde todos os dias são anotados os dados; já o da estação do INMET na Embrapa é automático e faz parte da rede nacional de dados de meteorologia, com outros sensores como a temperatura e umidade do ar.
No Brasil, é usado o padrão internacional para medição das chuvas, adotando o sistema de milímetros, onde 1mm equivale a um litro de água por metro quadrado. Então, pode-se afirmar que houve precipitação de 25 litros por metro quadrado em Sete Lagoas neste mês de fevereiro. Para efeito comparativo, a cidade de Juiz de Fora, impactada fortemente pelas chuvas, recebeu até essa quarta-feira (25) 733mm, ou seja, mais de 70 litros por m².





