Colunista Convidado – Verdade e castigo

por Alexandre Toledo

Hoje, na volta do trabalho, que sempre me parece mais longo na volta do que na ida, vinha eu atravessando uma chuva indecisa, dessas que não molham de uma vez nem deixam a gente em paz. O sol, teimoso, ainda espiava por trás das nuvens. E eu, entre poças e pensamentos, ia me arrastando sem pressa, que é o único luxo possível depois de um dia inteiro gasto.

Foi quando ele me viu.

Ou talvez eu é que tenha sido visto, o que, no fundo, dá no mesmo, mas dói diferente.

Veio vindo de longe, empurrando um carrinho de sucatas que rangia mais que conversa de velho. Aproximou-se com uma familiaridade imediata, dessas que a cidade às vezes fabrica sem explicação, e apontou para os meus ouvidos:

— Olha só! Nossos fones são iguais.

Olhei os dele, olhei os meus. Eram mesmo. E nesta coincidência de aparelhos eletrônicos que nos proporcionam alguma quantia de felicidade, sorri, porque nesses casos não há muito o que fazer além de concordar com o destino.

— Verdade — respondi, como se aquilo nos tornasse, por um instante, parentes.

Não perdemos tempo com formalidades. Ele foi direto ao ponto de sua provocação:

— Quem fala a verdade merece castigo?

Achei curioso. Não era pergunta de quem pede moeda, era de quem pede resposta. Pensei dois segundos, o suficiente para não parecer impulsivo, mas não o bastante para ser inteligente.

E, como bom provocador que também sou, respondi:

— Depende da verdade, falei, mais para ganhar tempo do que por convicção.

Ele pareceu satisfeito, como se eu tivesse passado em um teste, e então começou a se explicar, com uma franqueza que me deixou desconfiado, não dele, mas de mim.

Contou do trabalho à noite na fábrica, do carrinho quebrado, das peças que se soltaram, e, sobretudo, contou de si mesmo:

— Sou alcoolista.

Disse isso com a naturalidade de quem informa o próprio nome.

Em seguida, completou:

— Um rapaz ali me deu dois reais… você não pode ajudar com alguma coisa? Nem que seja pra uma dose pequena.

Fiquei parado. Não pela pobreza do pedido, mas pela riqueza da sinceridade. Aquilo me desarmou de um jeito incômodo. Fiquei sem mão, sem pé, sem braço e sem perna. Tentei escapar, procurando saída honrosa:

— Não tenho dinheiro físico agora.

Ele nem hesitou:

— Sem problemas. Eu tenho pix!

E sorriu. Um sorriso que misturava esperteza e inocência, combinação perigosa.

Ali, confesso, perdi o rumo novamente. Não era mais uma esmola, era quase um argumento. Ele me devolvia minha própria frase cobrando coerência:

— Você disse que depende da verdade. Eu estou sendo sincero.

E estava mesmo. Esse era o pior ou o melhor dos males todos.

— Vamos deixar pra uma próxima — respondi, já sem muita convicção de nada.

— Tá certo — disse ele, sem insistir, como quem também já aprendeu a não esperar muito.

E foi embora.

Mas não foi muito longe.

Logo abordou o homem que passara enquanto conversávamos, repetindo, sem muita simpatia:

— Irmão, irmão, irmão! Quem fala a verdade merece ser castigado?

O sujeito nem parou direito. Olhou de lado, desconfiado, e respondeu quase de reflexo:

— Merece, ué.

E seguiu andando, aliviado por ter resolvido a questão com rapidez.

O pedinte ficou parado por um segundo, como quem recebe uma sentença. Depois deu de ombros, gesto breve, resignado, e continuou empurrando o carrinho.

Eu fiquei.

Fiquei ali, não sei se por pena dele ou por desconforto comigo. Porque, no fundo, percebi que a pergunta não era dele. Era minha.

E a resposta também.

Continuei meu caminho pensando que talvez a verdade não mereça castigo, mas costuma cobrar um preço. E, naquele fim de tarde, quem pagou fui eu, com a pequena, porém irrefutável, consciência de que minha recusa não foi por falta de dinheiro.

Foi por excesso de justificativa.

E isso, convenhamos, é uma mentira bem educada.