Da fundação do Hospital Nossa Senhoras das Graças à chegada do Regional, com direito a visita do Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, um dos pioneiros mundiais em transplantes do coração

A história de Sete Lagoas como referência de Saúde na região central de Minas Gerais, começa em 7 de março de 1880, com a fundação do Hospital Nossa Senhora das Graças, pela Irmandade de Nossa Senhora das Graças, associação religiosa, civil, de utilidade pública, filantrópica, de caráter beneficente, a sua mantenedora há 146 anos.

Nos anos 1950 a instituição passou por grande modernização e crescimento no atendimento, com a vinda de especialistas em diversas áreas médicas, além da ampliação física de suas dependências. Graças a um grande trabalho de mutirão comunitário que envolveu o Bispo Diocesano, padres, fiéis, médicos, políticos, lideranças comunitárias e a população em geral. Com destaque para nomes que se tornaram nomes de ruas, avenidas, praças e prédios públicos e privados, como Monsenhor Messias, Márcio Paulino, Juvenal Paiva, Dr. Ulisses Gabriel de Vasconcelos (primeiro provedor), Dr. Bernardo Alves Costa, entre outros.
Hoje, o HNSG é um importante prestador SUS do Estado e mantém enorme gama de serviços à população de Sete Lagoas e mais 23 municípios circunvizinhos, com procedimentos de Alta e Média Complexidades.
No mapa da saúde nacional
No início dos anos 1970 os serviços de Saúde da cidade entraram no mapa da visibilidade nacional e internacional, ao receber a visita de um dos mais renomados cardiologistas do país, professor Euríclides de Jesus Zerbini, que havia realizado com sucesso o quinto transplante de coração do mundo e o primeiro da América Latina, em maio de 1968, em São Paulo.
Mais precisamente em março de 1973 ele passou um fim de semana em Sete Lagoas, onde fez, na tarde do dia 17, a palestra “Revascularização do Miocárdico”, no auditório do INSS, cedido por José Augusto Faria de Souza, na época chefe da agência local. À noite foi homenageado, numa grande recepção no Iporanga Social Clube, oferecida pela prefeitura, cujo o prefeito era Sérgio Emilio de Vasconcelos, que lhe entregou a primeira Medalha de Mérito por relevantes serviços prestados à Ciência.
Essa vinda se deu graças a um aluno dele, de pós-graduação em Cardiologia Clínica, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo: Dr. Ivan Coelho Maciel, que integrava a equipe da Clínica Cirúrgica, chefiada pelo professor Luis Venére Decourt, junto com mais 24 médicos: 12 do Brasil (três de Minas), e 13 estrangeiros, das Américas do Sul e Central, com predomínio de cinco argentinos.
Todas as segundas-feiras pela manhã, havia reuniões chefiadas pelos Drs. Decourt e Zerbini, com todos os médicos clínicos e cirurgiões. Nestes encontros, discutiam os casos, e faziam as programações das cirurgias da semana, tarefa esta que era dos cardiologistas clínicos. Havia pacientes de todo o Brasil e da América do Sul.
Uma visita inacreditável
A vinda do Dr. Zerbini foi uma grande surpresa e provocou dúvidas inclusive na classe médica mineira, já que muitos questionavam: “não acredito, o que ele vem fazer nesta pequena cidade?”. Foi um espanto quando a notícia se confirmou com os cartazes espalhados pela região anunciando a palestra que seria ministrada por ele. Na época Sete Lagoas com seus 40 mil habitantes, tinha 28 médicos, e uns poucos nas redondezas.

Há 36 anos residindo em Belo Horizonte, Dr. Ivan Coelho Maciel vem pouco a Sete Lagoas; apenas em ocasiões especiais de compromissos familiares. Escreveu dois livros em que conta histórias da vida e da profissão. Entrevistado sobre essas obras pelo SETE DIAS, ele deu detalhes sobre como conseguiu trazer o Dr. Euryclides Zerbini à cidade: foi convidado para integrar a comitiva dele para o Congresso Panamericano de Cardiologia, no Paraguai, junto com outro colega de pós-gradução, o pernambucano de Recife, José Lúcio Albuquerque Cavalcanti, e se aproveitou da oportunidade.
Aproveitando a oportunidade
O Congresso em Assunção seria no dia 8 de setembro de 1971, mas no dia 7, data da comemoração da Independência do Brasil, haveria uma solenidade para a qual o Dr. Zerbini era convidado e os levou junto. “Foi num palácio muito bonito; eu nunca tinha entrado num lugar assim e muito menos numa embaixada. O jantar servido nos jardins iluminados e os convidados sentados em mesas de quatro lugares. Dra. Dirce, a esposa do Dr. Zerbini, estava sentada numa mesa, à espera do marido, que dava entrevistas para a televisão local. Eu e o meu colega de Recife, nos sentamos na mesa com ela até o professor chegar. Quando ele chegou, levantamos para deixá-los mais à vontade, mas ele não permitiu a nossa saída, e ficamos nós quatro na mesa.”, relata o Dr. Ivan. “Fomos conversando, fui convidado a integrar a equipe dele, para trabalhar em São Paulo. Honrado e surpreso, disse ao professor que gostaria muito, mas tinha vontade de voltar para a minha cidade, Sete Lagoas, pequena, de 40 mil habitantes, para ajudar a minha mãe, por tudo que ela fez por mim, pois ela era viúva, tinha dez filhos e eu era o mais velho.”, disse.
“A conversa continuou e o professor dizia que tinha que divulgar o seu trabalho, nesta época ele tinha pouco mais de 50 anos de idade e viajava o mundo inteiro. Então perguntei a ele: vou voltar para Sete Lagoas, se eu o convidar fazer uma palestra e me prestigiar em minha cidade natal, o senhor vai? Ele rapidamente me respondeu: “aceito, é só marcar a data”. Estávamos em 1971, cheguei a Sete Lagoas em meados de 1972. Será que é verdade? Ou estou sonhando? O professor irá a Sete Lagoas? Passado o ano de 1972, nos encontramos em um Congresso, juntamente com o Dr. Sérgio Almeida de Oliveira, seu assistente no Hospital das Clínicas, que está vivo e ainda opera com o seu filho, Dr. Marco Antônio. Marcamos a data para 17 de março de 1973”.
Atualidade da nossa Saúde
Sobre a evolução dos serviços de saúde em Sete Lagoas e o atual momento, o Dr. Ivan Coelho Maciel afirma que “seria injusto com os colegas de outras áreas, que moram aí, eu opinar, pois mudei da cidade em 1990, ou seja, há 36 anos, mas, da parte, que é a Cardiologia, minha principal área de atuação, tenho notícias que melhorou muito, sob o comando do Dr. Antônio Fernandino de Castro Bahia Neto, cardiologista, hemodinamicista e cardiologista intervencionista, com larga experiência, que vem solucionando os casos na cidade e nas cidades vizinhas, evitando transferências para Belo Horizonte. Com a chegada do Hospital Regional, certamente haverá grandes avanços em todas as áreas, principalmente na tecnologia.”, conclui.






