O primeiro dia das mães

da Redação

O Dia das Mães é o mais especial no calendário das datas comemorativas anuais e não há ser humano que fique indiferente a ele. Para algumas pessoas, mais especial ainda, como no caso da Bruna Maia Rocha Aflalo.

Bruna e Beatriz

Em 2023, ela perdeu a filha, Alice, de cinco anos; uma dor insuperável, mas que foi amenizada por ela e pelo marido, Bernardo, com dois livros publicados: “Aos seus pulmões” e “Qualquer coisa parecida com esperança”, pela Editora Letramento – www.amazon.com.br/seus-pulmões – www.editoraletramento.com.br. Neles são contados detalhes dos primeiros sintomas de uma doença rara que a acometeu e dos penosos dias de tratamento, na esperança de uma recuperação, além de reflexões sobre a vida naqueles duros momentos. Eles também percorreram duas vezes, em dois anos consecutivos, o Caminho de Santiago de Compostela, caminho francês em 2024 e o caminho português em 2025.

Alice estava com 11 meses quando adoeceu, em abril de 2019, poucos dias antes de fazer um ano. O diagnóstico de bronquiolite obliterante demorou um pouco a ser fechado, porque a evolução dela foi muito grave desde o início. Ela partiu aos cinco anos, em julho de 2023

Antes do lançamento do segundo livro, em novembro do ano passado, Bruna disse em entrevista ao SETE DIAS: “Escrevi para sobreviver. Depois da morte da minha filha, já não existia a esperança que sustentou o primeiro livro. O que restou foi a necessidade de encarar a ausência e buscar um chão possível. O livro nasce dessa urgência de continuar vivendo quando nada mais faz sentido e também do meu desejo de manter a memória da Alice viva em outros espaços além de dentro de mim.”

Mas Bruna e Bernardo foram fortes e no último dia 27 de abril, nasceu Beatriz, a irmãzinha de Alice.

E Bruna atendeu ao pedido do SETE DIAS para escrever sobre este novo momento, de celebração ao dia das mães.

ARTIGO

por Bruna Maia Rocha Aflalo

13 de maio de 2018.

Meu primeiro dia das mães.

Fazia um friozinho gostoso. Alice, então com 20 dias de vida, estava aninhada em meu colo e nós usávamos roupinhas combinando. Ela com um body escrito “baby dragon” e eu com uma camiseta “mother of dragon”. A felicidade era tanta que em nenhum momento passou pela minha cabeça que odiaria o dia das mães dos anos subsequentes. A alegria tem dessas coisas: quando a sentimos, acabamos nos enganando e achando que será eterna.

Em abril do ano seguinte, Alice adoeceu. Foram mais de 4 anos de tratamento. Nós nos mudamos de cidade. Passamos por vários hospitais. Vivemos o que nenhuma família deveria viver. Desde então, passei a ignorar o dia das mães. No meio de 2023, quando Alice partiu, a data que eu tinha passado a ignorar tornou-se aversiva. Em 2024 e 2025, quando maio se aproximava, já evitava os comerciais de televisão e qualquer menção ao dia que todos celebravam. Não queria presente algum, já que considerava que meu único dia das mães tinha sido aquele em que éramos a bebê dragão e sua orgulhosa mãe.

Há poucos dias nasceu minha segunda flor de abril. Seu nome é Beatriz. Leonina como a irmã, nasceu quase no mesmo dia em que a Alice chegou a este mundo oito anos atrás. Terá 13 dias de vida quando o segundo domingo de maio chegar. Consigo prever que também fará um frio gostoso, mas não sou capaz de dizer o que sentirei quando o dia das mães chegar. O que sei é o que sinto agora: este será meu primeiro dia das mães com Beatriz, assim como o de 2018 foi o primeiro com Alice. Será o primeiro dia das mães marcado por ter parte de mim no céu e a outra parte em meus braços. O primeiro em que os olhinhos da Bia me olham fixamente e eu me vejo novamente florescer como mãe, sem que isso apague em nada o que vivi com Alice.

Pensando nisso, chego a um pensamento: não seriam, todos os anos, nossos primeiros dias das mães? Uma mãe, em algum lugar, passará o dia vivendo algo que nunca viveu com seu filho. A minha, por exemplo, é mãe há mais de 40 anos e, ainda assim, viverá algo único dessa vez ao presenciar sua filha, até então sem cor, retomar parte do brilho de viver. Olhando para isso, escrevo com lágrimas nos olhos ao pensar em quão profunda é a maternidade. Profunda e extenuante em grandes medidas, mas também uma das experiências mais transformadoras que conhecemos.

Independentemente da idade de nossos filhos, que no próximo domingo possamos passar o dia celebrando nosso primeiro dia das mães. Não importa quantos segundos domingos de maio já tenhamos vivido. Alguma coisa, nesse dia, será inédita. Alguma coisa marcará esse momento diferentemente de todos os outros anos. Nem sempre, infelizmente, as marcas serão positivas. Algumas vezes, inclusive, elas machucarão como nunca. Ainda assim, serão nossas marcas. Aquelas que nos fazem únicas e que nos tornam as mães reais que somos.

Pela idade e as limitações advindas dela, não sei se passarei pela experiência de outro dia das mães com uma recém-nascida nos braços. Mesmo assim, viverei meus segundos domingos de maio tentando percebê-los melhor.

Há alguns anos não digo mais “feliz dia das mães”. O que gostaria de dizer, então, a todas nós, é que possamos acordar no próximo domingo reconhecendo-o como nosso primeiro dia das mães. Não porque seja leve ou como o idealizamos, mas porque será diferente de todos os outros e esse, talvez, seja justamente o motivo de ser tão verdadeiro.